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REFLEXÕES SOBRE LITERATURA E CINEMA

Fernanda Villas Boas

O LEITE DERRAMADO: A DECADÊNCIA DA BURGUESIA

Questiona-se: Quais são os aspectos históricos mais importantes do século XX descritos na obra “Leite Derramado” e como esses fatos se entrelaçam com a saga de uma família decadente, que vê seu espólio diminuir a cada geração?


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A literatura brasileira, considerando seu desenvolvimento com base no idioma Português, faz parte do espectro cultural lusófono. Ela surgiu a partir da atividade literária estimulada pela descoberta do Brasil no século XVI. Inicialmente ligada à literatura metropolitana, só ganhou certa autonomia e características próprias no século XIX, com os românticos e os movimentos realistas e chegou seu clímax com a Semana de Arte Moderna, em 1922, caracteriza-se por ruptura definitiva com as literaturas de outros países, formando, portanto, do modernismo e suas escolas anteriores gerações de escritores realmente independentes. Neste momento, surgem grandes nomes como Manuel Bandeira, Carlos Drummond de Andrade, Guimarães Rosa João, Clarice Lispector e Cecília Meireles (FACINA, 2004).

Tais tendências literárias assimilam, então, uma espécie de narrativa apoiada por uma singularidade que, por meio do regime estético e escrita excessiva, é fornecido como fator constante de insubordinação contra hierarquias dadas. Esse tipo de narrativa, conceituada como pós-moderna, define o espaço democrático como um exercício da diferença. É o caso de escritores como Milton Hatoum, Sérgio Sant'Anna, Bernardo Carvalho, João Gilberto Noll, Luiz Ruffato Fernando, Cintia Moscovich, Lívia Garcia-Roza, Lins Paulo, Ferréz, Santiago Silviano, Rubem Fonseca, entre outros, que, embora tenham muitas diferenças entre si, criaram seu estilos literários com base no paradoxo do excluído, ou seja, abordando os problemas das classes sociais menos favorecidas e das pessoas oprimidas. A produção literária contemporânea no Brasil reflete os problemas sociais, culturais, políticos e econômicos inerentes à realidade brasileira (SANTIAGO, 2002). Assim é a obra literária de Chico Buarque. Em todos os seus livros, ele busca retratar personagens que, de tantos nuances, características, personalidade e contexto, poderiam ser reais. Em “Leite Derramado”, a história dos personagens engendra-se à história da sociedade brasileira no século XX e os acontecimentos históricos presenciados pela atual e pelas últimas gerações influenciam o destino dos personagens. Mais realista do que isso, impossível.

A motivação para a realização da pesquisa é a vontade de aprofundar o conhecimento sobre essa obra e sobre seu autor. Chico Buarque é um cantor, compositor e escritor brasileiro. Filho do historiador Sérgio Buarque de Holanda, iniciou sua carreira como escritor em 1962, quando escreveu seu primeiro conto aos 18 anos, ganhando destaque como cantor a partir de 1966, quando lançou seu primeiro álbum, “Chico Buarque de Hollanda”, e venceu o Festival de Música Popular Brasileira com a música “A Banda”. Socialista declarado, autoexilou-se na Itália em 1969, devido à crescente repressão do regime militar no Brasil, nos chamados “anos de chumbo”, tornando-se, ao retornar, em 1970, um dos artistas mais ativos na crítica política e na luta pela democratização no país. Na carreira literária, foi vencedor de três Prêmios Jabuti: o de melhor romance em 1992 com “Estorvo” e o de Livro do Ano, tanto pelo livro “Budapeste”, lançado em 2004, como por “Leite Derramado”, em 2010.

Esta última obra, Leite Derramado, é muito interessante porque relata a história da sociedade brasileira no decorrer do século XX entrelaçada com a saga de uma família decadente, que vê seu espólio diminuir a cada geração. E a relevância de seu estudo está em analisar os aspectos da literatura contemporânea brasileira, por meio de uma obra atual e proeminente, escrita por um autor consagrado. Questiona-se: Quais são os aspectos históricos mais importantes do século XX descritos na obra “Leite Derramado” e como esses fatos se entrelaçam com a saga de uma família decadente, que vê seu espólio diminuir a cada geração?

