imagens e palavras

REFLEXÕES SOBRE LITERATURA E CINEMA

Fernanda Villas Boas

GLOCALIZE: O GLOBAL LOCALIZADO

As sociedades civis aparecem cada vez menos como comunidades nacionais, territoriais e políticas, para manifestarem-se como comunidades hermenêuticas de consumidores, ou seja, grupos de pessoas que compartilham gosto e pactos de leitura em relação a certos bens ( gastronômicos, desportivos, musicais), os quais lhes fornecem identidades comuns.


nova_york_iluminada_4d2cfd746f5a9f371d03ed89bf481ea3_Light Bridge New York (1).jpg

Os atores já pensam a cidade como um todo numa época em que sua desintegração se torna alarmante. Tem-se uma cidade histórica, uma cidade industrial e a cidade globalizada, que se conecta com as redes mundiais da economia, finanças e comunicações. Os estudos urbanos reconhecem os processos informacionais e financeiros como o agente econômico mais dinâmico, o que tem provocado uma reconceitualização das funções das grandes cidades. Numa economia transnacionalizada, as principais áreas metropolitanas são os cenários que conectam entre si as economias de diversas sociedades. Por esta razão os empresários japoneses inventaram o neologismo “glocalize” para referir-se ao novo esquema “empresário-mundo” que articula em sua cultura informação, crenças e rituais procedentes do local, nacional e internacional. De acordo com Canclini não se trata somente de macroprojetos governamentais, pois pode-se perceber esta redefinição do urbano no cotidiano.

Estou pensando no executivo e no profissional liberal que saem de sua casa falando no telefone celular enquanto dirigem o carro, chegam ao escritório, recolhem os faxes que entraram na noite anterior, os respondem, passam informações pelo sistema de computação e pelo modem, voltam para casa à noite e vêem as notícias em inglês pelos canais que recebem graças ao cabo ou à antena parabólica”.( p. 88)

la-1004-pin07.jpg

O que melhor define o tempo atual é a antiga preocupação antropológica com o outro e com os outros. O outro já não é o territorialmente distante e alheio, mas o multiculturalismo constitutivo da cidade que se habita. É contudo mais difícil conciliar o multiculturalismo em processos coletivos do que dentro de um indivíduo. No México, a coexistência atual de tradições indígenas e indústrias comunicacionais, do local e o global, não suprime as lutas e discriminações.

download (3).jpg A nossa tarefa é também explicar como a aparentemente maior comunicação e racionalidade da globalização suscita novas formas de racismo e exclusão. Hoje, as reações fundamentalistas crescem nas grandes cidades, em Los Angeles ou no México, Berlim ou Lima, fazendo com que se imagine como o uso da informação internacional e a simultânea necessidade de estar integrado e arraigado no local podem coexistir em um multiculturalismo democrático e inteligente. Numa época globalizadora- em que a cidade não se constitui apenas pelo que acontece em seu território, mas também pelo modo como migrantes e turistas, mensagens e bens procedentes de outros países a atravessam- construímos mais intensamente o próprio a partir do que imaginamos sobre os outros. Não só projetamos a fantasia do deserto no deserto que se opõe à cidade nas saídas de fim de semana em busca da natureza, mas também na proliferação de discursos dos múltiplos grupos que habitam a metrópole ou a percorrem. ( 1997: 91)

A desintegração da cidade gerada pela expansão demográfica diminui o papel organizador do centro histórico e o uso compartilhado dos espaços públicos na capital mexicana. As grandes cidades requerem políticas multisetoriais, adaptadas a cada zona, estrato econômico, grau de escolaridade e faixa etária. As indústrias culturais são o principal recurso para se fomentar o conhecimento recíproco e a coesão entre os múltiplos organismos e grupos em que se fragmentam as grandes cidades. Para reconstruir-se o imaginário comum para as experiência urbanas deve-se combinar o enraizamento territorial de bairros ou grupos com a participação solidária na informação e com o desenvolvimento cultural proveniente dos meios de comunicação de massa.

