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REFLEXÕES SOBRE LITERATURA E CINEMA

Fernanda Villas Boas

UM MÉTODO PERIGOSO

Num estilo seco, muitas vezes desprovido de sentimento, de adrenalina, de emoções fortes, “Um Método Perigoso” centra as suas atenções na qualidade dos diálogos, na interação entre os diferentes personagens, nas fortes interpretações de Fassbender, Mortensen e Knightley, na discreta fotografia de Peter Suschitzky, enquanto David Cronenberg apresenta-nos um filme inesquecível.


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Uma das bases da psicanálise, a cura pelo diálogo precisa de duas pessoas para testemunhar o inconsciente. Em busca desse diálogo que David Cronenberg está se situa em seus filmes. O diretor que sempre serviu de "testemunha", observando de cima como o inconsciente se manifesta de forma sexual, violenta e frequentemente deformadora em seus personagens, agora assume uma posição mais neutra - e deixa que os próprios criadores da psicanálise, Carl Jung e Sigmund Freud, observem a si mesmos.

Em Um Método Perigoso (A Dangerous Method) o cineasta faz um exame mais complexo da natureza humana. É o seu filme mais reflexivo, mas não menos perturbador que obras-primas como A Mosca e Marcas da Violência.

Tanto o livro A Most Dangerous Method, de John Kerr, quanto a peça The Talking Cure, de Christopher Hampton, servem de base para o roteiro. Nele, o jovem suíço Carl Jung (Michael Fassbender) começa a colocar em prática a psicanálise que o austríaco Freud (Viggo Mortensen) havia formulado em teoria. A tese do médico judeu, de que o desejo sexual é o motor do nosso comportamento, é comprovada por Jung em uma das suas primeiras pacientes: a judia russa Sabina Spielrein (Keira Knightley), que se sentia atraída pelos castigos físicos de seu pai.

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Na Psicanálise, a transferência é um fenômeno que ocorre na relação entre o paciente e o terapeuta, quando o desejo do paciente irá se apresentar atualizado, com uma repetição dos modelos infantis, as figuras parentais e seus substitutos serão transpostas para o analista, e assim sentimentos, desejos, impressões dos primeiros vínculos afetivos serão vivenciados e sentidos na atualidade. O manuseio da transferência é a parte mais importante da técnica de análise.

Um Método Perigoso expõe as idiossincrasias que terminaram afastando o mentor e seu mais notável aluno, Car G. Jung. Freud inveja a riqueza do "ariano" Jung, que por sua vez ressente-se do judeu que não lhe conta um sonho que teve, "porque isso acabaria com a minha autoridade", justifica Freud. Sabina Spielrein, que na superfície é aquela que mais se parece com uma personagem típica de Cronenberg , com seus "desvios" de comportamento manifestos fisicamente, no fim é a pessoa, dentro do trio, que melhor lida com sua personalidade.

Há referências à tragédia do século, ao longo do filme, para que elas sejam ignoradas. Está nos diálogos: "Os anjos falam alemão", diz Jung, enquanto Freud, já absorto em sua preocupação com o antissemitismo, diz a Sabina que fica feliz por ela desistir de seu "príncipe ariano". Está nas situações: a plateia congelada enquanto Jung toca Richard Wagner em um experimento. E, finalmente, está nas entrelinhas: na pulsão de morte da teoria da judia masoquista Sabina e na preocupação de Jung com "um pouco de repressão que seja saudável à sociedade" e com "um ato inominável que permita continuar vivendo".

São referências espalhadas muito pontualmente,em uma narrativa repleta de elipses como a de Um Método Perigoso, toda cena é crucial, e tirar uma conclusão delas exige ver o filme mais de uma vez. O que não há dúvidas é que aqui está em curso aquilo que Freud chamou de "trabalho de luto": transformar o incomunicável em verbo, em uma articulação, para superar o trauma dessa vivência incomunicável. Jung será testado em resistir, primeiramente, aos conselhos do perigoso paciente Otto Gross, interpretado pelo francês Vicent Cassel, que condena a monogamia, afirmando que não se deve negar aos instintos básicos do ser humano. E depois, em um segundo momento, quando subumbe aos encantos de Sabina Spielrein (Kiera Knightley), uma paciente viciada em humilhações, através da qual o psiquiatra precisará avaliar sua ética profissional e moralidade social.

