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REFLEXÕES SOBRE LITERATURA E CINEMA

Fernanda Villas Boas

O ALIENISTA-RAZÃO E LOUCURA

Machado de Assis em “O Alienista” (1881) constrói o Doutor Bacamarte, já caracterizado pelo sobrenome para criticar a ditadura da ciência com um autoritarismo feroz, que revela as duas faces da sátira machadiana: a da monomania ideológica e a da crueldade do homem contra o homem em nome de princípios sagrados.


cp_1948_il3[1].jpgSem precisar este conto no contexto histórico, não se pode entender a importância das críticas machadianas. É em meados do século XIX que começam a aparecer as primeiras teses médicas sobre a alienação mental e aos 18 de julho de 1841 o Imperador decreta a criação, na Praia Vermelha do Rio de Janeiro, do Hospício D. Pedro II, modelado de acordo com as instituições francesas organizadas por Pinel e Esquirol. (MACHADO, 1978:382-432) No Brasil, até meados do século XIX, os loucos tiveram a mesma sorte de seus companheiros do «Continente» da era pré-capitalista. Viviam soltos ou escondidos nos porões da Santa Casa, ou nas celas das prisões, e os de famílias de posses viviam trancafiados nos quartos, construídos para esta finalidade. Em 1841, surge, no Rio de Janeiro, o asilo provisório; no ano de 1852, no mesmo local, é inaugurado o Hospício Pedro II e, nesta mesma ocasião, temos, em São Paulo, o Asilo Provisório. De 1860 a 1864, foram criados os seguintes hospitais: Casa de Saúde Dr. Enéias, no Rio de Janeiro, o Hospício do Alienado de São Paulo e o Hospital da Visitação de Santa Isabel em Olinda- Recife. No monarquismo brasileiro (1844- 1898), foram erigidos vinte e três hospitais psiquiátricos. No Período Republicano (1903-1954), trinta e cinco hospitais. (FOUCAULT, 1977:280) Deste modo, o que acontece no Continente no final do século XVIII e início do século XIX é a medicalização da loucura e a transformação dos Internatos em Hospitais, que se dá no Brasil, no início do século XX, mais precisamente quarenta anos após a construção do primeiro Hospício, o Pedro II. O que na Europa, deve-se a uma revolução social e a uma coerência ideológica, no Brasil, é resultado da luta da classe médica pela hegemonia do poder nas instituições, criadas durante o Império, que até então, estavam nas mãos de religiosas. A este fato se pode denominar por tomada de poder da psiquiatria científica que procurou laicizar os hospitais.

DSC05655[1].JPG Neste contexto histórico, Machado de Assis aplica as idéias científicas à sua narrativa como em “O Alienista” (1881) no qual o Doutor Bacamarte, já caracterizado pelo sobrenome, institui a ditadura da ciência com um autoritarismo feroz, que revela as duas faces da sátira machadiana: a da monomania ideológica e a da crueldade do homem contra o homem em nome de princípios sagrados. O conto nos faz refletir sobre a formação moral e psicológica do responsável por uma instituição, se deslocarmos a insanidade de Bacamarte, do asilo, para a escola. No conto, a vila de Itaguaí, aparece, assim, como uma alegoria da sociedade brasileira oitocentista: se os costumes descritos, são, ainda, os do Brasil Colonial, as novidades da ciência de Simão Bacamarte são as mesmas que os psiquiatras do século XIX trazem à sociedade, pela via da medicina social. “(....) Foi então que um dos recantos desta ( a alma) lhe chamou a atenção- o recanto psíquico, o exame da patologia cerebral. Não havia na colônia, e ainda no reino, uma só autoridade em semelhante matéria, mal explorada, ou quase inexplorada. Simão Bacamarte compreendeu que a «ciência lusitana e, particularmente a brasileira, podia cobrir-se de »louros imarcescíveis»_ expressão usada por ele mesmo, mas em um arroubo de intimidade doméstica; exteriormente era modesto, segundo convém aos sabedores.” (MACHADO,1981:254)

