imagens e palavras

REFLEXÕES SOBRE LITERATURA E CINEMA

Fernanda Villas Boas

A HISTÓRIA DE ADÈLE H- UMA PAIXÃO OBSESSIVA

Em 1863 a jovem e bela Lewly (Isabelle Adjani) viaja da França até o Canadá à procura do Tenente Pinson (Bruce Robinson), por quem está perdidamente apaixonada. Porém, Pinson não corresponde ao amor da moça, e faz de tudo para deixá-la sem esperanças. Lewly não desanima e, completamente obsessiva, está disposta a tudo para não abrir mão deste amor, nem que para isso ela tenha de viajar metade do planeta. O que quase ninguém sabe, contudo, é que na realidade "Lewly" é o pseudônimo de Adele Hugo, a segunda filha do grande poeta francês Victor Hugo.


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Quando conhecemos Adèle Lewly (só posteriormente seu verdadeiro nome será revelado) ela está desembarcando na América, após longa viagem de navio. Sem ter para onde ir e com o dinheiro contado, pede para o motorista que a leve até uma pousada de família, simpática e não muito cara. Aos poucos seus planos vão sendo revelados: está atrás do oficial Albert Pinson (Bruce Robinson)

O que uma vez houve entre os dois já acabou, e daquilo ele prefere nem guardar lembranças. Visivelmente desequilibrada, prefere seguir agindo como se ignorasse os fatos óbvios que se desenrolam em sua frente, acreditando mais no que se passava em sua mente do que no que de concreto sucedia. E a partir de então passa a mentir: para a família, para os hospedeiros, para os poucos laços que estabelece naquele novo local – o livreiro, o rapaz dos correios. Mas, principalmente, para si mesma. A presença de Truffaut, neste filme, é mais do que discreta – mesmo uma rápida participação como ator, como um dos militares. Ele está presente nos detalhes, no inconsciente, no estudo de personagem que desenvolve a partir das ações e reações de sua protagonista: Adèle cria e recria, a cada instante, um novo mundo, e qualquer sinal de mudança e melhora logo é esclarecido como um mergulho ainda mais profundo na loucura que vai desenvolvendo.

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A paixão, aqui, não é arrebatadora, muito menos libertadora. Ela consome, destrói e perverte, arrasando com quem dela deveria se nutrir, até o último suspiro. E, no final, o que sobra é somente o preto das rouppoderíamos até classificar a paixão doentia de Adèle como uma espécie de "anti-amor", atingindo os píncaros mais radicais da idealização, onde, além de ser alvo da mais completa indiferença da parte de seu objeto de afeição, o Tenente Pinson, a moça vai progressivamente anulando os sentimentos com relação a si própria, tornando-se ela mesma uma personagem dentro de um universo que ela cria e recria através de seus diários e de suas cartas ao pai. A chave para o comportamento de Adèle estaria em sua história familiar, a qual, reprimida tanto no amor de seus pais, que preferiam Leopoldine, a irmã mais velha que morrera afogada, assim como em suas pretensões criativas. Até no simples fato de ser filha de quem é ou quando, ao longo do filme, diversas vezes pergunta nas cartas sobre a publicação de uma música que nunca será feita, acabará por levá-la a construir de sua própria vida mais que uma mentira, e sim uma grande obra de ficção.

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Desde as primeiras imagens de A História de Adèle H., a protagonista demonstra estar imersa em seu universo pessoal, vagueando como um espectro pelo porto de Halifax e construindo as mais deversas identidades para si (Miss Lewly) e para Pinson, a quem se refere ora como um primo distante, ora como um cunhado da irmã .Ao ver sua paixão não correspondida, ao invés de reconstruir um mundo real, Adèle mergulha cada vez mais no mundo que concebera em sua mente e seus escritos, parecendo estar se afogando neste próprio mundo, como no sonho recorrente que tem ao longo do filme. Tal mergulho a impede de vislumbrar uma real chance de amor e felicidade, que poderia se descortinar através do homem da livraria. Ao final, já em Barbados, a Adèle-autora simplesmente deixa de existir e mal sobrevive a Adèle-personagem, que, assim como o Rubião de Machado de Assis, caminha fora de si pelas ruas, servindo de chacota para as crianças, sem reconhecer sequer o próprio Pinson, uma vez que o Pinson real já não mais importa, com o universo idealizado-ficcional da protagonista completamente estagnado em si mesmo.

Ao transpor à tela este complexo universo psicológico, tão próximo do fantasioso, não fosse a recriação de um episódio real, Truffaut opta por executar uma encenação ao mesmo tempo realista – com a rigorosa reconstrução de época e utilização eficiente dos diálogos em inglês e francês – e sombria – principalmente através da fotografia em tons castanhos de Nestor Almendros, onde praticamente não se vislumbram cores vivas. Mesmo que muitos possam criticá-lo por um excessivo formalismo, não se pode deixar de ressaltar que suas opções servem para retratar de forma igualmente correta e eficiente as experiências, emoções e sentimentos da personagem, assim como a utilização da narração tirada dos reais escritos de Adèle e de várias elipses temporais na construção do roteiro. adele2.png

Mas na verdade, o principal instrumento de Truffaut, ou mesmo a razão de ser de A História de Adèle H. é mesmo Isabelle Adjani. Já foi dito que o diretor afirmou ser o rosto da atriz o verdadeiro tema de seu filme. E é mesmo através desse belíssimo rosto que fica patente a desintegração de Adèle. Adjani transmite de forma igualmente emocionante a relativa inocência que a protagonista ainda mantém quando de sua chegada ao Canadá, seu progressivo desespero, até as feições desgrenhadas e alienadas da realidade nas sequências finais. Tudo com uma veracidade surpreendente para seus então poucos 20 anos Podemos gostar mais ou menos de A História de Adèle H., mas se faz justo afirmar que Isabelle Adjani torna o filme uma experiência indelével.


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