imagens e palavras

REFLEXÕES SOBRE LITERATURA E CINEMA

Fernanda Villas Boas

O ANONIMATO DA SOLIDÃO

Em meio a buzinas, a correria pelo salário do medo paralisa o indivíduo que aos poucos se robotiza, adoece e já não sabe ser. Perde-se a visão da humanidade em troca de moedas mal pagas até a solidão chegar sorrateiramente pedindo o troco.


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No meio das avenidas, nos transportes públicos e não públicos, pessoas se movimentam desorientadas e anônimas. Este é o quadro que se digere no cotidiano globalizado das metrópoles. A questão filosófica não ficou resolvida. Quem somos e para onde vamos com tanta pressa? Quem governa estes corpos que saltitam de pontos, os mais diversos, algumas vezes quase desaparecem em meio aos carros, ônibus, bicicletas e motos. Será o preço de nossa ganância, uma solidão latente que abate, estressa e pode por vezes matar. Há razões e respostas. Mas, ainda não vi mudanças para suavizar a questão do espaço urbano e o indivíduo. Tornamo-nos máquinas que ligam o automático e está tudo bem. Engolimos a pulso fumaça e poluição até cairmos doentes porque fomos ávidos atrás de um salário de fome.

Há quem não se queixe porque é mais casca grossa, do tipo aguento tudo-até-vencer. Vencer o que? O cargo promocional cobiçado pela turma da empresa? A conquista de uma casa própria, carro do ano, família comercial de margarina. E assim, a massa se tornou homogêneamente guiada pelos comandos do capitalismo. Todos querem tudo a todo o momento. Seja a aparência, a escolha do lazer, o sexo feito mal e às pressas, o desalinho do coração cansado.

011.jpg Mesmo quando se sabe que aquela happy hour não consta do meu eu profundo, não se perde uma sexta feira sem ir beber com os colegas. E a farra sai caro. Seria a recompensa por uma semana de trabalho árduo. Anestesia-se a consciência para que nada possa doer. A lei do condicionamento behaviorista está levando as multidões das grandes cidades a um caos afetivo nunca vivido anteriormente na humanidade. E ainda há quem aplauda e se sinta compulsivo em ter mais compromissos, em embriagar-se de tolices aos fins de semana, porque afinal trabalham para ostentar. Trabalham para os outros. Os poderosos e invisíveis donos do poder. E de repente, sem se dar conta, o preço desta automação se chama solidão. é quando o indivíduo não consegue mais parar. Não consegue mais ficar consigo mesmo, poruqe sua alma há muito se afstou do corpo e ele já não sabe quem é, para onde vai e principalmente onde está? Hamlet fez a universal afirmação.: " Ser ou não ser. Eis a questão." E a humanidade sem conhecimento de si, escolhe não ser. Enxugando gelo na sua busca insaciável por uma espécie de suicidio coletivo onde a roda gigante não pára. E a solidão grita por dentro o que já não sabe mais expressar.

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