imagens e palavras

REFLEXÕES SOBRE LITERATURA E CINEMA

Fernanda Villas Boas

UMA VIDA COM CHICO BUARQUE: ARTISTA BRASILEIRO

Um profundo mergulho no amor e suas considerações retratadas em "Chico Buarque - Artista Brasileiro, documentário dirigido por Miguel Farias Jr., que nos permite viajar para dentro da poesia vivida e escrita de Chico, em quatro gerações de sangue na veia e lama no sapato, com açúcar e com afeto, enquanto eu puder falar.


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Escrever sobre "Chico Buarque: Artista Brasileiro", filme dirigido por Miguel Farias Jr., é um desafio e um desejo. O filme é um documentário narrado na primeira pessoa do singular, o que já nos torna mais íntimos do artista, poeta, dramaturgo, romancista, músico, entre outras qualidades suas. Chico vai, aos poucos, nos dizendo de coração aberto e perto, como se estivesse em nossa casa sobre quem ele é, como sua vida foi sendo construída desde adolescente até seus 70 anos. Muitas fases, a escolha intuitiva e solitária de ser escritor mais adiante com seus romances premiados entre os quais “Budapeste”, “O Leite Derramado” e “ O Irmão Alemão”. O último, é relatado no filme com detalhes sobre este irmão morto aos 50 anos e filho de uma relação extra conjugal do pai.

Nessa viagem, entrei na sala de cinema cheia, com um público atento e ansioso. A narrativa é quase linear, uma vez que se trata de 50 anos de carreira a serem ditos, revelados imagisticamente dentro de planos diversos, em um só tempo: o tempo da criação artística, as primeiras emoções de "A Banda", quando o autor tinha apenas 20 anos. O filme atravessa a ditadura, fala de seu casamento com Marieta Severo e suas três filhas, e entre músicas cantadas por diferentes amigos, segue a narrativa de modo singelo, informal, que me levou a cada tempo dentro do tempo que também vivi. Nesta viagem, cabe somente amor, em sua forma bruta, líquida e desconcertantemente emotiva.

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Chico prossegue, com as primeiras letras, os amigos Vinicius de Moraes,Tom Jobim, Edu Lobo e as parcerias que lhe dariam o prazer de escrever as letras e/ou as músicas, bebendo da fonte do Criador que parece escolher entre nós, mortais, um homem especial. Chico tem uma sabedoria de menino e um sorriso de malandro. Chico é a mistura do feminino dito da forma mais direta e vivida nas formas de amar.

O discurso se confunde com uma dimensão ausente, o que significa que o poema tem a peculiaridade de resgatar a ausência, pois Chico Buarque, assim como os poetas, prevê concretamente os vazios do discurso, e a beleza esconde o entredito que não expressa. A análise interpretativa não se confunde com o vazio porque lida com o implícito, i.e. o já previsto. Já o vazio que o dito não pode conter vai sendo construído ao longo do eixo paradigmático de toda a obra buarquiana; o vazio se instala simultaneamente com a forma com que nasce o dizer com que ela se diz. O vazio é inevitável porque contém o terrível que, individual ou comunitariamente, não se permite dizer. Aí, se percebe que o vazio se situa no sonho, no mito e na literatura.

Palavra prima Uma palavra só, Que quer dizer Tudo Anterior ao entendimento, palavra Palavra viva Palavra com temperatura, palavra Que se produz Muda Feita de luz mais que de vento, palavra.

O artista acrescenta ou subtrai, sublinha efeitos, pensando com cuidado nos possíveis resultados guiado pelas leis da beleza de formas e estilo. Em cada trabalho, o autor utiliza seu mais agudo raciocínio e escolhe sua expressão com a mais completa liberdade. O artista Chico Buarque é um homem coletivo, que dá forma e traduz na linguagem as instituições primordiais, tornando acessíveis a todos as fontes profundas da vida. A essência do processo criativo parece-nos estranho porque vem de distintos planos da natureza. É uma experiência primordial que excede a compreensão, e frente à qual o ser humano se vê petrificado. “São faxineiros/Balançam nas construções/São bilheteiras/ Baleiros e garçons/Já nem se lembram/Que existe um Brejo da Cruz/Que eram crianças e que comiam luz.

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A fotografia, tirada nos “anos dourados”, passado, desencadeia, o surgimento da anima que surge como a companheira-esposa, cerca de trinta anos depois, no presente, lembranças que se alternam românticas, com a valorização do amor enquanto sentimento que se renova pela fotografia antes guardada na lembrança, torna viva a ação do tempo e a comparação entre presente e passado: Meus olhos molhados/ insanos dezembros/mas quando eu me lembro/ São anos dourados.

O herói buarquiano é um herói particularmente censurado, e vamos encontrar várias instâncias no todo da obra onde ele reclama baixinho, fala por metáforas, zomba, ironiza, briga, queima navios, mas não queima a esperança nem o valor do que acredita. Pedro se constrói e des-contrói através da evolução dos poemas. Ao denunciar a fome, tortura, dor, injustiça, separações, exílio, censura, calar-se, o herói está questionando ao mesmo tempo qual é o caminho a seguir, o que é que lhe anima e lhe faz crer, quem ele deve afastar de si para que invente seu próprio trajeto, seja dono de sua ideia, morra do seu próprio pecado, enfim dê forma e vida ao sujeito eu e à sua história que só a ele pertence e só poderá merecer-se se deixar fluir seu inconsciente. O Pai do herói deixou-o sozinho. Esta terra não tem pai e quando tem está constelado na figura do Mal que assusta, afugenta e mata. É uma desordem repressora porque é arbitrária, não dá espaço para o ser crescer em liberdade, amor e, como expresso em várias letras, há o desconhecimento deste amor.

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O percurso do herói dentro do discurso buarquiano pode ser compreendido em três momentos que se entrelaçam: a nostalgia de um universo antigo, lírico e provinciano, a violência do cotidiano da metrópole e a grande esperança de um futuro com justiça e amor.

Outras características da resistência do herói estão simbolizadas quando o autor canta o amor e o carnaval para através do discurso amoroso e do deslocamento de sentidos falar do silêncio como resistência. Vai passar/nesta avenida/ um samba popular/ cada paralelepípedo/ Da velha cidade/ Essa noite vai/ se arrepiar/ Ao lembrar/ que aqui passaram sambas imortais/ Que aqui sangraram pelos nossos pés/ Que sambaram os nossos ancestrais. Chico Buarque alcança na sua poesia um ponto quase místico no que concerne a sua preocupação com o que há de mais humano em nós. É como se ele misteriosamente alcançasse o espírito que se manifesta em diferentes seres com diferentes manifestações, porém sempre com este sopro azul celestial. Chico penetra neste azul, i.e. nesta imensidão desconhecida pelos meros mortais, porque suas mãos se encarregam de transportar-nos para outra esfera, a esfera do sonho, do ato heróico e preciso de nossa intensa viagem interior.

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