imagens e palavras

REFLEXÕES SOBRE LITERATURA E CINEMA

Fernanda Villas Boas

A FELICIDADE NÃO SE COMPRA

Clarence Odbody é um anjo de segunda classe que, mesmo esperando 220 anos, ainda não conseguiu ganhar suas asas. Para ser promovido, ele tem uma missão: salvar George Bailey, que pretende atentar contra sua vida em plena noite de Natal. Essa é a trama do excelente filme de Frank Capra, “A felicidade não se compra”, de 1946.


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It’s a Wonderful Life (A Felicidade não se Compra), de Franz Capra, é um marco na minha história de cinema e de gente que repete, com James Stewart, que “era melhor não ter nascido”. Eu nunca deixei de chorar no final, um dos mais comoventes finais de todos os tempos. Neste filme, com que se encerra o Ciclo do great old Capra, James Stewart vence, também, mas precisa de uma ajuda de que até aí jamais precisara: a do anjo de 293 anos chamado Clarence Goodbody que, de resto, desceu à terra não apenas para o ajudar, mas para ganhar as asas que em todo esse tempo ainda não tinha conseguido ganhar.

Henry Travers é um homem que na noite de Natal vai tentar o suicídio por um dívida que não pode pagar. No bar, desesperado e pronto para morrer, conhece o anjo Clarence que o leva para uma viagem inusitada dentro de si mesmo.

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A personagem é prodigiosa, Henry Travers também. Mas, essa “descida à terra” não nos deve fazer esquecer que todo o filme é visto do ponto de vista do céu. À princípio, estamos na terra (“You are now in Bedford Falls”) na mesma noite de Natal do fim, com a neve a cair e os sons do Natal. Ouvimos em off orações e a câmera vai até às estrelas, onde Clarence trata Deus por “Sir”. Deus tem uma voz de patrão, firme e dura, manda-o sentar e dá-lhe uma hora para ele se vestir. E quando ele está “sentado” (a câmera sempre nas estrelas, sem personagens) convida-o para um “bom filme”: a vida de George Barnes desde o dia, aos sete anos, em que salvou o irmão mais velho de morrer afogado, até à noite de Natal que é tempo de todo o filme. Ao princípio, não se vê nada (quem não tem asas, não vê dos outros planetas) até que a imagem foca e “começa o filme”. E quando passamos da infância à idade adulta, de Bobby Anderson a James Stewart, Deus diz a Clarence “Take a good look on him” e o plano imobiliza-se em paralítico com James Stewart de braços todos abertos, no arquétipo da imagem capriana, que também no cinema nunca mais voltou a ter (depois é o James Stewart de Mann, de Hitchcock, de Ford, tão genial como sempre, mas bem diferente como personagem)

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A noite da inexistência de Stewart é esse negativo. Os mesmos geniais secundários, fraternais e solidários, “mudam de filme” e quem vence são outros arquétipos deles, patentes nos casos de Beulah Bondi, Ward Bond, de Frank Foylen. Aparentemente, esses eram os que não tinham razão para mudar. Se percebemos que o farmacêutico tivesse ido parar 20 anos à cadeia, não fosse George...se percebemos que o irmão tivesse morrido, não fosse George, se percebemos (já mais forçadamente) que Donna Reed tivesse ficado solteirona e de óculos, não fosse George, por que mudaram tanto todos os outros, por que são todos tão agrestes e rudes? E por que é que o único personagem que George não re-visita é Lionel Barrymore, o único que não podia ter mudado? Pode um homem só transformar tanto a vida de todos? Capra diz-nos que sim, mas diz-nos que sim, não no real, mas no “filme mostrado” por Deus a Clarence e, depois, na noite que resultou do “truque” do Anjo.

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