Os aspectos históricos mais importantes foram os tempos áureos do ciclo do café, a quebra da bolsa de Nova York em 1929, a grande depressão da década de 30, a revolução cultural dos anos 60 e 70, a Ditadura Militar, dentre outros. O personagem principal da história, Eulálio Assumpção, vivenciou todos estes acontecimentos e também a decadência de sua própria linhagem. Seu pai foi assassinado. Sua esposa o abandonou. Sua filha cresceu sentindo-se rejeitada pela mãe que a deixara e mais tarde, foi abandonada pelo próprio marido. Seu neto tornou-se comunista e foi assassinado nos porões da Ditadura Militar. Seu bisneto foi assassinado a tiros por uma amante, num motel. E seu tataraneto foi preso por tráfico internacional de drogas, na mesma época em que Eulálio veio a falecer.

O romance Leite Derramado, de Chico Buarque, conta a história da decadência de uma família abastada do Rio de Janeiro por meio da narração da vida de seu principal personagem, Eulálio, desde o seu nascimento, no início do século XX, até a sua morte, aos cem anos de idade. A narrativa relata não apenas a vida deste indivíduo, mas principalmente todos os acontecimentos na história mundial e brasileira e, especificamente, na história do Rio de Janeiro, usando a biografia de Eulálio como um pano de fundo para a narração destes fatos históricos. Fatos importantes como a riqueza dos cafeicultores no início do século XX, a quebra da bolsa de Nova York, a recessão na década de 30, a ditadura militar, a falência da classe média na década de 80, o aumento da criminalidade nos anos 90 e 2000 e a ascensão da religião evangélica recentemente são retratados no livro por meio de seus personagens. Para compreender melhor a análise da obra este capítulo se dedicou a uma análise sobre os principais acontecimentos no século XX que serviram de cenário para o enredo construído por Chico Buarque para esta obra.

ditadura-militar[1].jpg Do seu leito de morte, Eulálio narra, num monólogo dirigido à filha, às enfermeiras e a quem quiser ouvir, a história de sua linhagem desde os ancestrais portugueses, passando por um barão do Império, um senador da Primeira República, até o tataraneto, garotão do Rio de Janeiro atual. Uma saga familiar caracterizada pela decadência social e econômica, tendo como pano de fundo a história do Brasil dos últimos dois séculos. A visão que o autor nos oferece da sociedade brasileira é extremamente pessimista: compadrios, preconceitos de classe e de raça, machismo, oportunismo, corrupção, destruição da natureza, delinquência.

“Quando amanhã minha cama amanhecer vazia, muitos aqui farão o sinal-da-cruz, pensando no pior. Mas não se aflijam por mim, pois estarei chupando uvas em Copacabana, numa sala com vista para a praia.” (BUARQUE, 2009:150)

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Matilde, a mulher que Eulálio nunca pôde esquecer, aparece sempre presente. Matilde que tinha pele quase castanha e que, por causa disso, a mãe de Eulálio quer saber se ela não tem “cheiro de corpo.” Matilde que se veste em vestidos espalhafatosos, adora dançar e desaparece da história de repente, sem que o leitor entenda o porquê como Eulálio também nunca entendeu. Desde o começo, o amor dos dois tem cheiro de desastre. Mas, quando Matilde desaparece, ela não morre. Torna-se inesquecível.