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Há uma cena importante em que Freud comenta que há outro risco para ele e o grupo de Viena que trabalhava a psicanálise: o fato deles serem judeus. Jung pergunta o que isso tem a ver, e Freud comenta que eis uma afirmação típica de um protestante.

Pouco depois, na primeira e, especialmente, na segunda guerra mundial, ficaria evidente que a questão dos judeus era algo importante para aquela época. Foi também na relação entre Jung e Freud, assim como nas convicções deles sobre quais deveriam ser as linhas da psicanálise. Em uma conversa com Freud, Sabina afirma que Jung está preocupado não apenas a explicar aos pacientes que eles são de determinada forma por isso e por aquilo (a proposta de Freud), mas ajudá-los a, a partir desta constatação, encontrar aquilo que eles gostariam de ser.

As interpretações intensas, marcantes, por vezes com momentos inesquecíveis, são uma das imagens de marca de “Um Método Perigoso”. Desde a cena inicial, quando Sabrina surge entre gritos, contorções, perturbações, a esconder no seu interior um fogo que aos poucos Jung começa a descobrir, um fogo que aos poucos acalma e deixa de se sentir nas tendências algo suicidas da jovem para logo evidenciarem-se no desejo sexual masoquista desta mulher, interpretada com grande intensidade por Keira Knightley. Os momentos protagonizados por Knightley, sobretudo nas cena de loucura, onde o seu queixo parece soltar-se do seu corpo, onde se contorce, grita, chora, excita-se, rivalizam com os momentos memoráveis e intensos protagonizados por Michael Fassbender e Viggo Mortensen, com estes dois a interpretarem de forma memorável Carl Jung e Sigmund Freud, duas lendas que entram em choque, dois cientistas rivais cuja visão sobre a psicanálise encontra alguns pontos de encontro e desacordo, uma relação iniciada devido ao tratamento efetuado por Jung a Sabina. Além da discordância entre Freud e Jung, encontra-se o envolvimento amoroso deste último com a paciente, vendo nas relações sexuais masoquistas uma forma de libertar-se do seu quotidiano e de ajudar a paciente a libertar o seu ardor e prazer pela humilhação.

images (15).jpg O estado puro mais emocional e louco de Sabrina, uma mulher emotiva, por vezes excessivamente histérica, que aos poucos começa a apostar na sua valorização pessoal até se tornar numa psicanalista. Os diálogos foram inspirados na correspondência entre Jung e Freud.

Além dos conflitos étnicos, o filme foca também as diferentes interpretações que Jung e Freud tinham da psicanálise. Jung não aceitava a premissa de Freud, de que todo problema psicológico tinha raiz no desejo sexual. Para Jung a libido é uma energia psíquica que inclui o comportamento sexual. Enquanto isso, Freud não aceitava que Jung se enveredasse por um campo místico, analisando fenômenos parapsicológicos. Em meio a conflito de interesses, a judia russa Sabina Spielrein foi querida pelos dois. Após ser curada por Jung, a jovem torna-se psiquiatra e os dois terminam seu romance. Ela passa a se tratar com Freud, acaba rompendo com o pensamento jungiano e seguindo a linha freudiana. Jung e Sabina a cena final

Quando Jung e Sabina sentados naquele banco as margens do lago de Zurique, em Küsnacht, Jung confessa para Sabine:

-“Meu amor por você foi a coisa mais importante da minha vida. Bem ou mal, fez com que eu descobrisse quem eu sou.”

Será que não é um amor assim que desejamos viver? Para descobrir quem somos.

Não só nossa força, mas também nossas fraquezas.

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