imagens e palavras

REFLEXÕES SOBRE LITERATURA E CINEMA

Fernanda Villas Boas

ENTRETEXTOS, AINDA SOMOS MINORIA


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Ser reconhecida e conquistar direito não é nada fácil para a mulher que quase sempre é incluída entre as minorias. Tem sido tema central a questão da igualdade e de direitos para ambos os sexos no século XX, o reconhecimento da extensão dessas diferenças e desigualdades é de suma importância. Situar a questão de gênero dentro da realidade para encontrar padrões para uma futura integração.

celebridades (27).jpg Muraro (2002) aponta para algumas diferenças de características no aspecto mais geral entre ambos os sexos: no homem ele projeta, emite e exterioriza já na mulher ela, acolhe, recebe e interioriza. Falar de gênero é falar de um lugar e de um modo de ser biopsicossocial. O desafio é entender, analisar, fazer com que venha emergir os conflitos para uma intervenção. Homem e mulher juntos, seja matriarcado ou patriarcado, tirando o melhor de cada, para uma harmonia que seja comum a todos. Os autores Muraro e Boff convergem no seu pensamento com relação a feminino e masculino, afinal são expoentes de autoridade no assunto, com anos de pesquisas e estudos trazem um alerta para uma consciência de integração entre os sexos que será de fundamental importância para a sobrevivência da humanidade no futuro. Sobre essas diferenças aponta Boff (2002) “É imprescindível considerar como elas foram construídas social e culturalmente”. Precisamos ir mais além do conceito de gênero, entender também como as subjetividades pessoais e coletivas foram projetadas. Ainda com Boff (2002): Falar de gênero é “falar a partir de um modo particular de ser no mundo, fundado, de um lado, no caráter biológico do nosso ser, e, de outro, no fato da cultura, da história, da sociedade da ideologia e da religião desse caráter biológico”. [...] “O desafio atual consiste em vermos como devem ser redefinidas as relações de gênero [...]”. (p.18).

Para Muraro (1985), apesar de extensos estudos sobre o tema gênero, violência, na área jurídica, na área de saúde, existe uma carência de mais pesquisas e estudos aprofundados no que diz respeito a relação do feminino com todas as suas questões. Instituições como família, escola e igreja durante todo período desde o paraíso de delicias ensinaram normas e valores culturais. Educando meninos e meninas para que possam compreender o que é próprio de cada um. Conforme aponta Liebel (2004) já desde bem cedo representam papéis atribuídos especificamente aos gêneros, que tem como resultado final influenciar na construção da identidade de gênero. Uma identidade construída socialmente e assimilada como destino natural. Por conseguinte emerge entre os sexos uma relação de conflito, permitindo assim um campo fértil para a prática da violência. Para Hanada (2010) a violência contra a mulher se dá em proporções que é passível de uma intervenção em diversos níveis com profissionais,uma equipe multidisciplinar e um trabalho de rede eficaz.

nadar (27).jpg Afirma Pinto (2010) que muitas foram às conquistas dos movimentos feministas no período dos anos 80. Na luta pelos direitos da mulher, temas como violência, sexualidade e igualdade em todos os níveis foram debatidos, buscando educação, direito saúde materno-infantil, igualdade de direitos nas relações conjugais. Pinto (2010) defende: Uma das questões centrais dessa época era a luta contra a violência, de que a mulher é vítima, principalmente a violência doméstica. Além das Delegacias Especiais da Mulher, espalhadas pelo país, a maior conquista foi a Lei Maria da Penha (Lei n. 11 340, de 7 de agosto de 2006), que criou mecanismos para coibir a violência doméstica e familiar contra a mulher (p.17).