“ Se com a idade a gente dá pra repetir casos antigos, palavra por palavra, não é por cansaço da alma, é por esmero. É para si próprio que o velho repete sempre a mesma história, como se tirasse cópias dela, para a hipótese de a história se extraviar. ( BUARQUE, 2009: 96)

A fala desarticulada de Eulálio, ao mesmo tempo que preenche uma função de verossimilhança, cria dúvidas e suspenses que prendem o leitor. No entanto, mesmo que a narrativa seja desarticulada, tudo no texto é conciso e preciso. Como num quebra-cabeça, todas as peças se encaixam perfeitamente. Chico cria personagens realistas mas, ao mesmo tempo, engraçados e caricatos. Há a figura da mãe, muito elitista, que pede até para passar o saleiro em francês; o arrogante engenheiro francês, que reage a tudo com um “merde alors”; a filha Maria Eulália que vai decaindo na escala social a cada paixão e arrastando com ela o pai; a namorada do garotão com seus piercings e gírias. A construção dos personagens é análoga ao tempo histórico do romance. Através do século, a construção, por exemplo, da dinastia dos Assumpção é coerente a cada geração e sua vivência desde o início do século, com o tataravô que está internado no hospital e nos relata, sem compromisso cronológico, a ascensão e o declínio da família. “Eu ia mesmo lhe telefonar para me fazer companhia, me ler jornais, romances russos. Fica essa televisão ligada o dia inteiro, as pessoas aqui não são sociáveis. Não estou me queixando de nada, seria uma ingratidão com você e seu filho. Mas se o garotão está tão rico, não sei porque diabos não me interna numa casa de saúde tradicional, de religiosas. Eu próprio poderia arcar com viagem e tratamento no estrangeiro, se o seu marido não me tivesse arruinado. “ (BUARQUE, 2009: 11)

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Eulálio nasceu e cresceu numa fazenda no pé da serra, na zona oeste da cidade do Rio de Janeiro. Durante a adolescência, Eulálio acompanhou o pai muitas vezes a viagens à Europa. Em uma dessas viagens, de Paris eles pegaram o trem até Crans-Montana, nos Alpes Suíços. Chegaram no hotel e Eulálio se preparava para dormir quando seu pai o chamou ao seu quarto e lhe apresentou a neve, mas não aquela que Eulálio esperava encontrar nos Alpes Suíços. “Mas não se tratava dessa porcaria que idiota chera por aí, era cocaína da pura, que só tomava quem podia. Não tratava a boca, não tirava a fome, nem brochava, tanto é verdade que em seguida ele mandou subir as putas” (BUARQUE, 2009:. 36). Na fazenda, morava um criado chamado Balbino Assunção Neto, descendente de uma família de escravos que morava na fazenda há gerações. Balbino era escravo do avô de Eulálio. Seu filho, também Balbino, foi cavalariço de seu pai. E o neto era amigo de infância de Eulálio. Este conta que durante um período, encasquetou que “precisava enrabar o Balbino” (BUARQUE, 2009: 19). Ele estava com 17 ou 18 anos e pedia ao Balbino que fosse lhe catar mangas nas árvores, ao que este obedecia e trepava nas mangueiras uma porção de vezes. Eulálio achava que Balbino lhe correspondia, pois ele “tinha um jeito meio feminil de se abaixar com os joelhos funtos, para recolher as mangas” (BUARQUE, 2009: 20). Enfim Eulálio conheceu Matilde e desistiu de enrabar o Balbino. Eulálio diz que a convivência com Balbino fez dele uma pessoa livre de preconceitos de cor. E, dessa forma, também tinha preferência por mulheres morenas, enquanto seu pai preferia as loiras e ruivas. Matilde era de tez quase castanha e era a mais moreninha das congregadas marianas que cantaram na missa de sétimo dia de seu pai, na Igreja da Candelária. Ela também era a mais moreninha de sete irmãs, filhas de um deputado federal correligionário de seu pai. O pai de Eulálio havia sido assasinado. Correu o boato de que ele havia sido morto a mando de um corno. Ele foi metralhado ao entrar na garçonnière, mas a mãe de Eulálio atribuía o crime à oposição, pois ele era um senador. Muitos anos depois, ao visitar a modista para comprar um vestido para sua esposa, Eulálio se recordou do dia em que seu pai foi à mesma modista encomendar um vestido azul para presentear uma amante. Na noite seguinte, a mulher chegou de braços dados com o marido na última grande festa do casarão de Botafogo, vestindo o vestido que havia sido comprado pelo pai de Eulálio no dia anterior. Eulálio viu seu pai beijar a mão da mulher e apertar a mão do marido. A mulher passou as mãos no próprio corpo e sorriu para o pai de Eulálio, que muito sério a fitou e logo desviou os olhos. “E é quando o marido de relance olha para ela, que sorri para o meu pai, que olha para ela, que olha para o marido, que olha meu pai, que olha o pianista cego, e ela ajeita os cabelos” (BUARQUE, 2009, p. 88). E só muitos anos depois Eulálio se deu conta que seu pai talvez não tenha sido assassinado pelos adversários políticos, e sim por este homem enciumado que percebeu a traição naquela noite, por causa daquele vestido azul.

