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REFLEXÕES SOBRE LITERATURA E CINEMA

Fernanda Villas Boas

BELEZA AMERICANA E O VAZIO DO SER

American Beauty (Beleza Americana, no Brasil) é um filme norte-americano de 1999 dirigido por Sam Mendes e escrito por Alan Ball. Kevin Spacey é o protagonista do filme no papel de Lester Burnham, um homem que enfrenta uma crise da meia idade ao se apaixonar por Angela, a melhor amiga de sua filha adolescente. O elenco é composto por Annette Bening no papel da esposa materialista de Lester, Carolyn, e Thora Birch que interpreta a filha insegura do casal, Jane; Mena Suvari, Wes Bentley, Chris Cooper e Allison Janney completam o elenco. O filme foi descrito por acadêmicos como uma sátira das noções sobre beleza e satisfação pessoal da classe média norte-americana; a análise se focou na exploração dos temas de amor romântico e paterno, sexualidade, beleza, materialismo, alienação, libertação pessoal e redenção.


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Beleza Americana, dirigido por Sam Mendes (1999)é um filme pós-moderno que toca na ferida da classe média norte-americana- a desconstrução da família, como núcleo onde o pai tinha autoridade de pai e a mãe, era sua companheira, com filhos educados para o dito sonho americano. Beleza Americana mostra a decadência da família norte americana nos sentidos morais, ideológicos e afetivos, colocando um ponto de interrogação sobre as relações familiares. Todos os personagens são volúveis, neuróticos e problemáticos por falta de sentido em suas vidas. O amor se banalizou, o trabalho se corrompeu e as gerações pensam e agem de modo diverso. As relações estão abaladas, cortadas pelo desespero de viver em uma sociedade onde nada parece mais ter sentido, onde a essência da vida está por um triz.

O narrador é Lester Burham ( Kevin Spacey)marido de Carolyn ( Annete Bening). Vive um casamento sem amor, tem uma filha, Jane, com a qual não consegue comunicar-se e que o odeia como pai fracassado. Quando, Lester, conhece Angela Hayes, colega da sua filha, fica encantado e resolve chutar o balde radicalmente. Pede demissão, passa a cuidar mais do corpo e a fazer tudo o que quer. Fuma maconha e faz exercícios em casa. Recusa-se a ficar com a mulher e a importar-se com luxo e dinheiro. Numa festa, Ricky oferece a Lester, um baseado e depois deste encontro, Lester passa a ser cliente. A esposa Carolyn põe o sucesso profissional acima de tudo. Como vê o seu marido como o fracasso em pessoa, acaba se envolvendo com um mega-empresário do ramo no qual trabalha, o setor imobiliário.

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A filha começa a namorar o vizinho, Ricky cuja família é pior que a família de Jane. O pai, um neurótico aposentado da Marinha, se mostra tradicional e bruto om a mulher que praticamente não fala, fazendo-nos ver claramente a morte em vida, de uma dona de casa manipulada e presa pelo marido. O filho, Ricky, vende maconha de várias espécies e vive deste dinheiro.

Numa festa, Ricky oferece a Lester, um baseado e depois deste encontro, Lester passa a ser cliente. A esposa Carolyn (Anete Bening) põe o sucesso profissional acima de tudo. Como vê o seu marido como o fracasso em pessoa, acaba se envolvendo com um mega-empresário do ramo no qual trabalha, o setor imobiliário.

Jane, a filha, está totalmente sem perspectiva quanto ao seu futuro, vendo a beleza de sua amiga Ângela (que aliás vive num mundo ilusório, mentindo constantemente sobre seu sucesso como modelo), acaba por desvalorizar seu corpo e sonhar com uma operação plástica.