Nesse contexto, ao voltar o seu personagem para a cura da «saúde da alma», Machado de Assis reproduz, ironicamente, na voz de Bacamarte seu ceticismo em relação ao pensamento liberal e à racionalidade burguesa. Passagem inevitável, pois, a medicina foi, entre os brasileiros, o veículo de modernização. A preocupação normativa dos médicos brasileiros em relação à vida social e familiar fundamentava-se, teoricamente, nas modernas teses européias sobre a influência de fatores como o meio externo, aspectos geográficos, sociais e econômicos, na saúde dos indivíduos. Esta preocupação se evidencia em “O Alienista”: (..) “ D. Evarista reunia condições fisiológicas e anatômicas de primeira ordem: digeria com facilidade, dormia regularmente, tinha bom pulso e excelente vista”(...)( op.cit:254) Além disso, a revolução que o alienista da Casa Verde provoca na vida da população e na pacata vila alude à intervenção dos médicos nas questões administrativas do Estado. Nessa perspectiva, os «tempos remotos» muito mais do que falar de costumes passados parecem ironizar um presente cujo «nonsense» essencial seria essa luta entre o passado dos hábitos e as necessidades que a urgência de acertar o passo como o progresso impunha. Nesse caso, as poucas e nítidas fronteiras entre a loucura e a razão, a relatividade do que possa ser considerado razoável ou insensível é o assunto de “O Alienista”. No momento de transformações da elite brasileira, o tema serve de metáfora da precariedade e do equilíbrio de uma sociedade sob o impulso da modernização científica, indecisa entre seus costumes antigos persistentes e as inovações apresentadas como mais racionais.

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Assim, a ciência de Simão Bacamarte, paródia da psiquiatria moderna e de suas intermináveis discussões sobre a natureza da loucura, conduz seu porta-voz a ela. A idéia de meter os loucos na mesma casa, vivendo em comum, pareceu em si mesma, um sintoma de demência e não faltou quem o insinuasse à própria mulher do médico. Como os autores franceses, Bacamarte passa a defender a observação como procedimento científico, mesmo sem dispor de qualquer prática asilar.

A principal ação dessas instituições sobre o ser humano é o da mortificação do eu. Estas pequenas sociedades diferem da sociedade moderna no seu modo de vida. Na grande sociedade, os indivíduos vivem em vários locais diferentes, sob autoridades também diferentes e sem um plano racional único. É exatamente o contrário que acontece na microssociedade. O plano racional único existente na microssociedade visa atender a seus objetivos e controlar as necessidades básicas da pessoa interna. Dessa forma, esta pequena sociedade é um híbrido social por ser, parcialmente, comunidade residencial e parcialmente, organização formal. Nesta sociedade, há algumas características básicas como a vigilância mútua, que gera uma concepção dos outros por estereótipos limitados e hostis, identificação do prédio e nome da sociedade como posse da equipe administrativa e, como resultado final deste processo, tem-se a mortificação do eu. A mortificação do eu se dá pela desnudação imediata, sofrida pelos ingressos, do apoio dado pela concepção de si mesmo, pelas disposições sociais estáveis de seu mundo doméstico, pela participação automática na vida da pequena sociedade. Conseqüentemente, tal situação tenderá a provocar a perda do equipamento de identidade e da segurança social, enfraquecimento das características de adulto, da autonomia social e do poder de escolha. Isto se manifestará em várias ocasiões: no tratamento sintonizado dado à equipe administrativa, funcionários e pacientes, na invalidação das fronteiras estabelecidas entre o indivíduo e o meio e, na profanação das encarnações do eu nas perdas da comodidade pessoal. O controle é exercido pela tensão entre o mundo doméstico e o mundo institucional. São estes os lugares estabelecidos para cuidar de pessoas «consideradas incapazes de cuidar de si mesmas», ou que são vistas como uma ameaça social. Por este motivo, afirma-se que o bem-estar das pessoas ali colocadas, não constitui o problema imediato das instituições totais.( FRAGOSO, 1984:32) No entanto, parece a HELENO FRAGOSO, que a compreensão do espaço que acolhe as pessoas «numa casa», «vivendo em comum» é mais ampla. Interessa a compreensão desses espaço que, no século XIX, acolhe e inscreve loucos em um movimento de ideias maior, em procedimentos específicos que permitem caracterizar um processo de normalização que responde a demandas reais da sociedade brasileira. As teses de Bacamarte são desajeitadas, como desajeitada é a elite de Itaguaí, ao construir suas casas ao estilo europeu para contemplá-las embevecidas do lado de fora como o albardeiro Mateus:

