imagens e palavras

REFLEXÕES SOBRE LITERATURA E CINEMA

Fernanda Villas Boas

O SABOR DA VIDA NA DELICADEZA DOS SENTIDOS

Sentaro (Masatoshi Nagase) dirige uma pequena padaria que serve dorayakis - bolos recheados com pasta doce de feijão vermelho. Quando uma senhora de idade, Tokue (Kirin Kiki), se oferece para ajudar na cozinha, ele relutantemente aceita. Mas Tokue prova ter mágica em suas mãos quando se trata de fazer "AN". Graças à sua receita secreta, o pequeno negócio logo floresce e, com o tempo, Sentaro e Tokue abrem seus corações, revelando velhas feridas.
Título original An


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Sabor da vida poderia ser uma história comum de um encontro entre duas pessoas diferentes que se aproximam por uma razão, no caso, a procura por trabalho. Entretanto, para nossa surpresa, o filme de Naomi Kawase vai além da linguagem trivial dos filmes enquadrados em uma forma repetitiva e previsível. O filme é quase um poema pela sua profundidade de questões existenciais e emocionais.

SABOR-DA-VIDA-06Novembro2015-2.jpg Logo de início, vemos a senhora Tokue na porta da loja onde Sentaro vende dorayakis e neste plano, ela está em pé no limiar da porta. Ele nega o seu pedido para trabalhar, com justificativas financeiras. Ela se ausenta, mas volta. Sentimos que vai se expressar, sem que se saiba o que pode acontecer entre as falas de um rapaz e uma veha de 76 anos que nada têm, em comum. Assim está desnudado o ser humano com suas inseguranças, preconceitos e pontos de vista. Não, sem aviso, Tokue é curiosa e senta-se na loja observando, falando quase que para si mesma e ganhando espaço no lado emocional de Sentaro. Assim, ela se oferece a mostrar como deve ser feita a pasta doce de feijão vermelho, que é uma metáfora para a aproximação dessas duas pessoas solitárias, que se deixam ouvir através de um doce. Assim que Tokue faz a primeira panela de pasta, Sentaro se maravilha com o gosto e ela passa a trabalhar para ele. A loja fica cheia, tem gente fazendo fila e eles falam sobre o Sol, as folhas de cerejeira, a vida que o rapaz já não via. Cabe a Tokue mostrar a profundidade da noite, do vento,do sol, dos campos onde os feijões nascem e conquistar pouco a pouco o coração do rapaz triste e fechado.

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Importante a presença da jovem amiga de Sentaro que está fugindo de casa com um pássaro na gaiola, ou seja, está em busca de libertação que será concedida através de Tokue com quem mantém uma bela relação de amor.

Naturalmente, dentro da relação dos três personagens solitários há obstáculos e aqui não é diferente. Por meio de perguntas da jovem, sabe-se que Tokue, teve lepra e mora em um sanatório. A sequência leva a boatos na cidade e a dona da loja determina o afastamento de Tokue por razões da doença. Ao perceber que ninguém vai mais comprar os dorayakis, Tokue desaparece, mandando apenas um carta para o rapaz. É uma carta otimista e íntima que reforça o sentimento de amizade e carinho por ele.

Tempo de transformação, as flores das cerejeiras caem, Santero e a jovem vão em busca de Tokue atravessando a barreira da distância.Um novo tempo para todos, no sanatório, conversam sobre a vida, a morte e a lepra como um doença passível de cura. Como estão unidos dentro da natureza, sentem-se em sintonia. É um prenúncio da morte de Tokue, que deixa para Santero o material de cozinha para que ele prossiga com seus dorayakis e liberta o canário da gaiola, o que leva a jovem a ser mais independente. Enfim, vê-se Santero em plena praça vendendo seus dorayakis em plena superação. A transformação de um rapaz triste e angustiado em uma criatura que, através da sabedoria e delicadeza de Tokue aprende a viver feliz. sabor da vida 4.jpg


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