No Brasil, a Lei 11.340/06, denominada Lei Maria da Penha, surgiu como resposta a diversos movimentos e lutas em defesa das mulheres, bem como uma forma de dar atendimento às Convenções internacionais, surgindo com o intuito de modificar a relação entre as vítimas dos delitos de violência doméstica e seus agressores, criando mecanismos para coibir, prevenir e erradicar a violência contra mulher. A violência doméstica e a violência contra a mulher foi e ainda é muitas vezes tolerada, incentivada e até mesmo aceita em diversas sociedades, seja por motivos religiosos, aspectos culturais, morais e sociais. No Brasil, a Lei 11.340, também conhecida como Lei Maria da Penha foi sancionada com a clara intenção do legislador de modificar a relação entre as vítimas e os seus agressores, o nome Maria da Penha foi uma homenagem a uma mulher que se tornou símbolo da luta das mulheres, símbolo da resistência a sucessivas e constantes agressões de seu ex- esposo. Antes o trabalho da mulher se restringia ao lar, nos últimos anos ela passou, em muitos casos, a ser a principal provedora de seu lar e essas manifestações feministas fizeram com que ela deixasse de ser esposa e mãe por tempo integral e tivesse a oportunidade de refazer sua identidade como profissional, mãe e esposa.( Castells, 2002) A luta da mulher pelo seu lugar ao sol encontra forças em movimentos feministas em vários países pelo mundo, onde mulheres insatisfeitas lutam não só pelos direito de igualdade, mas luta também contra toda forma de preconceito e discriminação. A saída da mulher para o mercado de trabalho tem causado impactos na sua vida e no seu cotidiano, que no exercício de múltiplos papeis questiona-se qualidade de vida no trabalho e o reflexo que repercuti na família, como esta lidando com essas múltiplas tarefas a sua. Pensar na mulher moderna é entender a luta como um caminho para não viver mais subordinada na sombra ou mesmo em uma condição desigual. O papel da mulher se transformou a partir do momento que a mulher saiu de casa para se especializar e conquistar o seu lugar no mercado de trabalho. Segundo Costa e Oliveira (2010), é importante considerar que isso é devido a um lento processo que põe em destaque no final do século XIX, principalmente para a antropologia histórica, o papel da família como “célula fundamental” da sociedade. A mulher deixa seu papel de simples reprodutora e volta seus olhares para funções mais preponderantes dentro da sociedade. Com o advento do capitalismo viu-se a necessidade da mulher sair de sua inércia e passando a ajudar nas despesas do lar, ocorrendo mudanças na sociedade transformando-a em uma sociedade industrial–capitalista. Com o avanço tecnológico, a família, inevitavelmente, sofreu alterações em seu cotidiano. Pinto (2009, p. 15,16) “No Brasil, a primeira onda do feminismo também” se manifestou mais publicamente por meio da luta pelo voto”. O movimento feminista foi um dos pontos de partida para que as condições de direitos e de igualdades tivessem mais expressividades, fazendo mais visível a luta pelos direitos de liberdade e conquistas. Feminismo é um vocábulo usualmente utilizado em diversas acepções correlatas, tais como as seguintes, anotadas por Houaiss (2001):

Doutrina que preconiza o aprimoramento e a ampliação dos direitos das mulheres na sociedade; movimento que milita neste sentimento; teoria que sustenta a igualdade politica, social e econômica de ambos os sexos; atividade organizada em favor dos interesses e direitos das mulheres (p.1324).

Para Silva (2006) no Brasil uma importante conquista para as mulheres foram as Delegacias de Defesa da Mulher criadas pelo governo estadual, que reprime todo tipo de atentados contra a mulher, a primeira em 1985 em São Paulo e muitas outras conquistas os movimentos feministas sucederam e realizaram. Entre outras, o ano de 2004 foi escolhido pelo Governo federal o Ano da Mulher, mas nem tudo são flores nessa trajetória. Na análise de Touraine (2010) no final do século XIX, na Inglaterra as mulheres lutaram e conquistaram o seu direito de votar em 1918, no Brasil a luta pelo voto foi a primeira conquista do movimento de mulheres em 1932 com a promulgação do Novo Código Eleitoral Brasileiro, mesmo assim as mulheres continuavam a sofrer nos locais de trabalho, oficinas, fabricas, o movimento perdeu sua força e só volta a ter expressividade na década de 60. Touraine (2010) relata o movimento feminista produz sua própria reflexão crítica, sua própria teoria. O feminismo da segunda metade do século XX: com mulheres de classe média, nas áreas de humanidades, da critica literária e da psicanálise. Sempre houve e haverá mulheres que vão resistir e lutar contra sua condição. Na luta por liberdade as mulheres pagaram com a vida. A inquisição foi implacável com qualquer uma que manifestasse contra os dogmas da igreja. Segundo Parisi (2009) vivemos em uma época de mudanças em que os modelos patriarcais dominantes estão sendo abandonados, frente às conquistas e mudanças. Percorrer o desenvolvimento da psique depois de longos milênios com valores introjetados como naturais, podem contribuir para uma melhor compreensão do feminino.

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