( ...)” Acabava de construir uma casa suntuosa. Só a casa bastava para deter e chamar toda a gente; mas havia mais,a mobília que ele mandava vir da Hungria e da Holanda, segundo contava e que podia ver do lado de fora, porque as janelas viviam abertas e o jardim era uma obra-prima de arte e de gosto(...) Entre a gente ilustre da povoação havia choro e ranger de dentes, quando se pensava ou se falava ou se louvava a casa do albardeiro, um simples albardeiro, Deus do Céu! ( MACHADO, 1981 :264)

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Neste contexto, os processos terapêuticos de Bacamarte são relatados por Machado de Assis com um objetivo crítico, numa ação deslocada para «tempos remotos», criando um confronto entre a realidade colonial dos hábitos brasileiros e o fascínio temeroso das elites nacionais diante do moderno das ideias européias. Pode-se deslocar esta realidade para o campo da educação e de como não se pode deter o saber, mas, ao contrário, tentar construir novos conhecimentos com os alunos. Bacamarte é tão poderoso que não é questionado, até que aos poucos o povo se revolta. Num movimento análogo, se a escola não superar as regras institucionais impostas, não alcançará sua autonomia. O texto machadiano alcança sua dimensão crítica à medida que testemunha o processo de normalização da sociedade brasileira, em suas idiossincrasias, como propriamente brasileira e se posiciona com ceticismo em relação a seus valores. Pode-se perceber no humor de “O Alienista” uma crítica perspicaz às intenções controladoras da nascente psiquiatria brasileira em relação à população bem como uma compreensão exata das alianças entre ela e o poder político. Todavia, é, especialmente na ironia à positividade experimental, aos altos níveis humanitários do saber psiquiátrico e à sua suposta vinculação com os princípios universais da razãovínculo que legitimava, no discurso médico, a intervenção no social que a narrativa cresce, como se pode verificar no exemplo a seguir:

“ O principal nesta minha obra da Casa Verde é estudar profundamente a loucura, os seus diversos graus , classificar-lhe os casos, descobrir enfim a causa do fenômeno e o remédio universal. este é o mistério do meu coração. Creio que com isto presto um bom serviço à humanidade. (MACHADO,1981 :256)”

O Alienista reforça a idéia do asilo, da prisão dos loucos: «Sem este asilo, continuou o alienista, pouco poderia fazer; ele dá-me, porém, muito maior campo aos meus estudos.»( MACHADO, 1981: 273) A galeria dos loucos aumentava dia a dia. “Simão Bacamarte o maior dos médicos do Brasil, de Portugal e das Espanhas é a encarnação das virtudes do cientista. convidado para permanecer nas universidades da metrópole, recusa com abnegação: « a ciência disse ele a Sua Majestade, é o meu emprego único, Itaguaí é o meu universo.” (MACHADO,1981 :253)

