imagens e palavras

REFLEXÕES SOBRE LITERATURA E CINEMA

Fernanda Villas Boas

MORTOS INVISÍVEIS


miseria.jpg Desaparecidos e Mortos

Disseram-me um dia que não sentisse nada que fosse maior que eu mesma. Quantos ônibus cheios de cadáveres não me deixaram um pouco morta também? Quem tem coragem de simular a sua indiferença é porque tem mais o que fazer. Eu escolhi não pensar. Eu consegui me colocar em cada morto em cada célula vibrante que pára de viver. Sei que eu me identifiquei com os mortos, deserdados, comidos e tragados pelo desequilíbrio da terra e da insensatez do ser humano.. A minha dor é universal, é humana e não cabe em mim. Por favor me ajudem a sentir esta dor com um eco de piedade, compaixão. Por favor, tenham compaixão de mim. Eu sou aquelas almas, eu sou o inesperado, o sem aviso prévio. Eu sou cada fala calada, cada morto dolorido se desfalecendo contra um monstro, dormindo distraído, talvez beijando até os primeiros tremores. Será que o mundo está cego? A troca feita jogou a dor para a maioria das pessoas que se tornaram tão secas, egoístas e audiência. Mesmo assim, vejo muitas pessoas que iguais a mim não cederam ao fogo nem à ruína dos tempos. Não se pode pensar diferente? Se no meu estado muitos corpos morrem? Por que não expurgar meu sentimento de extrema solidariedade? Até quando as pessoas vão continuar a achar o que o show da vida as mata cada centímetro de alma E nós temos tamanho? Que sabes do poder? Quem arruma a casa? Chorei e fiquei tensa esses três dias de inundação e soterramentos. Peço a deus que ilumine cada alma que ficou sem nada, mas como dizem eles mesmos: ficamos com vida. Até quando?

menino.png A minha agitação é normal. Não é humano assistir a um espetáculo sem a menor reprovação. Seja o mais frio dos seres. Ele tem um elo com a imagem que vê. Existem vozes caladas. Existem crianças que pagam por sua vida a sua própria vida. Quem mandou não cuidar? Onde estavam as verbas da última enchente? Mas, lastimo, me parece que as forças dos governos sumiram e tanto se omitiram que não evitaram esta tragédia. Preferia poetizar a pouca vida de Maria Luz, nascida em Março e morta brutamente aterrada com pouco tempo para dar seu último suspiro.

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