imagens e palavras

REFLEXÕES SOBRE LITERATURA E CINEMA

Fernanda Villas Boas

ESSE OBSCURO OBJETO DE DESEJO

Em " Cet obscur objet du désir" - traduzido por Esse obscuro objeto do desejo (1977) -, o genial diretor espanhol Luis Buñuel nos apresenta sua última obra prima, inteligente, artística e completamente psicológica. Seu último trabalho no cinema deixou marcas grandiosas. A obra narra a história de um homem prestes a entrar na terceira idade, com uma grande frustração sentimental, a jovem que o rejeita com sadismo e sedução.


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Logo após Mathieu (Fernando Rey) entrar em um trem, ele joga um balde de água numa bela jovem que estava na plataforma, causando uma grande surpresa para os passageiros que ocupavam a mesma cabine de Mathieu. Ele resolve explicar para os outros passageiros a razão do seu ato e lhes conta que ficou bem obcecado por Conchita (Carole Bouquet), uma bela arrumadeira que parecia nunca ter trabalhado antes com as mãos. Começou então um jogo de gato e rato no qual Mathieu, um homem rico e sofisticado que está entrando na 3ª idade, tenta obsessivamente ganhar os afetos de uma jovem de 18 anos. Assim ela manipula o desejo carnal dele e cada um tenta ganhar absoluto controle sobre o outro.

É uma obra hermética, e entendemos o filme pela protagonista que está sempre mudando seu arquétipo persona para o arquétipo da sombra sem o direitor avisar. Pode ser por isso confuso como um sonho, pois é surreal e de uma beleza única. A cena inicial, em que Mathieu joga um balde de água na jovem, é de causar estranhamento mesmo. O que causa inquietação é a perseguição e insistência de ambos. Ela o manipula sadicamente negando-lhe o sexo. Ela goza com esta negação do desejo e uma sedução que nunca se concretizam. Ele tenta conquistá-la, possuí-la através de bens materiais. Há um choque de cenas, algumas vezes, a linearidade é quebrada por alguns flashbacks, ou algumas cenas que não fazem parte do enredo. Alguns aspectos políticos são mencionados no filme, situação econômica, a inflação, os atentados terroristas, aliás, é bastante intrigante o nome dado aos terroristas: “Grupo Armado Revolucionário do Menino Jesus”, uma vez que Bunnuel sempre critica a Igreja Católica em seus filmes.

É surrealista como Buñuel faz, o jogo de oposições na protagonista ao colocar duas atrizes diferentes em cena, alternando a aparição delas, como se fosse uma Conchita boa, educada, ingênua e comportada, e a outra, perversa, má, esperta e muito ousada. Duas partes da mesma mulher. É uma forma de demonstrar nas imagens, a esquizofrenia da jovem que expõe tanto a persona como a sombra desejável e erótica. Mathieu as vê como duas meninas completamente diferentes, uma o tinha como um pai, alguém que pudesse lhe dar apoio, enquanto a outra, queria aproveitar da situação para fazê-lo de capacho. E com isso, ficava muito expressiva, e muito nítida o quanto nem mesmo Mathieu conhecia Conchita, criando uma euforia metafórica.

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Muitas vezes o que se vê, não é o que se vê, o que se vê, muitas vezes pode-se tratar de fluxos imaginários ou subconscientes dado às técnicas surrealistas. Um detalhe que merece uma devida atenção, é o desenho de capa do filme, o cartaz, na qual notamos a figura de uma boca amarrada, fechada ou lacrada, com linhas ou barbantes talvez. Faz alusão ao enredo, o drama do filme, à busca constante por algo que não se pode ter, ou que nunca se terá, mas que não deixa de ser desejado. Quanto mais ela se amarra, mais ele a deseja.

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Buñuel nos oferece uma leitura diferente de cinema, uma reconstrução da mente, desejos e fantasias. A memória é reconstruída por fragmentos, e são estes que constroem no filme a fantasia do personagem Mathieu, pois ele vive na expectativa de possuí-la. Conceição insiste argumentar que Mathieu não a ama verdadeiramente e sim sua “conchita”, não cedendo ao desejo dele. Mathieu por sua vez, insiste que para possuí-la precisa amá-la e mostra isso transformando-se em escravo da vontade dela. E como é irônico esse termo que apelida a protagonista, Conchita, que certamente pode-se ler como o "obscuro objeto de desejo" tão enfatizado na obra e tão desejado por Mathieu, a "conchita" da jovem Conceição. Conchita fora atraída por Mathieu pelos seus olhos que dizia ela serem ternos e brilhantes, ou seja, ele era um homem bondoso. São os olhos de um pai imaginário, até tem uma fala que ela diz: “O que posso fazer é amá-lo com loucura e me manter intacta para você”. E como possuía dupla personalidade (para Mathieu) dizia grosseiramente às vezes que "o violão era dela, e ela tocava pra quem ela quisesse’. Para Conchita manter-se virgem era o mesmo que ser dona da vontade de Mathieu. Traduzindo para a nossa realidade, o objeto de desejo obscuro nada mais é do que o objeto do desejo impossível que leva ao delírio. Há uma tensão entre Mathieu, e seu masoquismo, ao submter-se aos caprichos de Conchita. Com a crítica embutida na virgindade de Conchita, o filme se desenrola, até mostrar a sombra dessa mulher, num cabaré,pintada e desejada pelos homens. Mathieu fica ainda mais enolouquecido e casa com ela, assisitindo-a trepar na sua frente com outro homem. Esta cena desfaz a tensão do espectador que pércebe a farsa e ao mesmo tempo a relação sadomasoquista existente entre a jovem dividida psiquicamente e o velho que a deseja imensuravelmente.

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O filme também conta com excelentes atuações, as atrizes que dão vida à Conchita são ótimas (inclusive foi bastante importante pra carreira de Carole Bouquet, pois, marcou sua estréia no cinema), Buñuel soube trabalhar minuciosamente cada detalhe de suas performances. Inclusive o filme recebeu duas indicações ao Oscar, nas seguintes categorias: Melhor Filme estrangeiro e melhor Roteiro adaptado. Também recebeu uma indicação ao globo de ouro, de melhor filme Estrangeiro, e ainda duas indicações ao César, de melhor Diretor e melhor Roteiro.


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