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REFLEXÕES SOBRE LITERATURA E CINEMA

Fernanda Villas Boas

ALPHAVILLE: UM FUTURO VISIONÁRIO

“Alphaville” é uma ficção científica diferenciada, dirigida por Jean Luc Godard( 1965) e claramente inspirada pelos filmes noir, que foca mais nos aspectos filosóficos e existenciais do que nos avanços tecnológicos que o futuro pode proporcionar. Com seu costumeiro apreço pelo aspecto técnico, Godard consegue criar um longa futurista extremamente sombrio, que remete diretamente ao lado negro da humanidade, quando esta deixa de dar o devido valor aos sentimentos e a relação humana para favorecer a tecnologia.


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Alphaville (Une Étrange Aventure de Lemmy Caution) foi dirigido por Jean Luc Godard em 1965 e aponta para um futuro visionário do que seria o mundo algumas décadas depois com a tecnologia e o comando dos computadores. Numa época onde ideias e filosofias brotavam e ferviam novos hábitos e comportamentos, o filme impressiona por prever simbolicamente a falta de amor e de sentimento abolidos pelo comando do computador Alpha 60, que seria o poder da máquina sobre o ser humano. Também, é uma cidade fora da galáxia, um começo de outro mundo, no sentido metafórico.

O filme é conduzida por uma espécie de narrador, que somado ao visual sombrio e predominantemente noturno do longa, revela a clara inspiração nos filmes noir. De maneira mais explícita e menos sutil que no cinema de Truffaut, o erotismo e a sensualidade também estão presentes nos filmes de Godard. Em “Alphaville” não é diferente e, ainda que neste caso a maioria das mulheres tenha um papel apenas secundário numa sociedade que aboliu o amor, a carga erótica se faz presente, por exemplo, através das acompanhantes que se oferecem à Caution ou da mulher presa nua dentro de um vidro, que serve também para revelar a forma como aquelas pessoas olhavam para a mulher. Numa sociedade sem sentimentos, a mulher se tornou mero objeto sexual.

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A trilha sonora de Paul Misraki pontua os momentos de suspense, algumas vezes de maneira exagerada, e os momentos românticos, sempre que Natacha está em cena. Nesta cidade cinzenta, as pessoas tinham chips gravados em seus braços.

A cidade de Alphaville é comandada pelo computador Alpha 60, que aboliu os sentimentos em seus habitantes. Lemmy Caution (Eddie Constantine) é um agente enviado ao local, com a missão de encontrar o professor von Braun, criador de Alpha 60. Seu objetivo é convence-lo a destruir a máquina. No percurso, Natacha (Anna Karina), a filha do professor, lhe guia.Com uma sutil analogia com o que estamos começando a viver agora, cinquenta anos após a produção deste filme adiante do seu tempo.

alphaville_07.jpg Mistura interessante de ficção-científica e noir em um dos melhores filmes de Godard já feitos.Godard se cercou de elementos literários encontrados em "Admirável Mundo Novo", de Aldous Huxley e principalmente do livro "1984", de George Orwell. Um futuro autoritário com restrição vocabular e um super-olho onipresente. A bíblia de Alphaville é um dicionário e esse passa por constantes alterações, com objetivo de oprimir a população e mantê-la ignorante. Para o supercomputador, pessoas normais não têm lugar nessa cidade e não merecem viver, para isso, há duas alternativas: o suicídio ou a recuperação em um “hospital”.

O protagonista pertence aos chamados “países exteriores”, aparentemente sociedades opostas a Alphaville. Ele deve convencer o professor Von Braun a retornar à sua terra natal, e caso ele rejeite deverá ser assassinado. Para essa missão, Natasha (Anna Karina), a filha do pesquisador, contribuirá com o justiceiro. Outra grande qualidade que vale salientar são os belíssimos diálogos e a sociedade ignorante montada pelo cineasta. Filme imprevisível e denso, com caráter sublime e futurista.

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Lemmy Caution (Eddie Constantine)transmite segurança naquilo que busca e jamais esmorece diante daquela cidade tão ameaçadora. Uma espécie de detetive futurista destemido que parte em busca de respostas na racional e fria Alphaville, Caution se mostra um homem inabalável, inteligente e, exatamente por isso, difícil de ser decifrado pelo inteligente computador. Em todo momento Caution mostra que será difícil convencê-lo a seguir as regras locais, o que o transforma numa séria ameaça para o controle da cidade e torna seus deliciosos diálogos com o computador Alpha 60 em momentos tensos e imprevisíveis.

E por falar no responsável pelo controle de Alphaville, a perturbadora voz do temível “Alpha 60” é destas coisas que só o cinema é capaz de produzir e ficam na memória do espectador eternamente. Natacha von Braun ( Anna Karina) é uma mulher afetada pelo rígido método de controle local e que foi obrigada a “apagar” da memória todo e qualquer registro de sentimento que pudesse carregar“Alphaville” é uma ficção científica diferenciada, claramente inspirada pelos filmes noir, que foca mais nos aspectos filosóficos e existenciais do que nos avanços tecnológicos que o futuro pode proporcionar. Com seu costumeiro apreço pelo aspecto técnico, Godard consegue criar um filme futurista extremamente sombrio, que remete diretamente ao lado negro da humanidade, quando esta deixa de dar o devido valor aos sentimentos e a relação humana para favorecer a tecnologia.

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