imagens e palavras

REFLEXÕES SOBRE LITERATURA E CINEMA

Fernanda Villas Boas

CAPITU: O CIÚME PATOLÓGICO

“Dom Casmurro” é um romance de formação, uma vez que nos permite uma reflexão sobre as influências que a educação exerceu sobre Bentinho. O conflito do personagem que não quer ser padre, mas obedece ao desejo da mãe e segue para o seminário, com dúvidas, remorsos e falta de ousadia para romper com a relação obediente que mantém com sua mãe. O autor ilustra a posição complexa e reprimida do adolescente que anseia por uma autonomia dentro da rigidez da sociedade burguesa e aristocrata de final de século. Deste modo, o conflito pela autonomia permeia todo o romance, na personalidade angustiada e dividida do jovem e do velho Casmurro


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Machado de Assis em “ Dom Casmurro” é narrador e personagem, Bento Santiago que, ao longo de cento e oito capítulos, rememora seu passado na adolescência escrito na primeira pessoa. Ele apresenta o desdobramento de um amor adolescente pela personagem Capitu e todos os obstáculos que precisa enfrentar para casarem-se. As circunstâncias são as mais comuns: dificuldades familiares, Capitu é pobre, Bentinho é rico. Para tornar a estória ainda mais romântica e próxima do conto de fadas, Machado introduz a presença da mãe de Bentinho, e sua promessa de ordenar-se padre. A estrutura romântica é desarticulada com o fracasso do casamento porque Bentinho passa a suspeitar de que seu filho é fruto da traição de Capitu com seu melhor amigo, Escobar. Capitu assume, na segunda seqüência, o papel de mulher adúltera, acusada pelo marido, e Bentinho, o do homem traído pelo amigo, pela mulher e pela vida, o que o torna «casmurro» e solitário. A narrativa, na segunda seqüência da estrutura, sustenta-se na caracterização das personagens. Capitu é desenvolvida com uma personalidade dissimulada, capaz de fingir sedução para alcançar seus objetivos. O autor-narrador, e também personagem, nos deixa o maior mistério de um romance brasileiro: a traição de Capitu. Machado de Assis consegue envolver o leitor na trama, e inclusive seduzi-lo a gostar da personalidade e da sensualidade de Capitu que até o final nega o fato da traição. Além disso, a questão do adultério sem provas concretas, faz com que não possamos julgar a heroína. O efeito é muito significativo, num meio conservador e machista, como era a sociedade brasileira ao final do século XIX. Machado faz com que o leitor desconfie das acusações do marido doente de ciúmes, porque Capitu em nenhum momento supera as barreiras do silêncio. Neste silêncio, as palavras tomam outra força e o lugar do outro, que é o lugar do desejo, ocupado por Capitu. A paixão que os uniu, como será analisado a seguir, tornou-se um mito representativo da nossa literatura e a acusação que os separou questiona os preconceitos ainda presentes e prejudiciais às relações homem-mulher em nossa sociedade, que só leva à infelicidade e à dor.

capitu-20.jpg “A notícia de que ela vivia alegre, quando eu chorava todas as noites, produziu-me aquele efeito(...)Há alguma exageração nisto, mas o discurso humano é assim mesmo, um composto de partes excessivas e partes diminutas, que se compensam, ajustando-se.”( MACHADO, 1969:108)

Discursivamente, não há nem um sujeito absoluto, nem um sujeito-complemento, inteiramente determinado pelo fora. Esse espaço de subjetividade é um lugar tenso onde jogam os mecanismos discursivos da relação com a alteridade. «O meu fim evidente era atar as duas pontas da vida, e restaurar na velhice a adolescência. Pois, senhor, não consegui recompor o que foi nem o que fui. Em tudo, se o rosto é igual, a fisionomia é diferente. Se só me faltassem os outros, vá; um homem consola-se mais ou menos das pessoas que perde; mas falto eu mesmo, e esta lacuna é tudo.»( MACHADO,1969:19)

A incompletude do sujeito pode ser compreendida como trabalho do silêncio. O sujeito tende a ser completo e, em sua demanda de completude, é o silêncio significativo que trabalha sua constituição. A grave proposição deste livro é a consciência pensante do narrador Dom Casmurro: um homem sexagenário, advogado, ex-seminarista de formação que toma a posição de um educador no sentido de conduzir o leitor à reflexão sobre a pessoa moral de Dom Casmurro. A verdade a ser descoberta e julgada neste romance é para a construção da subjetividade de dom Casmurro, apontando para os excessos e os vazios de sua adolescência na casa de Matacavalos. Machado de Assis se mostra menos pessimista e mais humano em “Dom Casmurro,” considerado sua obra-prima. A história é banal, uma história de adultério e ciúmes. Bentinho Santiago, a personagem, velho e solitário, narra a história de uma paixão que tem, desde menino, por uma mulher, Capitu. Conta a traição da mulher com Escobar, também amigo da infância, embora nunca provada positivamente, provavelmente só existindo na imaginação de Bentinho. O tema é banal, dentro de um rigor literário inconfundível. Portanto, Machado de Assis cultivou com excepcional sensibilidade, um romance de características bem definidas: análise em profundidade do mundo psicológico; redução dessa análise a sínteses muito claras; observação do ambiente humano que envolvia o mundo psicológico.

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