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REFLEXÕES SOBRE LITERATURA E CINEMA

Fernanda Villas Boas

A MÁGICA DO AMOR ROMÂNTICO

Em "O Presente dos Reis Magos", de Henry King, Jeanne Crain e Farley Granger formam um casal apaixonado que ao chegar o natal desejam presentear o amado. Só que eles esbarram na questão financeira que é superada pelo amor.


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The Gift of the Magi (O Presente dos Reis Magos) foi dirigido por Henry King, com roteiro de Walter Bullock. É estrelado por Jeanne Crain e Farley Granger. Recolhido em livro em 1906, é um dos contos mais populares da língua inglesa: não há quem não se emocione com a história desse jovem casal apaixonado, que entrelaça amor e pobreza, destino e acaso na Nova York do começo do século XX. E as belas ilustrações de Odilon Moraes transportam sutilmente o leitor para dentro do apartamento de Della e Jim, palco de quase todos os acontecimentos e coração dessa história de Natal.

Trecho: "Um dólar e oitenta e sete centavos. Era tudo. Sendo que sessenta centavos eram em moedinhas de um. Moedas poupadas, uma ou duas de cada vez, pechinchadas com o homem do armazém, com o verdureiro e com o açougueiro, a ponto de deixá-la ruborizada diante da acusação de avareza sempre implícita nesse tipo de negociação. Della contou as moedas três vezes. Um dólar e oitenta e sete centavos. E o dia seguinte seria Natal. Quem nunca esteve tão sem dinheiro que nunca se afligiu com a hipótese de não poder dar um presente à pessoa amada? Só quem nunca amou. Mas quem já passou por essa situação sabe como é torturante ver que todos estão felizes e você só quer demonstrar com um bem material o quanto aquela pessoa é importante. Não se trata de um suborno sentimental. É aquele esforço para comprar o presente perfeito, ver a pessoa presenteada com brilho nos olhos.

Todos sabemos que o que se passa no coração e mente do ser humano é muito maior do que um mero presente de Natal. Mas saber das preferências de quem amamos e demonstrar isso fisicamente é uma arte. E não ter dinheiro pra isso é deveras frustrante. O texto de O. Henry brinca justamente com essa tradição natalina de presentear. Sabemos - mas quase nunca lembramos de fato - que, conta-se, quem iniciou este costume foram os Três Reis Magos (daí, o título da obra). E passamos a repetir o gesto não mais em memória deste ato mas sim como uma obrigação de fim de ano - ainda que não o façamos neste intuito.

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Della tem pouco dinheiro para comprar um presente a seu esposo. Eles são jovens e moram de aluguel. Terão um jantar humilde mas ela queria lhe fazer uma surpresa. Mal sabia ela que seu marido também pensava igual. E isso torna o texto tão rico pois vemos, à princípio, apenas o ponto de vista da situação dela. Quando Jim aparece na trama, tudo muda. É o ponto de virada.

Este é um daqueles filmes que não são bem compreendidos fora da época mencionada na história. Ou seja, é perfeito pra se ver no Natal. Faz completo sentido estar envolto na aura natalina - assim como em "Missa do Galo", de Machado de Assis - ao ler esta obra. Principalmente hoje em dia em que o verdadeiro amor é subvalorizado e a troca de presentes tornou-se um estranho hábito que perdeu seu significado inicial. Nós nos bastamos e é isso que verdadeiramente importa em qualquer ocasião. O. Henry's Full House (br/pt: Páginas da Vida) é um antológico filme americano de 1952, do gênero drama, composto por cinco diferentes contos de O. Henry. Lançado pela 20th Century Fox, o filme foi produzido por André Hakim e dirigido por cinco diretores distintos. A trilha sonora foi composta por Alfred Newman, e o filme é narrado pelo autor John Steinbeck, que faz uma rara aparição em câmera para introduzir cada história. O casal é muito pobre e para que possam presentear o outro no Natal tomam atitudes drásticas. Ela, por ter lindos cabelos longos, manda cortá-lo e vende para com o dinheiro comprar uma corrente de ouro para o relógio do marido. Este, não hesita em vender o relógio para dar à amada presilhas para seus cabelos. O.-Henrys-Full-House-1952-Jeanne-Crain-Farley-Granger-pic-11.jpg O filme, retrata de maneira amável e surpreendente a essência da virtude da generosidade, que dá do que tem de mais custoso. Entrelaçam-se aqui os temas universais e permanentes do amor e do sacrifício. A nossa época, ao fugir do segundo à procura de uma felicidade falsificada, esqueceu já em ampla medida o primeiro, e com isso fechou para si mesma a porta que dá para a felicidade verdadeira.


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