imagens e palavras

REFLEXÕES SOBRE LITERATURA E CINEMA

Fernanda Villas Boas

O MEDO: A INSEGURANÇA DO FUTURO

Aurora pensa, ainda, como foi parar naquele hospital. Mas, conseguiu sobreviver a tantas perdas e gritos de sufoco. Aprendeu na marra. E passou a ver na morte, uma passagem. Difícil no começo, mas aos poucos foi se comunicando, a seu modo, com todos os mortos de sua juventude.


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A miséria num todo é mais que a morte lenta dos sentidos. Começa o último ciclo e deitada nessa cama Aurora delira. Deixou cedo a vidinha certinha que tantos cultivam. Ainda sem conhecer os ruídos do mundo se indispôs da segunda gravidez e nunca mais pegou filho. Ficara somente com o primogênito, o gerado primeiro, criado às custas do seu suor. Não é à toa que se chama Gabriel. É isso mesmo. Nome de anjo. E, de anjo, Gabriel não tem nada. Ela está vivendo nesse hospital porque seu salário não dá pro aluguel.

Haveriam outras enfermarias a conhecer, mas restava trabalho e Aurora aprendeu a ler pensamentos de seres indigentes e razoavelmente mortos ao chegarem. São apanhados pelo ônibus do Estado quando superlotam as ruas. Eles não te dão nenhuma certeza do amanhã. Por isso só têm um brilho novo de quem a qualquer momento desencarna. São quase a luz e se não fosse essa segunda década do século XXI, eles não veriam o nascimento do menino Jesus cibernético. Agora, eles têm um deus tecnológico; Yesu. Não sei se Gabriel ama sua mãe. Ela vive aqui, neste hospital há trinta anos. Tem direito a um quarto do lado da lavanderia. A gente se acostuma a tudo. É o que dizem. Mas, sentir a toda hora o coração mexer diferente é pra poucos. E ninguém vai acreditar se Aurora não descrever, mas sua memória também despencou de qualidade. Então, escreve trechos de recuerdos. Parece karma, parece uma involuntária reclusão do mundo lá fora. Os enfermos são seres provisórios. Poucos saem daqui em condições humanas. A maioria não se recupera. Morre hoje de doenças contagiosas, torácicas e cardíacas. Penso como conseguem sobreviver por tanto tempo. Chegam sem roupas e vestem camisolas cor de rosa. Seus pés secos e cheios de calos denunciam as ruas onde habitaram. Falta vida na enfermaria. Em cada cama, um travesseiro ralo, onde se recostam até a morte. A resistência sutil de quem não sonha, nem imagina. Apenas sobrevive.

Bem-aventurados aqueles que amam. Na enfermaria são trinta leitos e toda a dor da humanidade num só quadro. Ali estão as almas despencadas, olhos curvados e frios. Sem chance de amor. São estas pessoas que desprotegidas pela vida, guardam em si uma réstia de lembrança. São sobras de gente que não fariam falta dentro de um outro regime político. Muitas já estariam exterminadas. Num corpo debilitado pelo esforço em viver o que já não é quase mais vivido. Em um mundo que privilegia a riqueza, Aurora viveu aqui nesta enfermaria, cuidando das feridas, limpando corredores, dando carinho a quem pedia, contando histórias de mentirinha para que tantos sobrevivessem. Eles costumam gostar do sol. Por isso abre bem as janelas de manhã para que aquelas almas possam pegar um ar. Ou o ar pegá-las. Pneuma. Está tudo muito cinza porque é inverno. Aurora cobre cada um com cobertores que espetam, mas esquentam. No pensamento de Aurora as imagens fluem sem cessar. Ela pensa como suas escolhas lhe trouxeram a uma imersão no silêncio. Quando aprendeu que era essa a viagem, parou de discutir com deus. Mesmo quando ficava resfriada, não tinha medo do escuro, nem do frio. Ela passou a caminhar nas trilhas de sua fantasia e essas imagens lhe faziam feliz. Sozinha no seu quarto tinha espaço para seu notebook. E passou a dedicar-se a pesquisas sobre pessoas desabrigadas, lugares de recuperação e tratamento para esses desesperados. Sua intuição era colorida de percepções, como a lhe avisar que não teria tédio nesta vida.

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Entre as imagens que surgiam, a principal era a imagem de deus. Era uma forma violeta. Esta imagem acalmava Aurora toda a vez que a vida se tornava mais árida. Fazia um mergulho, dentro de si mesma, sem medo das pedras. Nem das profundezas. Não há presente maior que a imagem de deus. Já não sabia viver sem seus devaneios. Eram recados poéticos que a natureza lhe dava de presente. Já não temia o fim. Passou a acreditar na continuidade do espírito. A convicção de Aurora era seu alento. Porque na vida, não há remédio. Ou vive ou morre. Viver não tem remédio. A vida não pergunta. Ela te devora. É aceitar. Sentir o vento de manhã numa dessas manhãs de junho é uma manifestação de vida muito profunda porque é vaga e rápida. Seu movimento é denso e vital. Cósmico. A gente está sempre passando. É uma busca incessante de completude, de si mesmo. Deixar a vida fluir enquanto a gente pensa determinar tudo. De fato está sempre sendo místico o ato de existir. Até porque no meio de desespero e impaciência, a gente instintivamente quer viver melhor. Esta parte tinha que evoluir. O desapego também. Aí há paz. Aurora aprendeu a se ocupar com coisas invisíveis aos outros. Seu mundo tinha uma aura clara e quando ela sorria a aura era toda Aurora.

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