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REFLEXÕES SOBRE LITERATURA E CINEMA

Fernanda Villas Boas

45 ANOS - COMO VIVEMOS AS PERDAS NA VELHICE

Kate Mercer (Charlotte Rampling) está planejando a festa de comemoração dos 45 anos de casada. Porém, cinco dias antes do evento, o marido recebe uma carta: o corpo de seu primeiro amor foi encontrado congelado no meio dos Alpes Suíços. A estrutura emocional dele é seriamente abalada e Kate já não sabe se vai ter o que comemorar nos seus 45 anos de casada.


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O filme 45 anos dirigido por Andrew Haigh nos fala sobre a velhice e o sentimento que não envelhece, mas pode morrer em nós. É o período mais mórbido da vida uma vez que nos aproximamos da morte e perdemos muito de nós mesmos ao longo do caminho, seja a juventude, sejam os sonhos. Como encarar a velhice de frente. Como amar na velhice? A história de Geoff e Kate casados há 45 anos mergulha fundo nas questões existenciais desta última fase da vida.O casal vive em harmonia numa casa de campo na Suécia perto de uma pequena cidade.O s dias são triviais, sem nenhuma surpresa, sem planos para o futuro, uma vez que a velhice já impôs limites. Geoff ( Tom Countermey) e Kate ( Charlotte Kampling) planejam fazer um festa comemorativa dos seus 45 anos de casamento. A vida do casal idoso é harmônica, sem muita novidade..

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Um amor sedimentado sem atritos, um cuidando do outro. As falas são bem econômicas uma vez que já se conhecem em detalhes. O mais evidente e importante na narrativa é a certeza de que são íntimos e reservados. O cotidiano é lento. De manhã à noite, cumprem suas tarefas, de comer, ler, ver televisão e/ou ir à cidade. Eles têm um cão, com quem passeiam pelo campo verdade e às vezes cinza claro, com uma névoa seca. Percebemos a vida através da janela. É como tudo se passasse pela lente do tempo. Um tempo lento com distanciamento e desinteresse por qualquer novidade. Eles assistem televisão e leem. Acordam e dormem na mesma hora. Suas falas são bem distintas e cabe a Geoff trazer vida às suas recordações mais remotas do seu inconsciente. Ele tem como garantia a escuta amorosa de Kate. São amigos. São um casal simbiótico que não conseguiria mais desfazer o elo de toda uma vida. O início nos mostra uma paisagem gris, como é a velhice.Campo verde e árvores, passarinhos de que Geoff gosta de comentar. Assim, como se o diretor nos preparasse para um vento forte, a porta simboliza bem a saída do casulo. Bate forte quando se entra. A uma semana da comemoração dos 45 anos, Geoff recebe uma carta em alemão, comunicando-lhe a descoberta do corpo de uma jovem, antiga namorada, morta há mais de 50 anos nos Alpes suíços. O que abalaria mais, um senhor de 78 anos do que sua memória afetiva do primeiro amor, Katia. Ele tem necessidade de narrar e traduzir seu sentimento para a atual mulher, Kate.( Kate (e Katia, não é por acaso). Ele passa a contar sobre sua namorada e Kate sente ciúmes, de destabiliza e fica buscando no sótão cartas e diários e fotografias da falecida.

O que a história conta é linear. Tudo acontece em uma semana até a festa com os amigos. O casal, contudo se desconhece porque enquanto ele viaja no passado e se perde no seu passado, juventude e amor, Kate se sente incomodada pela presença deste fantasma dentro de sua casa. As histórias dentro da história fazem do filme uma obra tensa, inquisitiva e perplexa diante das perdas da velhice. Tudo de repente, é descoberto por Kate que muda seu olhar sobre a festa, sobre seu marido querido e principalmente sobre si mesma. Seu olhar é parado, sua expressão quase imóvel retrata o sentimento de raiva e tristeza. Até que ela grita com Geoff: Eu não aguento mais a presença dessa Katia nas paredes desta casa. Eu estou sufocada de ouvir como foi nas montanhas, se você teria casado.” Chega. Não quero mais ouvir o nome dessa mulher. Depois da catarse, eles se encontram e desencontram várias vezes. Ele vai ver o preço da passagem para a Suiça. Ela, paranoica, segue-o e depois cobra porque ele está indo ver a ex namorada. Ironicamente, ele diz que não consegue nem caminhar nos arredores, imagine subir montanhas. Nesse clima o filme nos revela a profundidade de um casal depois de viverem 45 anos juntos. A briga, a insegurança e principalmente o mergulho dentro do Self, os faz conscientes de sua união. Eles se tornam conscientes de que já não transam mais, não podem dfançar com o vigor de antes, nem têm mais objetivos na vida. Os amigos também estão velhos, tudo envelheceu com Kate e Geoff, menos o sentimento profundo, indizícel que um sente pelo outro. Já indo para a festa, ela diz que ia comprar um relógio para ele, que responde” Foi melhor assim. Eu não gosto de ficar contando as horas.” Que é a mensagem final. Estamos aqui de passagem, sem garantias, inacabados até a hor da morte. O tempo é de cada um, de como ele atravessa nosso pensamento. Assim, de nada adianta controlar o tempo. Somos finitos e bailemos enquanto vivos e amantes, até o último suspiro.

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