Ao resistir às seduções do mundo e da glória, o Dr. Bacamarte define o caráter do cientista: o amor à ciência, o compromisso com a verdade, com a civilização e com o progressoexpressões de generosidade sempre presentes no discurso médico do século XIX. ele delineia as características que o imaginário popular reconhecerá na figura do médico desinteressado e fiel aos mais altos ideais da civilização. Em toda a sua existência, Bacamarte sacrifica seus interesses pessoais, ou melhor, só os tem na medida em que coincidem com os da ciência. Leva a cabo o modelo do «casamento higiênico»o pacto conjugal legitimado pela ciência, de acordo com os preceitos dos métodos higienistas promotores de uma população saudável para um novo País. Nesse contexto, até a falta de atributos estéticos de dona Evarista é vista pelo ângulo da conveniência científica: essa ausência garante a dedicação integral que a ciência exige do médico, pois que elimina o risco de uma distração na contemplação da esposa. Apesar das previsões, dona Evarista não engravida. E, mais uma vez, Machado de Assis demonstra um tratamento mordaz para o seu personagem que, no entanto, não abandona seu espírito científico e «esperou três anos, depois quatro, depois cinco.» “ao cabo desse tempo, fez um estudo profundo da matéria, releu todos os escritores árabes e outros, que trouxera para Itaguaí, enviou consultas às universidades italianas e alemães, e acabou por aconselhar à mulher um regimen alimentício alimentar.( MACHADO,1981 :254)”

A recusa de dona Evarista em fazer o regime, que implicaria abrir mão da «bela carne de porco de Itaguaí», será causa da «total extinção da dinastia dos Bacamartes». Se dona Evarista se recusa a alterar os seus hábitos alimentares, e o desejo de paternidade de Simão é frustrado, esse fracasso confirma a teoria do cientista. Essa desventura doméstica ilustra o que será, com outras modulações, o tema do conto: o sucesso da ciência e o fracasso pessoal do cientista. Desse fracasso inicial nasce outro interesse; « a ciência tem o inefável dom de curar todas as mágoas.» Por isto, Bacamarte sonha com os «loucos imarcescíveis» que faria de sua pesquisa, pelo inexplorado do assunto, um sucesso dentro da sociedade científica brasileira. A reivindicação médica de um espaço terapêutico, aparece já na primeira metade do século, lado a lado com a crítica à situação dos loucos nos hospitais. No final do século XVIII, Pinel introduziu o tratamento moral que consistia na atenção à mente:

“Deve reconstituir em torno deles (loucos) todo um encadeamento moral que transforma o asilo em uma instância perpétua de julgamento, o louco tinha que ser vigiado em seus gestos, rebaixado nas suas pretensões, ridicularizado nos seus erros.”( RESENDE, in TUNDIS, 1987 :26)

Pinel não eliminou o tratamento anterior. Acrescentou-lhe o caráter puramente repressivo e moral. Criaram-se, neste período, dois novos instrumentais: a máquina rotatória e a gaiola móvel, em que pretendiam recolocar o curso de espíritos em seu circuitos naturais. Paralelo ao tratamento científico, encontra-se o tratamento empírico. Este tratamento foi atribuído aos guardas de segurança, mantenedores da disciplina. (RESENDE, 1987) descreve o tratamento dispensado aos loucos pela psiquiatria empírica. ...“viviam nos porões da Santa Casa ou nas celas das prisões. Encontrava-os presos a troncos, sem assistência médica, entregues a carcereiros e guardas....em seus delírios e agitações eram reprimidos por espancamento e contenção nos troncos...Condenados por maus tratos físicos, desnutrição e doenças infecciosas e a morte.”(RESENDE, 1987: 30).

Referindo-se aos primeiros quarenta anos do asilo no Brasil, escreve ele: “ Além disso, do mesmo modo como no período anterior (antes da existência da instituição asilar) persistiram as denúncias de maus tratos, imundície, superlotação, baixa qualificação, truculências nos atendimentos e falta de assistência médica. No Pedro II, os doentes eram vítimas das camisolas de força, dos jejuns impostos, de cacetadas e, até mesmo do assassinato.”(RESENDE, 1987: 58).

