imagens e palavras

REFLEXÕES SOBRE LITERATURA E CINEMA

Fernanda Villas Boas

PARIS,TEXAS: A DOR DO PAI AUSENTE

Paris, Texas dirigido por Wim Wenders, conta a história de Travis, um homem que, depois de estar desaparecido por mais de quatro anos, é reencontrado pelo irmão Walt num hospital na região desértica do Texas, próximo à fronteira com o México. Maltrapilho e com amnésia, é levado por Walt para a sua casa em Los Angeles, onde reencontra Hunter, seu filho de sete anos que foi abandonado pela mãe, Jane. Inicialmente estranhos, Travis e Hunter iniciam uma reaproximação que culmina numa grande amizade e também no desejo secreto de reencontrar Jane e reconstruir sua verdadeira família.


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Paris, Texas, filme de Wim Wenders tem o olhar psicológico sobre a solidão humana e as separações dolorosas onde o ser fica tripartido. O título se refere a uma cidade no meio do deserto no Texas, EUA. O protagonista Travis ( Harry Dean Stanton) pensa ter nascido lá e compra um terrento para viver com sua amada Jane, (Natassia Kinski)e o bebê. Desconfianças e ciúme levam à separação e passados quatro anos, o irmão Walt, encontra Travis e o traz para sua casa onde mora com seu filho. Naturalmente, a criança o rejeita.

A crise estrutural do capital implica a crise de suas instâncias sócio-reprodutivas e de suas personificações estranhadas. A familia é uma das instâncias sócio-reprodutivas mais importantes do metabolismo social do capital. Ela implica na obsolescência da figura do pai como elemento estruturante das relações familiares. Por outro lado, a crise do pai é a crise do macho e do sujeito dominante nas relações entre os sexos.

O tema candente no filme Paris,Texas, de Wim Wenders é a crise da figura do pai na ordem burguesa – o pai como representação da autoridade moral na sociedade. É um dos elementos da crise da familia burguesa e das instâncias sócio-reprodutivas do capital. Eis o eixo temático estruturante da narrativa. Num primeiro momento, verificamos que o personagem do filme de Wenders, Travis Henderson, é um homem que vive uma intensa crise pessoal detonada por um desencanto afetivo ligado a sua ex relação conjugal problemática. Este é o disparador do drama de Wim Wender. É claro que, num primeiro momento, logo na abertura do filme Paris,Texas, colocamos a seguinte questão: o que aconteceu com o pobre Travis para que o encontremos vagando pelo deserto no interior do Texas? Ao som da música visceral de Ry Corder, Travis aparece imerso na árida paisagem do deserto texano, sedento e exausto, um espectro de homem.

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Sob a terceira modernidade do capital, invertem-se os papéis clássicos. Temos o reencontro/retorno do “filho pródigo”, que, nesse caso, é o pai perdido em sua angústia pessoal (a “crise originária” interverte os papeis sociais – o pai torna-se o filho e o filho é o pai – como diz o ditado, “a criança é o pai do homem”. Mais tarde, num depoimento gravado, Travis diz para Hunter: “Voce mostrou quem eu era”. Isto é, ele é o pai). Paris, Texas é um filme de constantes metáforas sobre a condição pós-moderna.

O pequeno Hunter, filho de Travis, é aficcionado em astronomia. Relata para o pai, as origens do Universo. É quase como uma metáfora de si. Diz Hunter: “A Galáxia inteira, todo o Universo, estavam comprimidos num pontinho deste tamanho. E sabe o que aconteceu? Fez assim e explodiu...Faíscas em todas as direções, saiu tudo voando para todo o lado e o espaço se formou. Era só gás flutuando...” Ele usa jaqueta da NASA quando acompanha o pai na busca da mãe. Eis a preciosa metáfora da presença distante de astros fascinantes. O pai, a mãe, o lar – eis o verdadeiro Universo de Hunter, composto de estrelas/imagens que estão presentes, mas muito distantes. No filme, o momento em que o pequeno Hunter fala da origem do Universo é a metafóra candente de seu drama humano. O “big bang” da família de Handerson ocorrera há quatro anos. De certo modo, o filme é o relato da origem primordial da “nova Terra”, após o cataclisma originário.

paris texas.jpg Mas é na relação primordial de Travis com sua mulher, Jane – que encontraremos elementos do enigma crucial do filme: fascinação e desejo; ciúme e possessividade; fantasias inconscientes, e incomunicabilidade. Na verdade, Travis vislumbra a cruel impossibilidade de ser amado intensamente pela mulher desejada: a jovem Jane não o ama como ele a deseja. E pior: ao nascer o filho Hunter, ela se transtorna e ameaça abandoná-lo. Enfim, a diferença de idade, diferenças cruciais de perspectivas de vida e de afeto, a candente imaturidade de uma paixão fugaz, implode a intensa e alucinada relação.

Por um lado, Jane, jovem ninfeta, deslumbrada com o desejo e paixão por um homem mais velho, que lhe transmite, talvez, segurança e afeto. Ela se casara aos 17 anos e ele provavelmente devia ter, na época, pelo menos, uns vinte anos a mais. Como ele, à época, ela possui também suas fantasias inconscientes. Jane era tão imatura e perdida quanto ele. Pode-se dizer que o nascimento do filho Hunter significou a negação do casal e a constituição da familia enquanto novo universo existencial. A chegada da criança, elemento primordial que deu origem à familia, abalou, com certeza, a precária relação conjugal marcada pelos sentimentos de intenso desejo e contínua aventura.

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O filme Paris, Texas é, deste modo, a odisseía de uma tentativa de reconstrução do lar desestruturado. Mas – como dissemos – não se trata de uma reconstrução passadista: o pequeno Hunter volta para a mãe, mas Travis prossegue sua odisséia existencial. É o lar possivel sob a terceira modernidade do capital – mãe e filho. O homem-pai está obsoleto: o pai como autoridade estruturante da relação sócio-metabólica do capital.

Finalmente, há o mundo social do filme Paris Texas. Se o drama intimista de Wenders se sobressai com vigor, os detalhes sociológicos nos convidam a pensar o admirável mundo novo do capitalismo. São imagens-estruturas que consomem os personagens do filme. O mundo social de Paris, Texas é um mundo social árido, como o deserto de Travis.

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É o mundo americanizado, sociedade do fast-food e do voyeurismo, universo social da não-comunicação e da incomunicabilidade. O peep show onde Jane trabalha, é a metáfora de um universo social marcado pelas interações humanas presentes e tão distantes – há milhares de anos-luz. Paris, Texas é um filme da não-comunicação ou da comunicação impossivel. Comunica-se por meio de espelhos intransparentes (como no peep-show) ou por meio de depoimentos gravados (quando Travis deixa a mensagem para o filho Hunter). A crise humana em Paris,Texas é uma crise de comunicação. Se o sujeito está negado, não há intersubjetividade ou ação comunicativa. Logo não há possibilidade de amor nem de relação afetiva.

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