Carnaval%20-%201972-thumb-800x522-48995[1].jpg Na missa de sétimo dia do pai de Eulálio, Matilde estava inquieta e andava por todo o lado. Eulálio a avistou “ao lado de seus pais, depois rapidamente entre as irmãs, depois no grupo das concregadas marianas” (BUARQUE, 2009: 31). Ela “andava em parafuso, a se entreter com meio mundo à sua volta, como se estivesse numa fila de sorveteria” (BUARQUE, 2009:. 31). Então, ela o abraçou e disse “Coragem, Eulálio” e ele achou que ela o tinha confundido com outro, pois ninguém o chamava de Eulálio. Para todos, ele era Lalinho, Lalá, Lilico. Só os padres o chamavam de Eulálio nos tempos de colégio. Elálio era o nome de seu trisavô, que foi passado para seu bisavô, avô, pai e agora para ele. Por ser o mesmo nome em tantas gerações, ele achava que aquilo mais parecia um eco do que propriamente um nome. Eulálio fugiu da igreja, cruzou a sacristia, alcançou uma saída lateral da igreja, saiu na calçada, despiu o paletó, se enfiou em uma ruela e logo saiu na avenida Beira-Mar. Ao fim de extensa caminhada, chegou ao casarão de Botafogo, onde encontrou o motorista de sua mãe encostado no capô do automóvel da família. E só então Eulálio se deu conta do desejo que o havia consumido. Seu pai desejava todas as fêmeas do mundo, ele tinha um desejo potencial equivalente ao dele, porém concentrado numa só mulher.

A história dentro da História. Assim, Chico Buarque narra e descreve quatro gerações da família Assumpção que tiveram sua função ao longo do tempo, desde seu tataravô, do início do século XX até o tataraneto, garotão da Zona Sul que tem namoradas e ganhou dinheiro de forma inexplicável. Detrás de um narrador onisciente, o mundo fica reduzido a um jogo de linguagem que exclui qualquer possibilidade de uma explosão de realidade dos conflitos apresentados e oferecidos ao leitor. Há uma preocupação constante em seguir o fluxo de consciência do narrador através de uma narrativa não cronológica, mas totalmente vinda do seu inconsciente pessoal. O autor-narrador atravessa cem anos passados na cidade do Rio de Janeiro, com suas transformações urbanas, cenários antigos muito bem descritos, as mudanças de costumes mescladas com sua história de amor por Matilde que já chegara em sua vida como uma ruptura, posto ser morena, simples e nada elitista. Chico Buarque nos descreve o passar da abundância e requintes da família Assumpção para um vida mais pobre, sem a língua francesa, nem a moda parisiense imperando sobre os hábitos e vestes de antigamente. As ligações afetivas vão sendo substituídas pelo amor de Eulálio por sua filha e depois por seu neto, Eulalinho, uma vez que Matilde é internada em um sanatório e não volta jamais, fazendo Eulálio envelhecer solitário em um chalé de Copacabana que acaba se transformando em edifício. Todo o processo de urbanização dos anos 50 aos anos 70 é poeticamente revelado por um senhor que tem lapsos de memória e nos encanta com sua própria invenção, através de recordações e delírios, nos enriquecendo com as cores e a emoção que compuseram sua vida desde a infância até a morte.

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