Dessa forma, ao adentrar no asilo, a medicina recebe o louco com toda a carga de estigmas, trazida dos séculos anteriores. E, é a partir dos estigmas que se inicia o tratamento. É nesta confusão de doente estigmatizado que a loucura tornou-se um fato que concerne à alma humana, sua liberdade e culpa: dimensão da interioridade. Ela, a loucura, está encerrada no sistema primitivo onde o louco, minorizado, encontra-se, aparentado com a criança e onde a loucura culpabilizada acha-se, originariamente, ligada ao erro, tendo o médico, como seu tutor, respondendo, assim, ao desafio da administração e controle legal da loucura na sociedade liberal que via no louco a configuração da desordem social. Machado de Assis sempre acompanhou, em suas crônicas as discussões sobre as vicissitudes administrativas e os incidentes relacionados ao Pedro II. Tal interesse testemunha uma preocupação ausente nas considerações científicas e institucionais referentes à loucura. O cronista, de diversas formas, toma partido, ou ao menos, dá voz ao louco. O lucro humorístico da escolha é secundário diante de suas virtualidades críticas às convenções e limites da razão. Em 1894, Machado de Assis participa do debate sobre os direitos do Estado ou da Santa Casa na administração do agora republicano Hospício Nacional dos Alienados, argumentando, na voz de um alienado, a favor, a favor da sensata solução de entregá-la aos loucos.( BARRETO F.in COSTA LIMA, 1939)

Em “O Alienista”, Simão Bacamarte propõe, à atônita Câmara de Itaguaí a construção de um asilo para os loucos. A descrição de Machado de Assis sobre a reação negativa da população, bem como a futura conseqüência dos fatos, delineia o choque entre os hábitos antigos e as inovações apressadas do século: (...) a proposta exultou a curiosidade de toda a vila, e encontrou grande resistência, tão certo é que dificilmente se desarraigam hábitos absurdos, ou ainda maus.(MACHADO,1981:254) Num primeiro instante, pode-se pensar que a opinião do narrador coincide com a do cientista: há nas pessoas uma tendência irracional, contrária às mudanças, mesmo se benéficas. O alienista defende a sua proposta frente à Câmara e obtém uma verba pela taxação dos penachos usados nos cavalos nas cerimônias o que coincide, mais uma vez, com a realidade carioca. Também o Hospital Pedro II fora financiado com o que o seu idealizadorJosé Clemente Pereirachamou de «imposto sobre a vaidade» o dinheiro de loterias e de títulos mobiliários. . A Casa Verde é construída, da mesma forma que o Pedro II, na rua mais importante da cidade. Ela tem um pátrio central e vários cubículos. Ao boticário, seu inseparável amigo, Bacamarte confessa o verdadeiro motivo da construção do asilo e explica os cubículos. A Casa Verde será servida por uma administração, um corpo de ajudantes, por um regulamento, todos submetidos ao olhar vigilante de Simão Bacamarte: esses agentes serão o olhar da ciência, prolongamento do olhar do doutor Bacamarte, arremedo da pirâmide de olhares «que organiza as instituições modernas.»( MACHADO,1981:257) Com a inauguração da Casa Verde, «uma corrente de loucos» começa a se estender pela vila. De todas as vilas e arraias vizinhas afluíam loucos à Casa Verde. Eram furiosos, eram mansos, eram monomaníacos, era toda a família de deserdados dos espíritos. Ao cabo de quatro meses a Casa Verde era uma povoação. A inclusão dos mononaníacos nessa classificação dos habitantes da Casa Verde é outra indicação do caráter contemporâneo de “ O Alienista.” O conceito de monomania de Esquirol havia revolucionado a compreensão de doença mental. A loucura entendida até então como desordem da razão, era estritamente pensada como perda ou desarranjo das faculdades intelectuais. Considerando o fenômeno de delírio, esse autor constata a presença de uma loucura parcial referida a um único objeto. Daí, o autor passa a estudar as paixões, ou afeto, e a compreensão de que a alienação mental é mais uma desordem do afeto do que da inteligência, ou seja, a compreensão de que a loucura é mais um fenômeno moral de que intelectual. O deslocamento da questão se concretiza no conceito de monomania, que dá conta de casos de alienação mental onde o delírio é quase imperceptível. Tal teoria, referendo à loucura e ao comportamento moral e social, permitirá a intervenção da medicina no social. Como Bacamarte, a psiquiatria brasileira nascente se põe a buscar a loucura no comportamento social aparentemente normal. Internamente o espaço da Casa Verde organiza-se em função da nosologia médica, onde Bacamarte classifica os seus enfermos em duas classes: ”os furiosos e os mansos”, e daí às várias subclasses: “monomanias, delírios, alucinações diversas”. A Casa Verde, nessa perspectiva, sintonizava-se com as preocupações científicas da vanguarda dos psiquiatras brasileiros na organização dos hospícios, e o método de Bacamarte está de acordo com os preceitos da psiquiatria do Século XIX, consistindo em “um apurado e contínuo “dos hábitos, aversões, simpatias, palavras, gostos, tendências dos doentes. O Dr. Bacamarte era um cientista nos moldes de Pinel e Esquirol. A psiquiatria é a observação científica contínua, no espaço asilar do comportamento dos doentes. E é, também, um inventário da vida do indivíduo, das causas e das condições da eclosão da doença. Tal exame meticuloso da vida do doente obedece a uma tecnologia de individualização presente no projeto disciplinar e normativo da medicina do Século XIX. Nesse contexto, Bacamarte, caricatura do médico cientista social, arauto da modernidade, procede de um acordo com esses preceitos, tão mais eficaz em sua devassa sobre a vida do que seria um sistema judiciário porque a realiza por meio da ciência e de seus dispositivos e disciplinares e não através de instâncias legais. A ação de Bacamarte não é repressiva, o temor que inspira vem de seu rigor de cientista da verdade de que se apossa.

