imagens e palavras

REFLEXÕES SOBRE LITERATURA E CINEMA

Fernanda Villas Boas

NÃO ESQUECE O CELULAR!

Encontros virtuais são tão reais na imaginação quanto ilusórios para quem se conecta demais.


003.jpg

De tarde. Acho que era quarta feira. Não me lembro. Comecei a imaginar como seria falar com você, meu colega do Face depois de quase três anos. Na falta de tu, tu mesmo. Há tempo você insistia. Há tempo. Talvez bem maior do que imagino. Eu nunca te vi. Só trocamos postagens e comentários. Eu me sentia tão próxima de você que me tornei sua vizinha de portal. Trocamos ideias. Às vezes, eu pensava que era a única. Na loucura da fala virtual comecei a construir o personagem somente pela figurinha do lado esquerdo que todo mundo põe. Achei-me um tanto ridícula quando me vi te enviando trechos literários, convites para exposições e até ir ao cinema. Você nunca estava disponível. Foi como se a vida seca e monótona me tivesse premiado com o delírio amoroso via Internet. Mas, que é isso, Marina? Você está louca. E de noite, eu não resistia ao seu sorriso na minha cara. Carinhos, premonições, caminhos imaginários que só me fizeram bem. Ahhh Tinha encontrado a pólvora. Amar uma figura sem precisar pegar, nem sentir o cheiro, nem argumentar ao vivo nossas diferenças. Tudo mágico. Igual à Alice no País das Maravilhas. Inventei você e só depois de um mês, seu nome passou a criar significado. Quando via Henrique, era como se já estivesse do teu lado. Compartilhei postagens como quem abraça muito. Com certeza, este era o caminho para a loucura mais plenamente vivida. Delírio maior só o de Don Quixote e seus moinhos de vento. Verdade. Escolhi o homem mais engraçado, bem humorado, charmoso e também, inteligente. Estas qualidades estavam ao alcance dos meus olhos e através de uma tela de monitor. Só eu senti como é boa a viagem da imaginação virtual. E, não criamos qualquer intimidade. Tudo muito " que legal!" Bravo, Marina, marca uma consulta no psicanalista. Dessa vez você foi longe de mais.

Até ontem, Henrique marcar um encontro em um restaurante. Escolhe o nome. San Francisco, ali perto da Praça São Salvador. Mas, não esquece o celular! às 18:00 está bom? Eu, em estado delirante, achei a proposta fantástica, nada me impediria de conhecer este faciano ao vivo. O tom de sua voz, a cor dos olhos, as mãos. Enfim, tudo!

Quando entrei no tal restaurante, estava semi cheio e com mesas vazias, escolhi a primeira sem olhar muito para as pessoas. Afinal a cara dele eu conhecia. Aquela figurinha colada na página. Pedi uma taça de vinho e esperei ver alguém entrar. Nada. E, talvez pela falta, vi o nonsense de encontros virtuais. Raramente dão certo. O que eu fazia ali, prostrada, bebendo vinho português?

002.jpg

Talvez tivesse se acidentado. Mas, o telefone tocou e disse ele: " Estou no fundo, com o celular. Vamos conversar? Você de lá e eu de cá? Sim. Momentos de pausa e aflição. Um eu concordo esquisito saiu da minha boca. E aí tudo bem, foii um passo para a minha realidade chuvosa e fria. Não esquece o celular!


version 2/s/literatura// //Fernanda Villas Boas