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REFLEXÕES SOBRE LITERATURA E CINEMA

Fernanda Villas Boas

HANAMI-CEREJEIRAS EM FLOR

Cerejeiras em flor é um filme sobre o amor e a morte.Quando Trudi (Hannelore Elsner) descobre que seu marido Rudi (Elma Wepper) tem uma doença grave, ela sugere que ambos visitem os filhos em Berlim, sem contar a eles sobre o estado de saúde do pai. Como Franzi (Nadja Uhl) e Karl (Maximilian Brückner) não dão muita atenção aos pais, eles resolvem partir para o mar Báltico onde tudo começa a mudar.


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O filme Hanami- Cerejeiras em Flor nos encanta desde o início pela excelente direção de Doris Dorrie, delicada e profunda nesta produção franco-alemã de 2009. O tema é o amor de um casal mais velho que vive pacatamente numa cidade da Alemanha, sem muitas pretensões nem desejos, ele, alemão e metódico é um homem fechado, com muita dificuldade de mostrar suas emoções e Rudi, sua mulher é uma japonesa que quando jovem sonhava com a dança e a arte. Trudi Angermeier (Hannelore Elsner), não consegue sequer pensar na possibilidade de conhecer nada sem a companhia de seu marido, Rudi (Elmar Wepper). Rudi, por sua vez, não deseja grandes aventuras na vida. Tudo o que ele quer é jantar e tomar uma cerveja logo após sair do trabalho para casa, situada num vilarejo bucólico, tão bonito quanto triste em algum lugar da Baviera.

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Quando Trudi sabe que seu marido Rudi ( Elmar Wepper) está sofrendo de uma doença terminal, ela precisa decidir se vai contar a ele ou não. Por sugestão médica, ela busca fazerem algo juntos, como realizar um velho sonho e, em princípio, sem contar nada ao marido, vão visitar filhos e netos em Berlim. Ao chegarem na cidade, Rudi e Trudi percebem que os filhos estão tão ocupados com suas próprias vidas que não têm tempo para eles. São egocêntricos e se aborrecem com a visita dos pais, ficando nítido a falta de afeto e de carinho, expondo uma ferida da relação pouco amorosa da família. A filha, Karolin tem um caso com outra mulher que ainda se esforça em mostrar Berlim ao casal. Eles, entretanto saem bem decepcionados para ver o mar Báltico, onde têm recordações do passado. Lá ficam bem na intimidade, com a ternura habitual de Trudi com o marido terminal. Lá ela expressa seu desejo de ir a Tóquio visitar o outro filho e ver o monte Fuji que sempre foi seu sonho. Rudi, ranzinzo reluta, justificando que é melhor que o filho venha vê-los e a velhice não lhe permite ver um monte tão longe. Rudi aceita a rejeição, como sempre e na mesma noite, sua alma se revela dançando na sala como jovem e morrendo serena e clara ao dormir.

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Rudi não aceita a morte da mulher e mais que a negação, ele se torna inseguro mesmo depois de estar com os filhos. Aqui há um desdobramento sensacional porque a ação passa a ser em Tóquio onde Rudi viverá seu luto no partamento do filho mais novo, Klaus, de forma intensa trazendo à tona sua alma, dentro das belíssimas cores das cerejeiras em flor que além da fragilidade simbolizam a efemeridade da vida, a primavera, significando começo e renovação da natureza. Esta transformação está muito bem representada pela figura da dançarina de butoh, Yu que trava uma amizade pura com Rudi, ensinando-lhe a doçura do momento, a flexibilidade natural que necessitamos ter para nos conhecermos profundamente e enfrentarmos perdas e tristezas. Através da dança no parque, Yu ensina a Rudi a importância do externo para o interno. Ou seja, a butoh se guia pela sombra que cada movimento sugere. Por isso,conhece-se o eu profundo através de nossa sombra projetada no mundo. Eles se tornam amigos, brincam, e filosofam sobre a vida.

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Na dança Butoh apresentada no festival de cerejeiras pela moça Yu, a diretora nos transmite a presença da sombra através dos gestos e movimento do corpo. Tendo nós, ao mesmo tempo, consciência do exterior e do nosso espírito, e sendo o nosso espírito uma paisagem, temos ao mesmo tempo consciência de duas paisagens. Ora, essas paisagens fundem-se, interpenetram-se, de modo que o nosso estado de alma, seja ele qual for, sofre um pouco da paisagem que estamos vendo — num dia de sol uma alma triste não pode estar tão triste como num dia de chuva — e, também, a paisagem exterior sofre do nosso estado de alma — é de todos os tempos dizer-se, sobretudo em verso, coisas como que “na ausência da amada o sol não brilha”, e outras coisas assim. Assim, a arte que queira representar bem a realidade terá de que dar através duma representação simultânea da paisagem interior e da paisagem exterior. Resulta que terá de tentar dar uma intersecção de duas paisagens. Tem de ser duas paisagens, mas pode ser — não se querendo admitir que um estado de alma é uma paisagem — que se queira simplesmente interseccionar um estado de alma (puro e simples sentimento) com a paisagem exterior. Rudi recupera sua expressão e junto a Yu faz o último desejo de sua mulher Trudi, indo conhecer o monte Fuji que significa um homem tímido. Lá Rudi encontra a morte num balé inesquecível pela estética, quando dança com sua mulher, numa visão artística, a qual nos emociona e extasia por sua beleza.

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