“Bacamarte espetara na pobre senhora um par de olhos agudos como punhais. Quando ela acabou, estendeu-lhe a mão polidamente, como se o fizesse a própria esposa do vice-rei e convidou-a a ir falar ao primo. A mísera acreditou; ele levou-a a Casa Verde e encerrou-a na galeria dos alucinados.” (MACHADO, 1981:292).

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O medo que o Dr. Bacamarte inspira e pela sua capacidade de perscrutar os recônditos da loucura pela autoridade de seu saber, justifica a sua insistência por identificar-se a própria “atitude cientifica”: “Pobre moço ! Pensou o alienista” e continuou consigo: trata-se de um caso de lesão cerebral, um fenômeno sem gravidade, mas digno de estudo. As observações clínicas fazem o Dr. Bacamarte renunciar na construção de sua teoria, a antigas suposições. Como cientista que é, não hesita em afastar as hipóteses errôneas e adotar outras, mesmo que contra a autoridade daquelas antigas certezas. O cientista, sob a égide da ciência, pode deixar verdades antigas, mesmo às custas de uma revolução em seus preceitos e decisões práticas. a loucura« uma ilha perdida no oceano da razão»passa a ser compreendida como um continente. Levanta suas hipóteses e, da mesma forma que nas teses dos médicos brasileiros, legitima-as através de exemplos da história: “No conceito dele, a insânia abrangia uma vasta superfície de cérebros; e desenvolveu isto com grande cópia de raciocínios, de textos, de exemplos. Os exemplos achou-os na história e em Itaguaí, mas, como um raro espírito que era, reconheceu o perigo de citar todos os casos de Itaguaí, e refugiou-se na história. Assim, apontou com especialidade alguns personagens célebres, Sócrates, que tinha um demônio familiar, Pascal, que via um abismo à esquerda, Maomé, Caracola, Domiciano, Calígula etc..uma enfada de casos e pessoas em que de mistura vinham entidades odiosas, e entidades ridículas. ( MACHADO, 1981:261)”.

A descoberta é «caso de matraca», ou seja, de divulgação:

«De quando em quando tocava a matraca, reunia-se gente, e ele anunciava o que lhe incumbiam», a velha matraca colonial desempenha o papel de divulgação da literatura médica para leigos. E, para Machado de Assis, o povo acredita no divulgado por acreditar no sistema de divulgação.

