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REFLEXÕES SOBRE LITERATURA E CINEMA

Fernanda Villas Boas

ROMANCE X: A IRA DA MULHER REJEITADA

Com direção de Catherine Breillat, (1999) Romance X narra a história de Marie, uma jovem mulher francesa, professora numa escola primária. Casada com Paul, passa a ter problemas com o marido pelo fato dele não ter mais interesse em ter relações sexuais com ela. Sentindo-se sexualmente rejeitada pelo marido, para satisfazer o vazio sexual e afetivo, Marie inicia uma busca insaciável de prazer, sem jamais encontrá-lo.


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A importância de analisar este filme – Romance X, direção de Breillat, Catherine, 1999 – se dá por ser um dos filmes que compõem a série pós-modernista do cinema. A escolha desta obra se justifica pelo fato de que Romance X é exemplo de um trabalho artístico cinematográfico que sugere um delirante e delicioso abismo muito estreito entre o pornô e a arte. Esta fina e tênue linha de separação entre esses dois aspectos interrogam o espectador durante toda a projeção do filme e além dela, uma vez apagadas as luzes da sessão de cinema.

Catherine Breillart nos conta a história de uma mulher apaixonada (Caroline) pelo seu amado companheiro(o homem com quem vive maritalmente), homem este, que apesar de jovem, bonito e fisicamente em plena forma, se recusa a lhe oferecer qualquer tipo de satisfação sexual e carnal. No primeiro movimento, Caroline venera e odeia o marido. O seu corpo está sempre ao lado do dele, mas ele não permite que ela o toque. O olhar da câmara se volta para a imobilidade e o silêncio agressivos do marido. No claro, amplo e asséptico quarto, ela pede, implora, xinga, se humilha por uma transa. Ele, vigorosamente, nega. Há uma frase dela: “ É melhor que você me foda, do que não fazer nada. Aí que me agride como mulher.”

Caroline passa a ter uma força reativa contra este desejo que considera um caos pela impossibilidade de conexões. A impossibilidade de ter uma relação sexual com seu marido a leva ao desespero e sem outra alternativa, ela sai uma noite, enquanto o marido dorme, e encontra o primeiro amante num bar. Não vai logo para o hotel porque seu ressentimento quanto ao marido ainda é muito grande. Necessita de espaço para des- territorializar-se. Seu olhar passa a ter um brilho diferente e ela vai arrastando-se aos poucos para fora do território anterior de espera, tédio e solidão. O ressentido não exige que o compreendam porque não duvida da justeza de suas queixas e atos. Conforme argumenta Kehl ( 2000: 216) o ressentimento consiste em produzir uma adesão, empatia e/ou identificação com o espectador. Ou seja, o ressentimento é uma consequência previsível da recusa do sujeito a implicar-se no próprio desejo.

“ Ressentir-se, ou, como a própria palavra indica, insistir repetidamente na atualização de um sentimento, é sempre ressentir-se contra o outro. Na origem deste sentimento, houve renúncia, a servidão voluntária: o sujeito cedeu ao outro, recalcou as representações do desejo- para depois passar a vida reclamando contra “ o que fizeram comigo”, aprisionado por uma necessidade de vingança contra os supostos agentes de sua infelicidade. ( Kehl, 2000: 216)

Caroline é uma personagem ressentida com o comportamento frio e distante do marido. Ela se apresenta como vítima do desamor, o que aliás, é verdadeiro. A personagem do marido é construída em cima do egocêntrico, inconsequente e de um homem nada generoso com a esposa. De suas falas se pode detectar o quanto ele gosta de si mesmo e até produz cenas de ciúme nos clubes noturnos para os quais o casal vai junto, dançando com outras mulheres, exibindo-se com muita vaidade. Nestas saídas, Caroline muitas vezes não suporta ficar sentada olhando para este exibicionismo perverso que muito alegra o marido. Ele se envaidece de ser ad-mirado pela mulher e tem prazer em não lhe dar nenhuma espécie de satisfação. Pelo contrário, ele subtrai. Ela vive a economia do prazer, como o modelo capitalista tem em relação ao capital investido em inúmeras atividades humanas.

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Esta cena se repete várias vezes ao longo do filme, como se fosse um ritual que ele necessitava ter para seduzir, irritar e ferir Caroline. Até mesmo quando ela, já no terceiro movimento do filme, está grávida e aparentemente indiferente, ou para melhor expressarmo-nos, não parece tão afetada pelas manobras emocionais do marido. Ao contrário, seu ressentimento vai num crescendo tão grande, que ela ao repudiar a relação de poder que se estabeleceu entre os dois, passa a arquitetar alguma vingança enquanto ele se exibe, conforme constatamos no final do filme.

