imagens e palavras

REFLEXÕES SOBRE LITERATURA E CINEMA

Fernanda Villas Boas

GIRA BOLA, PERNAS, COXAS, GIRA TERRA


a>20150503_065011.jpgcuba.jpg Nunca mais é um advérbio de tempo e as palavras se esbarrando estão pelo menos se tornando cada dia mais fortes, formando assim uma espécie de muralha defensiva para a desconexão com o mundo atado em si próprio. Desato. A água desce macia pelos cabelos e o pescoço se descontrai pro sul e pro norte. Crio a linguagem própria que de tão genuína se mistura com o gosto da água. Crio uma máscara não muito carnavalesca, mas bastante chocante e colorida para chamar a atenção dos anestesiados passantes, teleguiados pelo imenso microfone do poder... saudade, palavra doce, que mentira mais romântica. Creio mesmo que pode ser que com mangas, framboesas, morangos e maracujá, a saudade daquele tempo tenha sido doce. Esses passantes poluem meu banho, restantes ditos, dignos do conceito social que não fazem outra coisa, senão continuar seu sermão hipócrita, com uma coerência de fazer gosto, comprando assim a beleza dos rebentos, já que há muito não a possuem, e seduzindo-os, pagam-lhes uma rica refeição para que lhes toquem a carne podre e flácida, desigual, emporcalhada. É repugnante perceber as ditas grandes figuras do sistema.

Sua transa, sua imensa capacidade de persuadir, mentir, matar. A água vai caminhando carinhosamente por cada reentrância até o corte do umbigo. Renasço. Gira bola, pernas, coxas, gira terra, virilha, bunda, quadris, gira todo sistema planetário atraindo e expulsando, no sistema nervoso vital todos os nervos gastos. Rio sozinha. É um momento misterioso. Descubro cada parte de mim como quem descobre uma estrela no céu e fica extasiada com seu movimento e seu brilho. Locomovo-me lentamente e me estico na cama. No céu avisto horizontal, eu mesma, e comovo-me. Sou uma partícula a flutuar neste planeta. Uma parte que vai ganhando forma e se alongando pelos quatro pontos cardeais. Adormeço acordada, enrolada em devaneios. Dei a mão pra mão e mergulhei numa nebulosa. Pisei suavemente nesta verdade e nem barulho de gente acordou-me a alma. Sinto agora crescer em mim impulsos naturais que estavam policiados. Até o espaço do meu quarto parece enorme. Observo atentamente as manchas das paredes. Formam figuras que surgem e outras que fogem. Danço com elas. Vou aos poucos passando. Ultrapasso. Ultrapassamos. Livre dos excessos, mato a pessoa que me escreve. Morro e nasço. Recordo tudo com muita atenção. Ganho autonomia. Sou Heloísa, me amo. Amo ser e estar aqui, neste quarto no meio de dezembro, numa noite de calor. Agora só me interessa continuar passando... No fundo, toda mudança é um estágio maravilhoso do espelho. Por mais difusas que ainda estejam as imagens, confio-me a mim. Parece até que saí de uma sala de operações. Assim como se fosse uma operação plástica de cabeça. Sem as sequelas bombardeando ou coçando. É a veia que pulsa ritmicamente e sorri pro sol. A vontade de me unir foi tão intensa, feito uma sarna, que se coça, se coça, até sangrar. E tenho sangue em abundância. Viva a operação. Se estou fraca? Não apenas estou..ai..ai.ai. É de fato real saber-se inteiro. Não é fatal, nem haverá nada, senão cores e modos. Ando livre pela casa, porém adquiri cor e forma. Ser inteira, sem ter naufragado depois de tanto perigo. As pessoas têm seu mérito, as pessoas têm seu mestre, as pessoas têm preguiça de esticar suas possibilidades, sejam estas as mais fáceis. Acredito. O que você vê, registra, o que você é, apenas flui luz e cor. O que quero mesmo é ter a cada dia, mais certeza do que posso e aliviada dar-me em termos iguais e harmônicos. A cabeça mais leve, o corpo mais sadio, a cabeça mais consciente da desimportância do que lhe cerca. As flores ficaram felizes e disseram sim. modigliani.jpg

Já na praia, mergulho e sinto o gosto da água salgada. Foi quase um ano de mulher metade. Vou nadando profundo e a água fica mais gelada..é um tesão. Acho que já não dá mais pé. É uma delícia. Nunca mais me dei. Que ideia! Cuidado Heloisa..Não vai muito no fundo. O mar é perigoso, minha filha. Mas, eu adoro vó. Deixa..menina, volta aqui, olha a onda.hahahah vovó, rola, rola como a onda, vê? Hahahahah ihh vovó me acompanha com os olhos e gesticula muito. Suas coxas grossas são lisas e seus pés afundam na areia fofa, agarro-me numa de suas pernas e ela se agita. Quero boiar. Vó, me ensina? Cuidado Heloisa, o mar não tem cabelo. Não sei o que é perigo, apenas diferencio as cores das ondas das vozes que nos cercam. Quero ir lá no fundo. Querida, você é muito pequena- um dia você vai. Tem todo o tempo de sua vida, todo o tempo...cuidado. Um dia me perdi na praia. Foi estranho. Não chorei, nem entrei em pânico. Fiquei disfarçando para que ninguém notasse que eu estava perdida. Nunca gostei de parecer desorientada. Aquelas pessoas me olhavam muito e eu pra elas desenhava um arco íris. Brinquei com outras meninas até vovó vir feito louca ao meu encontro. Aí percebi o que era susto e querer bem. Vovó me abraçou com os olhos cheios d’água. Estava realmente aflita. Quase não falou. Bastaram seus grandes olhos castanhos me fitando. Compreend20150426_075202.jpgemo-nos.


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