imagens e palavras

REFLEXÕES SOBRE LITERATURA E CINEMA

Fernanda Villas Boas

O QUE É VIRAL: A FLUIDEZ DA INDIVIDUALIDADE

Na era viral a fluidez da individualidade não comporta qualquer questionamento da própria existência, no que se refere às diversas formas de vulnerabilidades humanas, como o envelhecimento, a morte, a angústia se vêm apaziguadas, diante do exercício diário do consumo.


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A fluidez da individualidade diz respeito a uma síndrome psicológica da sociedade capitalista, que leva o sujeito a perder o contato com a natureza e com a ordem universal. Como diz Caetano Veloso ‘ há alguma coisa errada na ordem mundial’. O homem contemporâneo deixou de se reconhecer como um molde do cosmos. Todos pensam em termos de contrato e se conformam a critérios utilitários que estimulam esta fluidez da individualidade. Em nossa sociedade contemporânea tanto o bem como o mal são convenções e a imparcialidade substitui a verdade. Para vivermos dentro de nossa integridade, seria preciso praticar outras ações e pensar de uma maneira singular. O capitalismo prega a transitoriedade das coisas para justificar a mudança pela mudança. Filosoficamente, este pensamento vem do século XVII que vê o universo como partículas em movimento. O perspectivismo diz respeito à compreensão por parte da pessoa de que a conduta é afetada por uma perspectiva. Existem leis da perspectiva enquanto objeto formal de investigação que afirmam uma categoria sistemática do trabalho artístico, assim como uma característica da conduta humana em geral. O formalismo quer dizer observar as regras para substituir a preocupação pelos padrões éticos substantivos fundamentando-se na aparência e dissociando-se do bem comum. Segundo Ramos, o sujeito do formalismo “ não é uma individualidade consistente, mas uma criatura fluida, pronta a desempenhar papéis convenientes.’ O operacionalismo diz respeito à posição de que apenas as normas inerentes ao método de uma ciência natural de características matemáticas valem para estudar-se o conhecimento. Deste modo, o operacionalismo dá valor àquilo que pode ser medido ou avaliado de modo empírico.

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O operacionalismo é uma característica da síndrome comportamentalista, permeado de uma orientação controladora do mundo e de uma falta de reconhecimento pelas causas finais para qualquer explicação do mundo físico e social. Autores como Hobbes, ainda exercem uma grande influência sobre a teoria das organizações e há uma visão do mundo como se este fosse uma cadeia de causas e efeitos quando sabemos que não é assim que a vida muda, ou seja, não é de um modo comportamentalista. Se assim fosse, não haveria a ideia, o sonho, a criatividade. Nem tampouco o ser humano se desenvolveria com toda sua capacidade de criar e principalmente de imaginar, o que o torna diferente das outras espécies.

Enquanto as organizações pregam a individualidade fugaz, a rígida perspectiva e o formalismo nas relações sociais, sem falar do modo operacional de realizar-se o mundo, o homem está perdendo sua capacidade interna de ser ele mesmo, crítico e emocional. Não estamos apenas criticando o comportamentalismo, como queremos esclarecer a necessidade de o ser humano ser clarividente, aberto, transparente em, suas atitudes e palavras. Quanto mais desobedecer às regras impostas pela sociedade capitalista, mais o homem voltará às suas origens sem medo de um auto-conhecimento.

Segundo Baudrillard ( 1981) o indivíduo é sensível à temática latente de proteção e de gratificação, ao cuidado que se tem de solicitá-lo e persuadi-lo, ao signo, ao ilegível à consciência, de alguma parte existir uma instância que remete diretamente à imagem materna que aceita informá-lo sobre seus próprios desejos, adverti-los e racionalizá-los a seus próprios olhos. Ele não acredita na propaganda mais do que a criança em Papai Noel. A inserção humana em um universo sintetizado pelas mercadorias e que consagra o consumo como ideal de vida e de civilização, é feita sem a previsão de que os sujeitos experienciem as próprias fragilidades. Todas as temáticas que se relacionam ao questionamento da própria existência, no que se refere as diversas formas de vulnerabilidades humanas, como o envelhecimento, a morte, a angústia se vêm apaziguadas, diante do exercício do consumo.

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Esta prática que também poderá ser entendida como negação ou sedação, difere da drogadição e do fanatismo religioso, por ser o consumo socialmente aceito e incentivado. No entanto, similarmente, embute em seu panorama de adesão, a proposta de felicidade e conseqüente salvação. Envolve em muitos casos a teatralização ou simulação espetacular da realidade.

Nesse aspecto, a sociedade das imagens, aparências, instantaneidades e seus apêndices criou um ambiente propício para a encenação da transposição das nossas limitações como também a extrapolação dos nossos alcances, chegando ao requinte das propostas de eternização. Poder-se-ia questionar se a impossibilidade de sermos sujeitos de todos os processos que envolvam a vivência de nossas fragilidades, desamparos e limites provocando uma exacerbação de condutas que, por negarem, intensificam perigosamente esses processos.

De todo o espectro de alcance, que essa nova ordem do consumo atinge e reformula, o corpo humano se oferece como um objeto rico a ser analisado. A especial atenção, que aqui lhe será destinada, justifica-se pela convergência ao corpo de todo um sistema de signos que vão lhe conferir o status de objeto de culto e de redenção. Na sociedade contemporânea o corpo, dentre outras formas de malabarismos, será duplicado em seus signos, como fonte de inspiração para Baudrillard tecer a sua crítica.

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Expressões dessa alienação, são apresentadas pela eliminação das diferenças entre os sujeitos. Em substituição há um elenco de singularidades surge uma forma diferencial hodierna de se personalizar, industrializável e comercializável como signo distintivo. É o que se convencionou chamar de “kits de perfis-padrões”, que se destinam ao consumo de acordo com a órbita de mercado, independentemente de especificidades culturais, geográficas ou funcionais A adoção de um desses modelos específicos e socialmente aceitos, pelos sujeitos, além da renúncia a toda a diferença real, viabiliza por decorrência, o apaziguamento das tensões e das contradições que uma relação concreta com o mundo e com os outros, possa acarretar. Importante salientar que semelhante investimento é vivenciado sob a mística de liberação e de realização e ao mesmo tempo, consagrado como investimento de tipo eficaz, concorrencial e econômico. ( Baudrillard, 1981)

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