Como a psiquiatria oitocentista, às voltas com as ambigüidades de seus conceitos, o doutor Bacamarte quer estabelecer os limites da razão e da loucura. Esta preocupação em mostrar ao leitor, o que é razão e o que é insano leva Machado a teorizar sobre a perplexidade da mente humana e enquanto literatura de formação, ele nos deixa pensar sobre o que pode ser considerado normal ou desviante no comportamento e sentimentos humanos. Por outro lado, o autor abre um espaço crítico para que se analise os desvarios daqueles que têm o poder, no conto, representado pelo Dr. Bacamarte.. A razão é « o perfeito equilíbrio de todas as faculdades; fora daí, insânia, insânia, e só insânia». Assustado com essa audácia, o Padre Lopes pergunta: «Para que transpor a cerca?» Mas o médico se «contenta em estender a mão à teologia» sem dar uma resposta objetiva. Com as novas conquistas da ciência de Bacamarte, “ Itaguaí e o universo ficavam à beira de uma revolução. A ação da ciência é rápida, espalha-se como a volúpia científica do alienista.” Acompanhado do boticário Crispim, «frio como um diagnóstico», passeia pelas ruas da vila, detectando os loucos de Itaguaí. Em pouco tempo, «não se sabia já quem estava são, nem quem estava doido.» Esse problema o de delimitar a razão e a loucura não é exclusivo de Simão Bacamarte. Todas as teses médicas da época machadiana tratam dele, pela própria imprecisão que o conceito de monomania introduzira, permitindo uma aproximação entre o estudo da alienação e a filosofia. Esta tênue demarcação entre o normal e o patológico torna imperativo, o estudo do comportamento normal. O estudo da inteligência e faculdades afetivas do homem não poderá ser completo se não o considerarmos tanto no estado são e ordinário, como nos diferentes graus de aberração que constituem as numerosas variedades de alienação mental.(CANGUILHEM, 1978) Nessa perspectiva, considerando a monomania, o médico do século XIX observa que é « a forma de loucura que apresenta mais dificuldades para ser diagnosticada, porquanto o médico não poderá demarcar precisamente os limites que separam esse estado do de razão.» (LEÃO, 1847) Dessa forma, se a evidência da loucura desaparece sob as novas teorias da psiquiatria francesa, apenas a observação permanente e pormenorizada das condutas pelo olhar científico poderá discernir a loucura. É o que faz Simão Bacamarte, perscrutando a população de Itaguaí. Machado ilustra essa vigilância com ironia: “Não se sabia já quem estava são, nem quem estava doido. As mulheres, quando os maridos saiam, mandavam acender uma lamparina a Nossa Senhora; e nem todos os maridos eram valorosos...quem podia emigrava.»

A população recorre, inicialmente, por meio de uma representação à Câmara que se recusa a aceitá-la entendendo que «a ciência não podia ser emendada por votação administrativa, menos ainda por movimento de rua. Bradando contra o « despotismo científico», instigando a massa contra a Casa Verde, a «bastilha da razão humana», o barbeiro Porfírio quase perde a sua liderança ao defrontar-se com a «serenidade» da ciência, no discurso do doutor Bacamarte: “Meus Senhores, a ciência é cousa séria, e merece ser tratada com seriedade. Não dou razão dos meus atos de alienista a ninguém, salvo aos mestres e a Deus. Se quereis emendar a Administração da Casa Verde, estou pronto a ouvir-vos, mas se exigis que me negues a mim mesmo, não ganhareis nada. Poderia convidar alguns de vós, em comissão dos outros, a vir ver comigo os loucos reclusos, mas não o faço porque seria dar-vos razão do meu sistema, o que não farei a leigos, nem a rebeldes.»(MACHADO,1968:247).

