imagens e palavras

REFLEXÕES SOBRE LITERATURA E CINEMA

Fernanda Villas Boas

O MITO DA FELICIDADE

O sistema dos objetos é um recurso que o homem contemporâneo lança mão para a solução imaginária de suas contradições reais. Algo ocorre quando o sujeito transfere ao objeto a sua ambição máxima de autonomia e subjetividade. Em busca do objeto ele cria o mito da felicidade.


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Um dos principais impasses da contemporaneidade apontado por Baudrillard, é a “histeria da produção e reprodução do real”. Neste capítulo, se deter-se-á à outra forma de produção, a dos valores e das mercadorias, que para o autor, desde muito, deixou de ter sentido próprio. Equivalendo dizer que o que toda a sociedade procura, ao continuar a produzir e a reproduzir é ressuscitar o real que lhe escapa, independendo da escala ou objeto em que isso se aplique. Segundo a orientação de Baudrillard, a sociedade de consumo é reconhecida como o momento áureo da ordem do simulacro, com a sua cartografia pontuada pela elisão do real, em diferentes versões. Além de representar as práticas sociais dominantes, o universo do consumo, como um grande simulacro, vai também formatar o pensamento do homem moderno e determinar as suas especificidades em se relacionar com o mundo. Dentro desse campo de especificidades, confronta-se com o sistema dos objetos em relação com o sistema sócio-ideológico de consumo. O sistema dos objetos é um recurso que o homem contemporâneo lança mão para a solução imaginária de suas contradições reais.” Algo ocorre quando o sujeito transfere ao objeto a sua ambição máxima de autonomia e subjetividade. E, distintamente do que ocorre com o homem em relação aos objetos, ele próprio acaba por se instrumentalizar, passando à categoria de objeto ideal: “…o homem revela de uma certa maneira a significação que ele próprio assume numa sociedade técnica: a do mais belo objeto que se presta a tudo, aquela de modelo instrumental.” (BAUDRILLARD 1973, :131).

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O raciocínio de Baudrillard, acerca do consumo, revela que este se localiza no campo das complexidades humanas, onde qualquer crença de cunho idealista, que aposte numa natureza humana direcionada a um estado de harmonia, será duramente criticada. Por princípio, não lograrão êxito as tentativas de justificar as práticas de consumo em torno da descoberta e sondagem das necessidades humanas e da procura ou criação de objetos para satisfazê-las. Esta crença sugere que as necessidades humanas sejam objetivas, e assim sendo, uma vez identificadas as suas origens, poder-se-á encontrar as respectivas soluções para satisfazê-las.

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Baudrillard irá edificar a sua crítica à economia de consumo, dentre outras formas, negando a concepção de um ser individual, dotado de necessidades e que quando livre de ações externas, se encaminhará “naturalmente” para a satisfação das mesmas. Buscará parâmetros de análise para esse processo, sob a ótica da ideologia de consumo. Em Para uma crítica da economia política do signo, a concepção sígnica dos objetos de consumo, dará origem aos seus postulados. Neles, os objetos de consumo, definidos pelo autor como objetos-signo, se apresentam como instrumento para manter e concretizar relações de consumo e de diferenciação social advenientes. Isso se faz, por representarem espaços de manobras simbólicas, onde se ergue uma moral de consumo, sedimentada em valores sociais, como o ter, a ostentação e a distinção. A exigência de renovação dos objetos, será imposta por essa mesma moral, onde a necessidade de acompanhar as suas mudanças, também será apresentada como única chance de realização para os indivíduos. A aquisição de um objeto-signo se dará a partir de um conjunto de conotações e propriedades que lhe diferencie de outros objetos, refletindo os mesmos atributos aquele que o adquire. Assim, não está em questão o simbolismo do objeto, nem a sua utilidade, qualidade ou vantagem, mas sim a sua capacidade de representar, diferenciar e remeter o indivíduo para que venha ocupar uma determinada posição ou status. A natureza sígnica, além de englobar o valor de troca e de uso se sobrepõe a eles, dado que numa sociedade assim regida, os seus membros serão classificados na dependência de uma constante alternância das características distintivas e do uso sempre renovado, que se venha a fazer delas. O reconhecimento social de um objeto, assim sendo, está atrelado a mobilidade de posições que confere a um indivíduo, em relação a seus semelhantes. “ O sentido nunca tem origem na relação econômica, racionalizada em termos de escolha e de cálculo entre um sujeito e um objeto, mas numa diferença sistematizável em termos de código” (BAUDRILLARD,1972 : 78).

