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REFLEXÕES SOBRE LITERATURA E CINEMA

Fernanda Villas Boas

MAINHA OU QUE HORAS ELA VOLTA?

A Que horas ela volta, dirigido por Ana Muylaert ( 2015) é um filme com um olhar de Val, a empregada dedicada e leal que com treze anos trabalhando para uma família burguesa de São Paulo, passa a ver o vazio existencial em que vive depois da chegada da filha Jessica que tira todos de suas confortáveis solidões e causa a ruptura tão necessária e comovente para a trama.


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O filme nacional de Ana Muylaert (2015)quebra com a forma tradicional de construir a narrativa sob o olhar linear e cronológico. O encanto que se tem ao conhecer a protagonista Val( Regina Casé)é uma empatia, tal carinho, zelo e consciência de sua submissão e anulação diante daquela família da classe alta paulista para quem trabalha há treze anos.

Através dos olhos de Val o universo vazio da família é depressivo e o filho do casal, Fabinho( Michel Joelsas) que abre a primeira cena, ainda criança, cresce aos cuidados de Val que o trata como se fosse seu filho.

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Val é leal aos patrões, mesmo com o buraco existente nas suas relações, a sua generosidade é ímpar. Val é a empregada mais que perfeita, que abriu mão de sua própria filha, para que esta tivesse uma vida digna. O que ganha em troca? Dormir em um quartinho que nem a janela pode abrir pelos mosquitos. Val representa o migrante nordestino que vive em São Paulo. Recife é onde deixou uma filha, Jessica, que sustenta deste sempre. Val é a Grande Mãe que acolhe, reza, proteje. Val é o coração daquele espaço vazio de emoção, onde moram os representantes da burguesia paulista. Sua patroa é a exigente Barbara que infeliz no casamento, projeta sua frustração na casa e no trabalho. O Zé Carlos(Lourenço Mutarelli) nos diz que é herdeiro decadente daquela fortuna e o filho, é o arquétipo do filho bom e carente. Não cresce porque vive entre os muros da casa. É um adolescente bobinho e carinhoso e busca o amor esquecido nas mãos aveludadas de Val que lhe dá todo o amor de mãe, fora a cumplicidade.

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A trama cresce e muda com a chegada da filha de Val, Vinda do Recife, com uma bagagem de estudo e experiência de vida, para tentar o vestibular de arquitetura. Jessica( Marida) tem outro olhar sobre aquela casa e seus personagens. Entra em choque com os costumes burgueses, a submissão da mãe, a irrita e ela passa a por a mão na ferida. Questiona o quarto pequeno e termina dormindo no quarto de hóspedes. De manhã, toma café à mesa onde só a família é susposta comer. Fala o que quer, faz-se presente, e remexe os lugares de cada um simbolizados e divididos naquele espaço, onde ninguém se fala, o vazio impera junto à posição social.

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Estranho e bonito, como a diretora faz closes em que sentimos o constrangimento e a curiosidade de todos os personagens. Quem é Jessica, para ser tão segura? Uma jovem vestibulanda que é letrada e pode representar um nordeste mais desenvolvido, menos escravo.Jessica traz a nossa emoção à flor da pele. Como mãe e filha nas suas diferenças vão se aproximar? Briga com Dona Bárbara( Karine Teles) porque sente a sua antipatia e arrogância. Jessica significa a interrogação e o espanto diante de um ser humano que se respeita muito.

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" Mãe, eu não quero ser mais que eles. Eu também não quero ser menos." e assim, ela mesma quer sair dali, pois, se o gostoso não é do seu uso,o quarto pequeno demais também não lhe convém. O Zé Carlos tenta paquerá-la e há uma ironia na posição que ele ocupa perto de Jessica. Ele lhe faz a corte e ela se faz de mal entendida. há um espanto no olhar de Val. Ela, dentro de sua curiosidade, admira a filha e dentro de falas engraçadas, analisa como há orgulho de si, auto-estima, vontade de ser gente, vindos de Jessica.

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Na véspera do vestibular, ela some na chuva porque a Dona Bárbara impede que circule pela casa com liberdade. Há limites para os empregados que estão em transformação. Há a metáfora do sorvete mais gostoso ser do Fabinho. "Filha, o nosso sorvete é esse aqui". Este é só do Fabinho. Claro, que esta frase serve para quase todas as demais dentro de uma narrativa emocionante e humana. É um ponto crucial, porque a madame não se mistura definitivamente com os empregados. quem é Jessica, que mergulha na piscina empurrada pelo Fabinho? Quem é essa jovem destemida cujo foco é estudar e não ser como sua mãe. O filme não é contudo sobre classes sociais em si. O filme transcende a crítica social pelo olhar demorado e terno de Val sobre cada um e sua graça está em sacar o que está rolando e brincar com seus pensamentos em ritmos e cortes que emocionam pela verossemelhança.

Quando antes do desfecho, Val fica eufórica pelo fato de Jessica ter passado no vestibular, a Dona Bárbara seca a boca. Seu filho não passou. Jessica ganhou com 78 pontos e a alegria da mãe é um alívio para o espectador, pois ela vibra pela filha,passando a perceber que seu lugar ali não é próprio para si. Com a partida de Fabinho para a Australia, Val pede demissão da classe burguesa que não serve suas chicáras no dia de festa. Chícaras simbólicas pois servem de metáfora para o preto no branco, pelas cores. Assim será sua vida, depois que Val quer tudo preto no branco, o que não poderia ser melhor encaixado na narrativa. Assim, no fim, vai ao encontro da filha, descobre que tem um neto e olhando para o espectador dá seu melhor sorriso e diz: " Vá buscar meu neto. E quero que vocês venham de avião.

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