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REFLEXÕES SOBRE LITERATURA E CINEMA

Fernanda Villas Boas

O APANHADOR EM CAMPO DE CENTEIO: RUPTURA E SONHO

O Apanhador em Campo de Centeio (The Catcher in the Rye), 1951, é uma obra prima de J.D. Salinger, autor norte-americano que quebra com a linguagem tradicional e dá suporte a toda uma nova geração de escritores com seus questionamentos sociais e psicológicos.


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J.D. Salinger nasceu em Manhattan, Nova Iorque, em 1º de janeiro de 1919, filho de pai judeu de origem polaca e mãe de origem escocesa e irlandesa. Começou escrevendo ainda na escola secundária, e publicou vários contos no início da década de 1940, antes de servir na II Guerra Mundial. Em 1948, ele escreve o seu primeiro conto aclamado pela crítica, A Perfect Day for Bananafish (Um dia perfeito para Peixe-banana, em português), publicado na revista The New Yorker, que seria o local de onde sairiam mais outros contos seus nos anos seguintes. Em 1951, publica seu primeiro romance, The Catcher in the Rye (O Apanhador no Campo de Centeio).

No sentido literário, este livro quebra com forma e conteúdo. É o primeiro livro de um autor norte-americano que critica os valores da classe burguesa e suas consequentes relações mal resolvidas. Todo o romance ocorre com um pano de fundo em que impera o que é trivial, o banal, o fútil. Toda essa atmosfera, que aparenta ser insignificante ou infrutífera, é banhada pelo ponto de vista da personagem central, Holden, pela maneira como ele vê as pessoas, suas formas de vida, seus comportamentos, o modo como elas lidam com o que possuem, as palavras que usam, suas reações diante de situações corriqueiras e convencionais.

The Catcher in the Rye foi publicado em 1951 e rapidamente tornou-se um bestseller. Seu autor, J. D. Salinger, morreu em 2010, e nos cinquenta e poucos anos que se seguiram escreveu muito pouco. Apenas quatro livros, todos com contos ou novelas tendo quase sempre como personagem uma mesma família, a Glass, publicados entre 1953 e 1963. Até sua morte, silêncio.

O livro O Apanhador no Campo de Centeio não somente é quase uma autobiografia de Salinger, mas é, também, o livro único no gênero e forma já escrito em pleno século XX, o qual se destaca na forma mais ousada do modernismo compondo o fluxo do inconsciente através das memórias e vivências da personagem. A linguagem também foge ao formalismo, propondo-se falar como um adolescente fala: com gírias e palavrões de sua geração. Isto torna o livro ainda mais verossímil. A narrativa é moderna, no sentido de suas dobras e descontinuidade.

O protagonista Holden Caufield é o narrador na primeira pessoa, e se permite ousar a escrever com emoção o que pensa sobre a sociedade burguesa americana, representada pelo colégio que frequenta, os amigos falsos que odeia, o professor que lhe reprovou e na vida monótona e isolada que vive nesta high school. Os valores da sociedade americana são retratados com um olhar rebelde, ansioso e zangado de um rapaz que vê além de pequenos rituais adolescentes.

Este é um livro que se passa através da janela da alma de Holden, após sua crise de nervos e uma internação em hospital. Ele não diz onde está, assim como ele nos coloca dentro de seus pensamentos mais nobres e solitários que, inconscientemente, aparecem e formam o fio condutor da história.

Holden é solitário e crítico aos seus colegas, aos quais julga serem falsos. Não joga futebol, gosta de mulheres e tenta buscá-las de encontros furtivos, e até ousa pagar para que uma delas apenas o escute. Não tem amigos, com exeção de dois colegas do internato com os quais dialoga e, invarivelmente, briga até ser expulso da escola.

A sua vida é contada através de memórias, como a morte de seu irmão Allie quando ele quebrou as janelas com as mãos. Holden questiona profundamente o seu relacionamento com a vida. Quando sofre, Allie, ainda que morto, é a quem ele recorre para não desaparecer na próxima esquina, nos seus suspiros de pânico e de dor.

Existe, ainda, a presença de um passado pequeno burguês, uma classe que Holden rejeita com todas as suas forças pela falsidade e hipocrisia que a caracteriza. Ele cospe em cima desta classe, por considerá-la vazia, com suas frases e comportamentos habituais. Suas críticas acirradas nos faz pensar à Pencey high school como uma metáfora da sociedade endinheirada norte-americana, onde o poder, aparência e lucros materiais sustentam pessoas servis como a prostituta que ele não deseja transar, mas paga para que possa ouvi-lo em sua depressão.

A esperança de Holden reside na pureza e inocência de sua irmã Phoebe, que o traz à vida, a emoção de amar e sentir na alma a alegria juvenil de uma menina rodando no carrossel e lembrando-lhe o que ainda há de precioso para viver, na ilusão de um carrossel com cavalos marrons de madeira. Phoebe é a ponte para Holden voltar a acreditar em si e na humanidade.


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