A ciência e o governo dão-se as mãos e reconhecem, nessa aliança, a condição para o controle, a obediência do povo: «Unamo-nos, e o povo saberá obedecer.» A população irá, ainda uma vez e inutilmente, rebelar-se contra a« corrupção» de Porfírio pela ciência. As forças do vice-rei intervêm e tudo se resolve em benefício dos ideais de Simão Bacamarte. A Casa Verde materializa as novas teorias do alienista que, ao descobrir que « não havia regra para a completa sanidade mental» interna sua mulher. Estas questões são, indubitavelmente contemporâneas e merecedoras de reflexão por parte de professores de literatura preocupados com a formação dos educandos e de sua própria formação.

“Um dia de manhã- dia em que a Câmara devia dar um grande baile, a vila inteira ficou abalada com a notícia de que a própria esposa do alienista fora metida na Casa Verde. Ninguém acreditou; devia ser invenção de algum gaiato. E não era: era a verdade pura. D. Evarista fora recolhida às duas horas da noite.»(MACHADO, 1968: 275).

Sempre fiel ao experimentalismo, Simão Bacamarte não hesita em reexaminar, mais uma vez, toda a sua teoria. Depois de longos estudos que concluem as longas observações da Casa Verde, oferecia à Câmara a sua nova hipótese:

“1º que verificara das estatísticas da vila e da Casa Verde, que quatro quintos da população estavam aposentados naquele estabelecimento; 2º que esta deslocação da população levara-o a examinar os fundamentos de sua teoria das moléstias cerebrais, teoria que excluía do domínio da razão todos os casos em que o equilíbrio das faculdades não fosse perfeito e absoluto. 3º que desse exame e do fato estatístico resultante para ele a convicção de que a verdadeira doutrina não era aquela, mas a oposta, e portanto que se devia admitir como normal e exemplar o desequilíbrio das faculdades, e como hipóteses patológicas todos os casos em que aquele equilíbrio fosse ininterrupto; 4º, que à vista disso, declarava à Câmara que ia dar liberdade aos reclusos da Casa Verde e agasalhar nela as pessoas que se achassem nas condições agora expostas; 5º, que tratando de descobrir a verdade científica, não se pouparia a esforços de toda a natureza, esperando da Câmara igual dedicação; 6º que restituía à Câmara e aos particulares, a soma do estipêndio recebido para alojamento dos supostos loucos, descontada a parte, efetivamente gasta com a alimentação, roupa, etc; o que a Câmara mandaria verificar nos livros e arcas da Casa Verde. ( MACHADO, 1968 :281).

Sua nova classificação de comportamento das pessoas equilibradas substitui, assim, a galeria dos delirantes, monomaníacos, alucinados, pela dos modestos, dos tolerantes, dos sagazes, dos sinceros, etc. A terapia revela-se rapidamente eficaz. Apagaram-se as distinções entre a razão e a loucura e confirma-se a suspeita do senso comum sobre a insensatez do internamento. Agora, não há mais loucos em Itaguaí. A refutação da universalidade da afirmação está no próprio alienista. Fiel à sua conclusão, « mais alegre do que triste», justificando aos amigos e familiares inconsoláveis que a «questão é científica», Simão Bacamarte «recolheu-se à Casa Verde».«Fechada a porta da Casa Verde, entregue-se ao estudo e à cura de si mesmo. Dizem os cronistas que ele morreu dali a dezessete meses, no mesmo estado em que entrou, sem ter podido alcançar nada.»( MACHADO,1968: 288). A teoria do Dr. Bacamarte reproduz as questões acerca da sanidade e da loucura que preocupavam os estudiosos da psiquiatria nascente. Com ele, Bacamarte não conclui e, até hoje, discute-se sobre a eficácia da exclusão social dos «desviantes» que, por sua origem, foi, é e será um anacronismo. Neste contexto, “O Alienista” se reveste de especial importância, na medida em que possibilita leituras que remetem à discussão entre os limites da loucura e da sanidade, ultrapassa as fronteiras da obra de arte, atingindo o «status» de arte engajada no seu tempo, e na sua história. .


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