imagens e palavras

REFLEXÕES SOBRE LITERATURA E CINEMA

Fernanda Villas Boas

TEMPOS DE VAZIO E CONSUMO

A lógica de mercado, adotada como finalidade última da civilização contemporânea, formata sua visão histórica, alterando a sua concepção de mundo. Denuncia-se com isso o caráter opressor da idolatria ao objeto, que nada tem de harmônico, mas sim de conflitual, uma vez que alija o indivíduo da sua condição de sujeito. O consumo, na minha opinião não se correlaciona à uma lógica individual do desejo, mas é consubstanciado na lógica do tributo e da distinção social, deixando o vazio cada vez maior.



images (22).jpg

Na atualidade pós-moderna e globalizada já é sabido que há uma ditadura sobre os corpos e sua estética. Há também, desde o final do século XX um comportamento voltado para o consumo e o acúmulo de bens materiais. À medida que o sujeito se sente parte do seu segmento social, ele imita e obedece o que está sendo imposto sedutoramente seja pela telvisão,jornais e internet.

Em toda a crítica de Baudrillard às teorias clássicas de entendimento do consumo, percebe-se que o autor constrói a uma variante, as concepções de cunho idealista. Em tais raciocínios encontrar-se-á uma ligação desencadeante entre necessidades e satisfações, onde os indivíduos responderiam passivamente aos aceleradores artificiais, que propõem um elenco finito de objetos a serem consumidos. Em oposição, para o autor, “não são as necessidades o fruto da produção, mas o sistema de necessidades é que constitui o produto do sistema de produção” (1995:74). Vale ressaltar, que as necessidades como sistema não serão produzidas individualmente na correspondência de objetos específicos. O raciocínio deverá se deslocar para um quadro mais geral das forças produtivas, com suas exigências de totalidade. Desse modo, acredita-se que as necessidades são produzidas como elementos de sistema e não como a relação de um indivíduo ao objeto. Nesse contexto a “tecno-estrutura” será ativada, sem nenhum intuito de capturar a ordem de fruição dos sujeitos em proveito próprio, mas, ao contrário, com o propósito de negá-la ao substituí-la por uma reorganização de todo um sistema de forças produtivas. Nessa dimensão os objetos, que são diferenciados e complementares, não se apresentam desordenadamente: um faz menção ao outro, colocando-se sempre como solução transitória para uma rede de demandas, que adota o consumo como prática irreprimível desse processo.

0197885001403803786redessociais.jpg

A contradição e a reversibilidade regem a moda, os conceitos de beleza, distinção ou utilidade. A ideia de satisfação última, a ser alcançada pelos indivíduos, também se inscreve como uma ilusão, sempre na dependência dessas ondulações. O que o consumo dispõe como meios realizadores desse intento, não se apresentam de maneira padrão e nem habitam um lugar fixo. Vagueiam por diferentes objetos e sempre aquém das expectativas geradas.

ka.jpg

Outro aspecto que se correlaciona à dinâmica ilimitada do consumo, levando os sujeitos ao rompimento do impensável e à crença no impossível, refere-se a uma “mentalidade sensível ao miraculoso”. Para Baudrillard, o consumo seria governado pelo pensamento mágico, que se presentifica na dependência de todo um elenco de objetos simulacros e de sinais característicos de felicidade. Estes sinais, como numa promessa, atuam como um compasso de espera, até que a verdadeira felicidade seja alcançada. O autor a compara a mentalidade primitiva, quando caracterizada pela onipotência dos pensamentos, e nesse caso, refere-se a mentalidade contemporânea marcada pela omnipotência também, só que dos signos. Algo se processa como se o prazer e a felicidade provenientes dos objetos, funcionassem como o prenúncio ou um reflexo antecipado de “uma Grande Satisfação virtual, da Opulência total, da Jubilação derradeira dos miraculados definitivos, cuja esperança louca alimenta a banalidade da vida cotidiana”. Essa confiança mágica, faz com que a economia psíquica na vida cotidiana, funcione num eterno reprocessar, numa sequência de repetições, o que equivale dizer que se algo não se passou como esperado, foi porque algum procedimento não foi observado a contento.

consumismo.jpg

A promessa de adesão à felicidade, por meio da aquisição de mercadorias, para Siqueira, se traduz num novo paradigma civilizacional, consolidado a partir da voracidade em face ao produto. Para o teólogo, esse comportamento guarda relação com a volúpia sexual ou com a intensa espiritualidade. Na idolatria de mercado, em que se encontra submerso, os deuses deixaram de ser idealizados e antropomorfizados. Apresentam-se como objetos criados e recriados pelos homens, e que deles se tornam independentes de veneração. Algo se dá como se o sentido da vida passasse a ser paragonado por uma relação efetiva e afetiva com os objetos, “observa-se que o estado emocional e as relações modificam-se, como por milagre, em um toque de mágica: o consumo é o novo elixir para as inúmeras doenças oriundas da modernidade mercadológica” (SIQUEIRA,1999) No tocante à sexualidade, ainda para o mesmo autor, o desejo, a sedução e a entrega, deixam de ser provenientes das relações humanas, passando a habitar o ecossistema bem equilibrado das relações objetificantes, orquestradas por determinantes mercadológicos.


version 3/s/sociedade// @obvious, @obvioushp //Fernanda Villas Boas