A oposição entre o discurso construtivista dos estudos culturais e as doutrinas fundamentalistas dos movimentos étnicos ou nacionais é recente. Há uma forte cumplicidade da literatura, filosofia e antropologia com o fundamentalismo nos últimos dois séculos, pelo nacionalismo aliado às tradições étnicas e sócioculturais. Isto porque ter uma identidade equivalia a ser parte de uma nação, uma entidade espacialmente delimitada, onde tudo aquilo compartilhado pelos que a habitam- língua, objetos, costumes- os diferencia dos demais de forma nítida. ( Canclini, 1997: 121) Este modelo foi tão forte que estruturou zonas do saber , da cultura e do esporte. A intermediação da crítica e do mercado contribui para que as fixações fundamentalistas da identidade continuem se opondo a leituras construtivistas do multiculturalismo e ignorando seu caráter polifônico, imaginário e híbrido. ( op.cit 123) a identidade surge, não como essência intemporal que se manifesta, mas como uma construção imaginária que se narra. A globalização diminui a importância dos acontecimentos fundadores. Os referentes da identidade se formam, agora, em relação com os repertórios textuais e iconográficos gerados pelos meios eletrônicos de comunicação e com a globalização da vida urbana, no lugar das artes, da literatura e do folclore.

0197885001403803786redessociais.jpg Como diz o autor, “narrar é saber que já não é possível a experiência da ordem que o flaneur esperava estabelecer ao passear pela metrópole do início do século. Agora a cidade é como um videoclipe: montagem efervescente de imagens descontínuas. (...) a esta altura, só vislumbramos reinvenções fragmentárias de bairros ou zonas, superações pontuais do anonimato e da desordem mediante a valorização de signos de pertencimento e de espaços múltiplos de participação. ( op.cit; 133)

Os hábitos e gostos dos consumidores condicionam sua capacidade de se converterem em cidadãos. O seu desempenho como cidadãos se constitui em relação aos referentes artísticos e comunicacionais, às informações e aos entretenimentos preferidos. O cinema, por exemplo, sofreu mudanças, com a conversão das salas de projeção em templos, lojas de videogames ou estacionamentos e com a disseminação do vídeo, assiste-se filmes em casa. Assim, há uma nova relação entre o real e o imaginário, uma situação distinta do fenômeno fílmico entre o público e o privado, uma reorientação do cinema em relação à cultura nacional e transnacional e o surgimento de espectadores multimídia. Há uma diversificação de gostos e cidadania com o predomínio da ação espetacular sobre outras modalidades dramáticas ou narrativas e, pela possibilidade de que subsistam cinematografias nacionais em meio a esta reorganização transnacional e multimídia da produção e dos mercados audiovisuais. Entre muitas mudanças, a transferência da cena política para os meios eletrônicos é o processo que preserva de modo mais apolítico o que a política tem de ação. Porque é uma ação teatralizada. Fernando Collor, Carlos Menem e Alberto Fijimori foram alguns presidentes que cultivaram esta mudança. Há um deslocamento semântico do que se entende por política e o herói político dos meios de comunicação de massa.

Uma vez que passados quarenta anos da apropriação da cena pública pelos meios eletrônicos de comunicação, hoje em dia, os principais formadores do imaginário coletivo, os ministérios de cultura se dedicam às belas artes, não se preocupando com a cultura popular tradicional - os meios que movem a sensibilidade das massas. São estes cenários de consumo que formam o que poderíamos chamar de bases estéticas da cidadania. Os aparelhos ideológicos do Estado carecem de áreas institucionais dedicadas ao vídeo e a informática, e o que resta do cinema e da produção televisiva. (...) A cultura contemporânea vive esta tensão entre a modernização acelerada e as críticas à modernidade.

“Os questionamentos mais radicais e lúcidos dos anos noventa à sensibilidade, ao pensamento e ao imaginário pós-industriais são hoje formulados principalmente pelos que atravessaram a experiência tumultuosa de rupturas, renovações e desenganos da segunda metade do século XX.” ( p. 249)

images (5).jpg

“As críticas apocalípticas ao consumismo continuam sublinhando que a organização individualista dos consumos tende a que nos desconectemos, como cidadãos, das condições comuns, da desigualdade e da solidariedade coletiva.” ( 1997;. 262) Canclini concorda em parte com esta visão, mas não deixa de apoiar a expansão das comunicações e do consumo por gerarem associações de consumidores e lutas sociais, ainda que em grupos marginais, melhor informados sobre as condições nacionais e internacionais. O autor conclui com uma mensagem otimista de resgatar as tarefas propriamente culturais de sua dissolução no mercado ou na política, a partir de uma reflexão sobre o real e a distinção entre globalização e modernização seletiva, para que se possa reconstruir um multiculturalismo democrático a partir da sociedade civil e do Estado.


version 3/s/sociedade// //Fernanda Villas Boas