imagens e palavras

REFLEXÕES SOBRE LITERATURA E CINEMA

Fernanda Villas Boas

ESTÔMAGO

O filme Estômago é um suspense que conta, paralelamente, a história de dois assassinatos. O narrador é o personagem central, autor dos dois crimes, Raimundo Nonato. O protagonista é interpretado por João Miguel, que fez o marcante O Céu de Suely (Karim Ainouz) e o terno Cinema, Aspirinas e Urubús (Marcelo Gomes). O roteiro foi inspirado no conto Presos pelo Estômago, do livro Pólvora, Gorgonzola e Alecrim, escrito por Lusa Silvestre. Trata-se do primeiro longa metragem do diretor Marcos Jorge, lançado em 2007. Trata de dois temas universais: a comida e o poder. Mais especificamente, a comida como meio de adquirir o poder.


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Estômago, dirigido por Marcos Jorge ( 2008) narra, na primeira pessoa, a história do retirante nordestino Nonato ( Joaõ Miguel) na grande cidade de São Paulo à procura de uma oportunidade melhor. O filme é narrado em dois tempos, com cortes simbólicos entre a atual vida na cadeia e sua vida pregressa de funcionário no bar do Seu Zulmiro, fazendo pastéis, com um quartinho para dormir e, também sua vida de cozinheiro no restaurante Bocaccio,, onde aprendeu muito sobre culinária.

Ele descobre a vocação inata para a arte culinária. Paralelamente, o filme mostra que, no presente, Raimundo está preso. Resta-nos a nós, espectadores, descobrir os motivos que o levaram a parar atrás das grades. Com uma narrativa hipnotizante, as duas histórias - Raimundo no passado, chegando e se estabelecendo em São Paulo, e Raimundo no presente, se desdobrando para adaptar-se ao mundo-cão do presídio -, se apresentam e se intercalam bem entrelaçadas, bem pontuadas, tudo muito bem costurado.

O uso do 'eu' traz a ascensão do sujeito ao primeiro plano. O eu permite infinitas interpolações daquilo que já foi e a preocupação do sujeito que exige que o seu eu o represente. O eu permite as instâncias do diálogo interpessoal. Uma concepção do eu abre às dimensões involuntárias da vida psíquica, em particular da vida da memória ampliando por outro lado, a dimensão social do sujeito que é atravessado pelas ondas do desejo, de revoltas e desesperos coletivos.

Assim, vamos conhecendo Nonato através do seu relato e de sua revolta quando mata por paixão e ciúme descontrolado, sua namorada Iria ( Fabíula Nascimento)e seu patrão, ao vê-la trepando com o próprio. Os dois são mortos e Nonato vai preso. Na prisão, fatos se mesclam com outros fatos passados, tornando o filme um fluxo do inconsciente quando o comando é da memória e seus traumas. ao ser reconhecido como bom "chefe de cozinha", na cadeia, Nonato deixa seu ego inflar e percebe-se a metáfora da luta pelo poder quando ele já cansado de ordens, decide envenenar o manda-chuva do quarto, interpretado por Babu Santana.

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O filme faz um retrato exato do que é a classe dominante do Brasil. E de como a classe média é a principal herdeira da mentalidade escravocrata. Raimundo Nonato é um membro da classe desfavorecida com pessoas de extrema pobreza e sem instrução e o prato predileto da classe média. Criados não só para serem maximamente explorados e oprimidos mas ainda para serem moralmente humilhados diante do tratamento rude e das histórias de conquista que donos de apartamento vociferam. O cenário mundo cão da prisão e da cidade onde pobreza econômica é interpretada como pobreza moral. Se você não tem nada, você não vale moralmente nada e podem fazer qualquer coisa com você. O filme toca fundo nessa ferida de como a pobreza material pode levar ao rebaixamento moral e como a humilhação moral pode ser mais dolorosa do que a exploração e a pobreza econômica. Afinal, usado e explorado, Nonato manteve a serenidade, a simpatia e o servilismo. O seu primeiro crime, fatídico e trágico, não se deve a uma revolta econômica mas a uma revolta moral. Nonato se revolta não por ser explorado mas por ser humilhado pelo patrão e traído pela noiva. Ao menos é o estopim, como se um limite da humilhação tolerável tivesse sido ultrapassado.

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No geral, Estômago traz em Nonato, um retrato da vida de pessoas muito pobres e os fantasmas do cotidiano: levar um tiro, ser estuprado, ser espancado, empurrado, ofendido e o contrário, como são os colegas de cadeia que cometeram crimes. O clima de desconfiança e animosidade generalizado no qual o diretor nos leva a refletir: ou você come ou você é comido. Num mundo como esse, o nosso, as pessoas acabam brutalizadas para sobreviverem ao dia-a-dia. É o que ocorre com Nonato. Se no final ele está no poder e no domínio de um quarto na prisão, acabamos tristes porque o Nonato livre e autônomo é agora um monstro dominador, capaz de crimes frios, sangrentos e calculistas. De certa forma, o filme questiona o universo perverso no qual pessoas boazinhas viram recheio de sanduíche na boca e onde é necessário o embrutecimento, a violência, para se manter a liberdade, o respeito, a autonomia, ainda que para isso tenha-se que se tornar um vilão sem escrúpulos. Fica a questão.


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