imagens e palavras

REFLEXÕES SOBRE LITERATURA E CINEMA

Fernanda Villas Boas

BAGDAD CAFE

Depois de brigar com seu marido e abandoná-lo na estrada, a turista alemã Jasmin (Marianne Sägebrecht) caminha pelo deserto do Arizona até chegar ao posto-motel Bagdad Café. Recebida com aspereza por Brenda (CCH Pounder), a dona do local que acabou de colocar o marido para fora de casa, Jasmin aos poucos se acostuma com os clientes e hóspedes do motel.
Título original Out of Rosenheim - Bagdad Cafe


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Bagda Café ( 1987) dirigido por Percy Adlon como toda obra de arte tem mais de uma leitura. Em pleno deserto nos EUA, uma senhora alemã, Jasmin, se separa do marido e segue um caminho árido, quente e solitário. Poderíamos dizer que o deserto simboliza a alma de Jasmin naquele momento de sua vida. Ela encontra, no fim do mundo, um motel desolado e pobre onde quem manda é Brenda, outra mulher que também se separou do marido, mas que traz características opostas de Jasmin. Brenda é uma mulher negra, humilde e autoritária que tem sob seus cuidados os filhos e hóspedes daquele lugar sem quase nada, onde as pessoas quase sobrevivem de ar.

Bagdad-Cafe.jpg Jasmin parece vir de outro planeta. E, vem da Alemanha com uma bagagem europeia, outro universo que sem dúvida, assusta os moradores do café-motel. Ela é rejeitada por Brenda, uma vez que acontece o fenômeno do outro, o estrangeiro, aquele que eu não quero amar, porque não é igual a mim. Essas diferenças, aproximam as duas mulheres e seu Animus vai sendo valorizado à medida que uma passa a ceder às diferenças e a aprender com a outra a possibilidade de uma transformação dentro de si mesmas, assim como no Bagda Café. A paixão brota no coração de Jasmin que contamina a todos com seu senso de humor, sua garra em renovar todo o lugar, tornando-o habitável. Um hóspede, Rudi, faz sua pintura e através da composição vemos uma nova Jasmin nascer no meio do deserto americano. Jasmin se desnuda da couraça alemã, tornando-se mais feminina e doce.

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No campo da psicologia analítica Brenda e Jasmin se completam, lidam com as subjetividades dentro da interseção de uma subjetividade individual com os processos arquetípicos do inconsciente coletivo. Deste modo, duas pessoas podem se tornar conscientes de como seus processos individuais participam da objetividade do inconsciente coletivo e por ela são afetados. Jasmin e Brenda, com as aquisições históricas pessoais, que são o foco das relações de objeto, misturam-se com um substratum objetivo, que Jung chamou de inconsciente coletivo. O substratum objetivo do inconsciente coletivo tem sua própria dinâmica, que é caracterizada por formas preexistentes de natureza impessoal e universal, separadas e independentes dos indivíduos. Agora, a descoberta destas dinâmicas somente é possível através da experiência individual e das subjetividades combinadas, no caso, de ambas as mulheres no filme. A experiência assim caracterizada é profundamente curativa de si mesma e em si mesma. Eu denomino tal noção como “campo interativo” – uma compreensão que inclui ativamente as dimensões subjetiva e objetiva. O campo interativo está situado “entre” o campo do inconsciente coletivo e o domínio da subjetividade, ao mesmo tempo em que é intersectado por ambos. Em sua abordagem, a natureza objetiva do inconsciente coletivo é dominante. Jung vê uma subjetividade individual engajada ao nível arquetípico para revelar o sentido ou qualidade de um dado momento, o que significa que se podem experimentar aspectos das propriedades dinâmicas de um campo que transcende a consciência individual. Assim ambas se transformam e derrubam as paredes da solidão tão bem expressa na canção I am calling you. Elas atendem ao chamado da alma e ganham força e coragem para enfrentar uma vida nova e feliz. bagdad cafe 3.jpg


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