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REFLEXÕES SOBRE LITERATURA E CINEMA

Fernanda Villas Boas

AMOR

Amour (2012) é dirigido pelo austríaco Haneke e busca nos mostrar a dificuldade de um homem que, casado a vida inteira com sua mulher, passa pela luta de vê-la em estado vegetativo sobre uma cama. Ao não suportar a situação, Georges, o protagonista, mata Anne através da eutanásia. Será que o amor se des-constrói diante da morte? Uma pergunta universal. Uma vida finita, com a visão da morte forçada, colocando em questão o direito que se tem sobre vida de outro ser humano, principalmente daquele a quem se ama mais.


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Amor é um filme dirigido por Michael Haneke (2012) e conta a trama da degeneração do corpo e da mente de Anne, casada com Georges. e sua paulatina perda dos sentidos devido a um derrame.

O drama se passa quase que inteiramente dentro de um espaçoso apartamento, cuja mobília e decoração denotam uma vida inteira de bom gosto. Há arte por todos os lados, móveis de madeira pesada e uma preocupação especial com a qualidade da música, a grande paixão do casal idoso que ali vive. O aparelho de som moderno - mas ainda um CD player, físico - destoa sutilmente das cadeiras antigas e das "mantinhas" que aquecem os velhos em seu companheirismo de décadas.

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O cenário, porém, aos poucos se transforma - mas apenas em contexto. Sem qualquer mudança além do equipamento hospitalar e dos rostos novos que surgem como apoio à esposa que definha, uma invasão à história gravada ali, o que era uma casa de pessoas cultas de outra época torna-se lentamente um mausoléu. A arte nas paredes vão ficando mais opressivas, os móveis mais pesados e a habilidade de desfrutar da arte, adquirida com esforço e dedicação e acumulada como um conforto futuro, esvazia-se. Schubert vira "Sur le Pont, d'Avignon", cantiga maternal de crianças francófonas. E no imponente hall de entrada, uma pomba teima em entrar (na cena mais silenciosa e agoniante do filme), como fazem essas aves em monumentos vazios.

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Jean-Louis Trintignant ( George) e Emmanuelle Riva ( Anne) os protagonistas, fazem um trabalho assombroso como músicos aposentados que seguem desfrutando a cultura erudita enquanto soam verdadeiramente apaixonados, com uma intimidade adquirida ao longo de uma vida. Até que um dia, sem qualquer aviso, ela sofre um derrame - e começa a lenta descida até o inevitável fim, em que, aos poucos, tudo desaparece, o bom-gosto, a dignidade, a identidade. Só o amor não evanesce - e Georges segue ao pé da cama, cuidando da esposa com devoção pragmática, aferreado a uma promessa.

Haneke é brilhante em suas escolhas, da abertura - que estabelece o que devemos esperar do filme - às cenas cotidianas de tratamento e os pequenos momentos de absurda tensão, que nesse cenário doloroso ganham proporções épicas, como o confronto com a enfermeira ou as discussões com a filha (Isabelle Huppert). A direção de atores é impecável, bem como suas escolhas estéticas e o roteiro incisivo. Como o protagonista, conhecemos o final, sabemos o que esperar da história, mas quando o golpe chega, ele é certeiro e esmagador.

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Em uma noite como outra qualquer, Anne se torna, dolorosamente, uma vítima de sua idade, que lhe ataca com um provável derrame. A saúde física e mental da mulher se deteriora de maneira acentuada, e seu marido, dono de uma personalidade no mínimo heroica, assume o cargo moral de ajudá-la da melhor forma que lhe for possível.

No decorrer da doença, Georges tem uma crise de nervos e decide fazer uma eutanásia na mulher sofrida sobre uma cama.Como encarar a finitude e o adeus lento de alguém que se ama e ao longo da vida foi sua companheira? Quem suporta ver o outro ir morrendo aos poucos?

Como de costume, a obra de Haneke traz um ritmo lento, por vezes incômodo, que através de cenas rotineiras – até mesmo banais – alcança um realismo apurado, algo único de fato. Em Amor o diretor escolhe, na maioria do tempo, ser franco e direto, ofertando uma análise visceral sobre nossa mortalidade e argumentando a falta de opções por uma morte digna em nossa sociedade. Ao mesmo tempo, com a relação do casal (que oferece tocantes momentos de ternura), a fita exalta a honestidade e respeito de um amor verdadeiro, e todo o companheirismo que lhe é inerente.

Haneke, no entanto, não retrata um amor romântico. Marcadamente pessimista, como toda obra do diretor austríaco, esse filme não vê no amor um sentimento de transcendência, etérea ou eterna, que aponta para um passado mítico ou um futuro redentor. Em Haneke, as flores do amor são cortadas rente ao caule. Tal, no cinema, como um corte seco. Por que, então, Amor logo no título?

Além de encarar a morte frente a frente, Amor é um filme sobre o corpo e a matéria que nos coliga ao mundo. Contudo, Haneke filma corpos velhos, falhos, numa lenta decomposição, numa corrosão que carcome os poros da pele pelos cantos, por todos os lados daquele apartamento. Ainda que degenerativa, a doença de Anne, interpretada por Emmanuelle Riva, representa dramaticamente esse lapso do corpo. Anne parece desconectada do mundo. Na cena em que emergem os seus sintomas, ela entra num transe que não é místico, mas nulo, que não leva a lugar algum. E, mesmo com o personagem ausente, fora de si, a matéria não deixa de pulsar, como realça o sutil som ambiente dessa seqüencia, quando ouvimos a água da pia contínua e indiferente a esses sofrimentos demasiadamente humanos.E o provável espírito simbolizado por uma pomba que caminha no hall da casa após a morte de Anne e deixa uma luz fraca atravessar a janela para o finito.

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