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REFLEXÕES SOBRE LITERATURA E CINEMA

Fernanda Villas Boas

BAR ESPERANÇA

Bar Esperança (também conhecido como Bar Esperança, o Último que Fecha) é uma comédia brasileira, dirigida por Hugo Carvana, com roteiro de Hugo Carvana, Denise Bandeira, Marta Alencar, Armando Costa e Euclydes Marinho. Participação de Marília Pera.


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Tradicional ponto de encontro da boemia carioca, o Bar de Dona Esperança tem entre seus frequentadores jornalistas, escritores, atores e artistas em geral, os quais todas as noites vêm se reunir em suas mesas. Entre eles estão Zeca ( Hugo Carvana) e Ana (Marilia Pêra), casal em crise desde que ele abandonou o emprego de roteirista na emissora de TV onde ela trabalha como atriz, cansado da rotina e atravessando uma crise de criatividade. Circulam ainda, pelo local, as figuras mais excêntricas e divertidas, como o camelô que vende de tudo, o bêbado chato e Curly, o marido que vai beber escondido da esposa, Cotinha, e que, descoberto, amarga o vexame de vê-la fazer um 'strip-tease' público.

Revoltada com o que vê como irresponsabilidade de Zeca, Ana o expulsa de casa, ficando sozinha com os dois filhos enquanto ele, após fracassar na tentativa de reatar o casamento de treze anos, termina aceitando o convite de Nina, produtora que quer montar uma peça teatral numa aldeia indígena.

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A história se passa no bar que dá título ao filme. Esperança é o nome da dona, mas é também uma espécie de insígnia existencial das pessoas que o frequentam: artistas bem-sucedidos, vendedores de badulaques, jornalistas empacados, atores pseudo-visionários ou garanhões oportunistas, todos comungam diariamente no Esperança como espécie de última casa do princípio de prazer, num mundo cada vez mais dominado pelas relações mercantis e pela banalização da arte.

O que, não por acaso, acontecia na realidade brasileira no início dos anos 80 do século passado. A arte estava se vulgarizando, os intelectuais estavam deprimidos com a ditadura e muitas pessoas tinham escolhido o desbunde. A cenografia do local exprime tudo isso dentro de um bar apertado, com pessoas conhecidas em alguma medida. Um lugar ao mesmo tempo aconchegante para ser considerado a segunda casa dos frequentadores, ornamentado com as composições vitrais coloridas dos bares "de antigamente", mas adequando-as às luzes de néon, espécie de marca estética dos anos 80 (Coppola, Beineix) e hoje símbolo de afetação decadente.

Zeca (Hugo Carvana) é um roteirista de televisão que, por falta de orientação de seu patrão – que só sabe dizer "está uma merda, está uma merda" –, acaba dedicando a maior parte de sua vida a reescrever histórias pelas quais ele não tem interesse existencial nenhum. Ana (Marília Pêra), esposa de Zeca, é uma importante estrela de telenovela. Mas, apesar de interpretar uma personagem que despertou o ódio público, ela ainda não é uma estrela de primeira grandeza na dramaturgia brasileira. A vida nos bastidores da televisão é vista como um verdadeiro inferno. A roteirista que elogia Zeca para depois criticá-lo na frente de um superior –, e as condições de trabalho são incrivelmente precárias – a ponto dos atores comerem comida de cena porque as filmagens não respeitam o horário de almoço. Zeca se demite, Ana precisa continuar porque alguém há de alimentar os filhos e sustentar a casa. Outros personagens surgem para matizar a questão compromisso/liberdade: Nina (Louise Cardoso), uma atriz porra louca que quer montar uma peça com os índios na selva, ou Ivan Guerra (Nélson Dantas), jornalista melhor amigo de Zeca que tenta jogá-lo de volta no mundo da responsabilidade. Passarinho (Antônio Pedro), por sua vez, só bebe uísque (supõe-se que ele consiga um bom dinheiro para comprá-lo aos borbotões diariamente) e tece comentários mordazes acerca de tudo que acontece no bar. Por fim, a vida íntima. Depois da vida pública, o ambiente interno. Ana e Zeca têm dois filhos e um apartamento. Mas a situação é insustentável. A demissão de Zeca da televisão é a última gota para a explosão de Ana, que mesmo amando o marido chuta-o para fora de casa, dando fim ao casamento.

O movimento no Bar irá crescer com a notícia de que Dona Esperança pretende vendê-lo a uma empresa que vai construir um Shopping Center, e Ana - agora relacionando-se com o conquistador Arnaldo, recebe assustada a notícia de um incêndio na aldeia indígena, local onde Zeca havia ido trabalhar na peça com Nina. O término da relação dá o tom emocional do filme, o sentimento de alguma coisa muito intensa que se quebra por contingências externas, no caso, o mundo do trabalho, a arte não-gratificante e a busca de sentido para fazer da vida algo estimulante.

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Bar Esperança é um filme sobre a dificuldade de viver juntos. Ao casal Ana-Zeca, há o contraponto: Cabelinho-Cotinha (Paulo César Pereio-Sylvia Bandeira), um casal pronto para dar errado que, ao final, consegue se unir. A palavra final, porém, não é dada pela reintegração do casal, mas pela onipresente música de Caetano Veloso, "Meu Bem, Meu Mal" : "Onde o que eu sou se afoga/Meu fumo e minha ioga/Você é minha droga/Paixão e carnaval/Meu zen, meu bem, meu mal". O amor é tudo que excita e desaponta, na mesma intensidade.

Bar Esperança é um filme sobre o amor e a vida, e como qualquer relação a dois. Bar Esperança: o último que fecha, como a esperança é a última que morre traz todo canto à beleza e às contingências da vida com a força do amor,


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