Diferente dos demais, o novo vizinho Ricky, ao invés de buscar sucesso ou beleza, só quer conhecer o que está ao seu redor, já que parece mais adaptado ao mundo de aparências do perfeccionismo americano. Apesar de parecer um nerd fechado ou, segundo seu pai, um gay frangalhão, ele acaba conquistando Jane com seu ar de segurança e acaba servindo como referência a Lester, quando este descobre que o garoto ganha dinheiro traficando drogas ao invés de estar trabalhando como garçom, como pensam os seus pais.

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Aliás, a mudança de Lester é radical: começa a fumar maconha e malhar na garagem e a fritar hamburgueres numa lanchonete após se demitir do antigo emprego. Quer conquistar Angela, a amiga da filha.

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O título, mesmo com essa carga sensual, se encaixa muito bem ao filme: “American Beauty” é o nome de um tipo de rosa cultivada nos Estados Unidos que possui uma peculiaridade: não possui espinhos ou cheiro, é uma metáfora ao vazio do americano comum.

O grande mote do filme é a beleza que há na vida, e como nós não a percebemos. As vendas que impedem os personagens de verem a beleza que há no mundo são mantidas em todos os personagens, exceto em Lester e em Jane – e o único que entende o mundo é Ricky. No entanto, a primeira centelha que atinge o protagonista de modo a se propor uma mudança de vida é Angela (Mena Suvari), a amiga de sua filha. Ela se mostra ao mundo como uma garota sensual, muito segura de si e que sabe como lidar com o assédio masculino. No entanto, Ricky, ao se encantar por Jane, acaba por mostrar que Angela usa Jane como companhia para se sentir melhor sobre sua amiga “sombra”, ordinária.

Nessa trama, portanto, temos um fator interessante: a ponta do iceberg que mudará a vida de Lester é tão falso e mascarado quanto todas as outras pessoas que o cercam – e que ele a vê como especial até o fim. Ao pensar que seu filho estava tendo um caso com outro homem, o general, orgulhoso demais para admitir ser gay, vai acabar com esse segredo que vinha o corroendo e pela janela tem a impressão de que Lester está tendo um caso com seu filho, Ricky. Esse é o grande questionamento do filme: O que há por trás das portas perfeitamente pintadas? O general invade a garagem de Lester o beija e depois o mata.

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Ricky Fitts é um personagem chave no filme. Um garoto bizarro à primeira vista que se mostra como o único normal e verdadeiro. Ele chega à vizinhança e se aproxima, primeiramente, de Jane. Depois, conhece Lester. Suas atitudes surpreendem os dois personagem de modo que eles saiam da cegueira social. Ricky é como o olho do autor do roteiro: ele vê aquilo o que merece ser visto e aponta aos cegos – e aos espectadores – a beleza que perdemos por aí. Sua câmera é diferente, sua realidade não é a câmera do filme (o que é um grande ponto na escolha da fotografia). Seu olho, com o assassinato de Lester fita os olhos de Lester. Ele vê que sua morte foi feliz e que, finalmente, ele havia compreendido e internalizado a percepção da beleza. Lester, como narrador, reitera a visão de Ricky no belo desfecho que segue a visão do instante final da sua morte ao continuar “até o infinito, como um oceano de tempo”.

O uso de “Because” (escrita por John Lennon e Paul McCartney) no fim faz o espectador se confrontar com a grande mensagem da história – a eterna questão do sentido da vida, como ela pode ser bela e como somos ínfimos ante ela.

Beleza Americana estuda antropologicamente o homem ocidental americanizado. O filme tem um olhar de compaixão e ternura sobre seus personagens perturbados com suas distâncias e estranhamento naturais. Ao mesmo tempo, ele trata de aproximar o exotismo dessa nossa sociedade à suposta esquisitice de viver verticalmente a vida. Trata-se de um estudo realista sobre a podridão e vazio da falta de sentido na vida. A sua mensagem é densa e dramática decorrente do ódio calado, da agressividade contida e da mediocridade da classe média consumista que busca satisfação e não consegue ser feliz dentro deste paradigma imposto, raso e cruel.

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