Ora a protagonista é lenta, ora apressada, solitária e revoltada no seu silêncio e seus gestos estudados. Depois de alguns encontros com este homem, resolve dispensá-lo. Sente-se aliviada, não porque trepou com o desconhecido, mas porque se soltou da ideia do marido rejeitador. A cena da colocação de um preservativo no pênis ereto do amante, é estranhamente mediada entre o nosso olhar de espectador e o objeto de curiosidade do nosso olhar: o pênis ereto revestindo-se de um preservativo, um artifício sintético que se torna ainda mais medical, mais educativo do que qualquer indício de erotização. As cenas que se seguem fazem parte de um segundo movimento no filme. Caroline correndo atrasada para a escola onde ensina, sinaliza sua mudança. Há o encontro com o psiquiatra, diretor da escola que lhe chama à intimidade de um aposento onde ele a seduz e ela concorda. Caroline passa a submeter-se às fantasias sexuais deste homem mais velho que gosta de amarrá-la e usar vários artifícios para gozar. Caroline chora na primeira vez e simula gostar do que no inconsciente tem medo e desejo de experimentar.

Há uma verdade oculta. Ela própria tem consciência do seu desespero por ser desejada e a raiz deste desespero está no ressentimento que traz consigo por não receber o amor de seu marido.

“ O Desejo vem assim como algo flou, meio nebuloso, meio desorganizado, espécie de força bruta que precisaria estar passando pelas malhas do simbólico e da castração segundo a psicanálise, ou pelas malhas de algum tipo de organização de centralismo democrático-“ (Baudrillard, 1992: 215)

A vontade de Caroline é dispersa e desorganizada, assim como quando ela silencia em frente deste homem e lhe olha com jeito de quem deseja. E, quando ele pede que ela fale, ou leia, para manifestar seu inconsciente, ela deliberadamente, se controla. Não pronuncia uma palavra sequer. Ela não quer revelar-se a ele. Só quer trepar. Diz num instante do fluxo de pensamento que sublinha em “off” o filme todo. “ Não gosto da sentimentalidade, nem da ternura”. Ela passa a se alimentar deste pensamento esvaziado. Ao chegar em casa, sente vontade do marido, embora já não mais expresse este desejo para ele. No terceiro movimento do filme, Caroline chega em casa um pouco bêbada e o marido a deseja. Ela o chupa e trepam. Ele não admite seu comando em cima dele e a empurra para o chão. É uma trepada destituída de qualquer sabor, cheiro, carinho. É asséptica e fria como a diretora quer nos mostrar que Caroline goza com economia de prazer. Desta única trepada, ela engravida do marido.

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A cena é mais definida e explícita à medida que rompe com o ritmo e a dinâmica dos personagens antes, na cama. Caroline está com um vestido decotado e vermelho e chega em casa já saciada pelo amante. Ela própria fala ao espectador: “ É tudo uma questão de poder. Agora eu tenho poder sobre ele.” Caroline já não é submissa, tem uma aventura extra-conjugal que a des-liga por algumas horas de seu casamento. Mas Caroline não tem amor e vivendo esta falta, seu ressentimento se torna cada vez mais predominante. Para mostrar seu poder tão ingênuo, monta sobre o companheiro que a derruba com violência para o chão. A cena é de uma agressividade silenciosa e silenciada.

ROMANCE 2.jpg A personagem de Caroline é marcada pela dor psíquica. Sua angústia não acaba pelo fato de estar grávida. É como se estar grávida do seu marido apenas a tornasse mais poderosa sobre o controle da situação. O marido quer ser pai. Contraditoriamente, o mesmo homem que a desprezava e despreza na cama, quer celebrar seu poder, sendo pai, dentro da ordem patriarcal.

No dia que começa as ter as contrações do parto de seu filho, Caroline está aflita porque não consegue acordar seu marido para acompanhá-la. Neste momento, desesperada e no auge de seu ressentimento, abre o gás e fecha a porta, rumo à maternidade. Ao parir, outra cena mostra concomitantemente a casa explodindo e a morte do marido. A última cena é a do funeral do corpo e Caroline, sozinha, com o bebê no colo. Fala, a protagonista: “ Se existe algo maior para as almas, agora estamos quites.”

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