imagens e palavras

REFLEXÕES SOBRE LITERATURA E CINEMA

Fernanda Villas Boas

ADEUS À LINGUAGEM- O ELOGIO DA IMAGEM


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Adeus à Linguagem dirigido por Jean Luc Godard é um mosaico de perfeita desconstrução da linguagem e da lógica feitas para pautarmos nossos desejos. no seu lugar há superposições de imagens. Pode ser visto com perfeição tanto em 3D como em 2D com a diferença apenas da invenção 3 D que se torna no filme uma nova linguagem. Eu vi mais de uma vez em 2 D. Porque Godard brinca com as sequências, como com o nosso inconsciente que não tem um tempo determinado e controlado. Este filme se propõe a questionar as palavras e o que é dito no cinema e que na maioria das vezes não completam em absoluto o que as imagens falam. A ideia do diretor é mostrar a inconsistência das palavras e suas variações nem sempre entendidas na relação imagem e palavra. Desde seus primeiros filmes, Godard experimenta filmar sem se preocupar com a linearidade da narrativa tradicional que ainda existe na cinematografia. Sua melhor invenção, desde o Cinema Novo dos anos 60 do século XX é quebrar com a estrutura de uma história que precisa ser contada, com princípio, meio e fim. A genialidade deste grande diretor está em filmar abstraindo-se da verosemelhança e do entendimento lógico. Ele nos faz imaginar e abstrair o que está sendo mostrado na tela, como trechos compostos e decompostos em fragmentos desde os primeiros filmes, como Pierrot Le Fou e Alphaville dos anos 60 do século XX.

adeus a linguagem 2.jpg Em Adeus à Linguagem Godard nos deixa a missão de interpretar livre e subjetivamente o que vemos dentro de nós, ou seja, nossas imagens inconscientes estão presentes no que o autor quer revelar ao desconstruir a linguagem formal. No caso, uma reflexão profunda sobre a natureza, a natureza animal e a natureza humana. São estas naturezas que se mesclam e nos seduzem pela beleza plástica, sendo muitas cenas próximas à pintura de Renoir e Van Gogh. A natureza em estado da mais pura beleza em movimento. O campo se confunde com a água do mar. Há a presença do instinto simbolizada por um cão. O casal e o que eles falam não nos chama a atenção afetiva, pois seriam subjacentes às suas pessoas. Adeus à Linguagem traz imagens recorrentes dentre as quais a mais bonita e seguramente forte é a da protagonista segurando uma grade tendo como fundo o mar. É uma presa da linguagem que não fala, apenas observa. O mar e a cor azul predominam durante todo o filme clamando por liberdade, por inovação, pela liberação das emoções inconscientes. O cão é um elementos de transição entre o casal e a natureza. O cão é símbolo do guardião que ao mesmo tempo leal, é livre e brinca. Nós humanos estamos precisando mesmo de muita poesia para reaprendermos a brincar e criar nossos mais inusitados desejos. Essa é a mensagem. De vida, imagens do inconsciente que percorrem todo nosso trajeto desdea infância, dando adeus à linguagem no sentido cognitivo e sintático, para abrir mão dos enquadramentos que a razão e a cultura tanto impõem. Nossas ideias e questionamentos estão livres como em um poema com metáforas expressas nas imagens maravilhosamente belas da natureza que é vida, presente em todos e em tudo. O cão está salvo, assim como nossos sentimentos mais profundos.

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