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REFLEXÕES SOBRE LITERATURA E CINEMA

Fernanda Villas Boas

OLMO E A GAIVOTA

A comoção decorrente do documentário, que aborda com sensibilidade nuances em torno da depressão, fez com que existisse uma certa expectativa sobre o filme dirigido por Petra Costa e Lea Glob. Olmo e a Gaivota, um filme bastante complexo em vários sentidos. Petra também não está sozinha na direção, dividindo a tarefa com a dinamarquesa Lea Glob, exigência do modelo de financiamento implementado. Entretanto, o maior desafio de Olmo e a Gaivota está diante das telas: trata-se de um filme dúbio, mais ficção que documentário.


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Este filme de Petra Costa e Lea Glob ( 2015) constrói uma narrativa que ultrapassa a linha do documentário. O filme nos surpreende como ficção a partir do universo de Olivia, uma atriz casada que de repente se vê grávida e questiona intimamente se tem condições psicológicas de ser mãe. Ela é angustiada entre a ideia de amar o teatro e contracenar com seu marido e seu desejo inconsciente e maternal de ter um filho. Logo de início, percebe-se sua vida atuando a peça “ A Gaivota “ de Tchekov. Uma mulher densa dentro de um personagem dominador, na peça, Arkadia, uma mulher envelhecendo e Nina que se perde em sua loucura. Olivia tem o animus bem resolvido, dentro de um olhar junguiano. Serge tem uma anima evoluída dentro do aspecto feminino da dualidade arquetípica macho/fêmea.

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O animus segundo Carl G. Jung é a representação masculina na mulher que, primeiramente se identifica com o pai e passa a dirigir suas ações para o Logos, i.e. a razão. O animus em Olivia lhe dá um padrão de comportamento através do conhecimento. Ela atravessa suas paixões e medos através do animus, e sua base afetiva se funda numa necessidade instintiva de proteção, o que a faz projetar-se nos homens que conhece desde o pai, o irmão e , no caso, seu marido.

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O casal se une pelo Animus de Olivia e a Anima de Serge que é fortemente marcada pela doçura, compreensão e aceitação da feminilidade da alma. Ele é poético e sua parte feminina é traçada através do teatro ao lidar com o universo de tantas atrizes, indo até essas imagens primordiais. O filme se constrói sobre a gravidez de Olivia e o casal vive na realidade o que estão interpretando. Eles são eles mesmos. Não seria esta, a grande sacada do roteiro? O quanto representamos ou somos inteiros? O olhar da câmara somado às excelentes atuações dos atores, nos embriaga de fantasia, imaginação, angústias que mal podem ser definidas. Eles são muito próximos do que se chama de felicidade e de uma sensibilidade comovente. A polaridade está presente quando precisam questionar seu futuro, o dinheiro para viver, a necessidade de estarem juntos se amando com essa criatura que está crescendo na barriga da mãe.

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Olmo é uma árvore fecunda como ele e a gaivota, sem dúvida, é a alma feminina que se espiritualiza e se concretiza ao longo de toda a narrativa, nos deixando grávidos de luz e movimento, sem sabermos ao certo, qual será o final? Uma alegria, um brinde à amizade, ao sonho, à união sincera e emocionante que não deveríamos perder. olmo.jpg


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