imagens e palavras

REFLEXÕES SOBRE LITERATURA E CINEMA

Fernanda Villas Boas

PELO AVESSO

O sentido em que os prosadores de ficção usam as palavras, mesmo quando elas se referem a coisas do espírito e científicas, é o sentido carnal, vamos dizer assim, terreno, cotidiano, comum. A ideia de que os romancistas, como os poetas são seres aéreos e desligados da realidade, essa sim é que é uma ideia aérea, desligada da realidade alienada; nenhum ser é mais terra e dos homens do que o escritor.


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De manhã, não tinha nenhuma certeza. Fazia seu próprio café e voltava para a cama. Pesado ar sobre suas lembranças. As recordações estava gravadas e com a distância e o tempo, perdiam a forma. Ela conseguia perceber o mundo que vivera, pelo avesso. Toda gota de risos se desfazia no tecido tênue da memória. Nunca ninguém lhe fora grato de nada. Sua vida, um insólito poema, sua estrada, de barro era o avesso da civilização. Seu ódio era eloquente e gritava lá dentro de si: deixa eu sair. Contudo, seu ódio era o de menos, porque afinal, todos nós sentimos uma raiva de vez em quando. às vezes,até sem saber porque. Ela amaciava o sentimento com gotas de canções que ela mesma inventava e ao cantar o ódio, já não o tinha dentro de si. IMG_20150712_150042.jpg

Todos sabiam que ela era esquisita. Pouco falava, quase nunca saia. Assim, sem pai nem mãe, alguns fingiam piedade, outros eram apenas um bando de gaviões a querer detalhes sobre sua vida. Ela não falava e com um sorriso seco, se despedia da gentalha. O bairro tinha ladeiras e seu pensamento deslizava pelo asfalto quente até tropeçar em casa. Tirava a roupa e deixava o dia correr pelo avesso.

O avesso das discussões,era ela sem espelho. Não diria nunca que seu avô tinha deixado terras para si. Terras que ela nunca vira todas de tantas terras sorria em saber-se andando descalça em noites quentes com o barro entrando nos pés, e ela correndo atrás de água, porque era grande a sede. Era seco o caminho pelo avesso.

Na margem do lago, se refrescou. Tirou as cascas do avesso. Era como se estivesse nua para o cosmos, nua para deus. Mística e delirante, deitou-se sobre a grama e sentiu a terra girar e girando foi mudando de lugar. Só sentindo o movimento do tempo. Só lhe chegavam imagens do passado por vezes amassadas, outras vezes, recicladas pela mente. Estava só e via nitidamente o avesso das coisas. Tudo aquilo que não aparenta. Tudo que é invisível é avesso a essa pequena cena da vida. Viver é ousar, jogar fora mentiras que nos foram tão bem contadas. viver é nem pensar, apenas seguir fora dos mandamentos sociais. Viver é estar pelo avesso.

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