Passar-se-á a examinar alguns aspectos da lógica do consumo, que o autor aponta como ilusões que tentam escamotear a dimensão ideológica da fetichização do consumo, e que se prestarão ao entendimento do nosso objeto de estudo.

Em toda a crítica de Baudrillard às teorias clássicas de entendimento do consumo, percebe-se que o autor constrói a uma variante, as concepções de cunho idealista. Em tais raciocínios encontrar-se-á uma ligação desencadeante entre necessidades e satisfações, onde os indivíduos responderiam passivamente aos aceleradores artificiais, que propõem um elenco finito de objetos a serem consumidos. Em oposição, para o autor, “não são as necessidades o fruto da produção, mas o sistema de necessidades é que constitui o produto do sistema de produção” (1995:74). Vale ressaltar, que as necessidades como sistema não serão produzidas individualmente na correspondência de objetos específicos. O raciocínio deverá se deslocar para um quadro mais geral das forças produtivas, com suas exigências de totalidade. Desse modo, acredita-se que as necessidades são produzidas como elementos de sistema e não como a relação de um indivíduo ao objeto. Nesse contexto a “tecno-estrutura” será ativada, sem nenhum intuito de capturar a ordem de fruição dos sujeitos em proveito próprio, mas, ao contrário, com o propósito de negá-la ao substituí-la por uma reorganização de todo um sistema de forças produtivas. Nessa dimensão os objetos, que são diferenciados e complementares, não se apresentam desordenadamente: um faz menção ao outro, colocando-se sempre como solução transitória para uma rede de demandas, que adota o consumo como prática irreprimível desse processo.

14037998305524.jpg Em meio a essa lógica, a tentativa de se buscar coerência no movimento ondulatório dos indicadores de tendências, acaba por naufragar. A contradição e a reversibilidade regem a moda, os conceitos de beleza, distinção ou utilidade. A ideia de satisfação última, a ser alcançada pelos indivíduos, também se inscreve como uma ilusão, sempre na dependência dessas ondulações. O que o consumo dispõe como meios realizadores desse intento, não se apresentam de maneira padrão e nem habitam um lugar fixo. Vagueiam por diferentes objetos e sempre aquém das expectativas geradas. Dentro dessa esfera de livres associações falaciosas, encontrar-se-á aquela que correlaciona o consumo não apenas ao prazer, mas também como signo de felicidade. Para tanto, parte-se de uma antropologia ingênua que se apoia na ideia de uma propensão natural e espontânea para um estado de felicidade. Algo se processa, como se a felicidade equivalesse à salvação do homem contemporâneo, tendo no consumo o seu passaporte. Para Baudrillard, essa crença será fortalecida porque o mito da felicidade corresponderia a uma atualização do mito da igualdade, tão alardeado desde a Revolução Industrial. Observar-se-á no entanto uma especificidade nesse processo de reencarnação. Para que a felicidade assuma semelhante significado e função concernentes à igualdade, deverá fazê-lo de forma visível e quantificada. Não basta então vivenciar a felicidade como destino. Esta ainda terá que ser mensurada por objetos e signos de bem-estar, tendo portanto que dar provas.

A felicidade embora se proponha como uma exigência igualitária, se funda nos princípios individualistas. “O princípio democrático acha-se então transferido de uma igualdade real, das capacidades, responsabilidades sociais, da felicidade (no sentido pleno da palavra) para a igualdade dos objetos e outros signos evidentes do êxito social e da felicidade. É a democracia do “standing”, a democracia da TV, do automóvel e da instalação estereofônica, democracia aparentemente concreta, mas também inteiramente formal, correspondendo para lá das contradições e desigualdades sociais à democracia formal inscrita na constituição”(1995: 48). Percebe-se então, que a democracia do consumo, positivada por alguns autores, se traduz como mais uma quimera em Baudrillard. O repertório de escolhas, possibilidades, gostos e valores não se destinam a democratizar a sociedade, mas sim a torná-la cativa da cristalização e manutenção de posições. Outra construção ligada a isso, e da mesma forma enganosa, se refere à propagação do consumo como um valor universal quando se almeja a satisfação pessoal, “trata-se de uma instituição, de uma moral e de um elemento da estratégia de poder. A sociedade é aqui, na maior parte das vezes, ingênua e cúmplice: toma a ideologia de consumo pelo próprio consumo” (Baudrillard, 1972, :55).

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