imagens e palavras

REFLEXÕES SOBRE LITERATURA E CINEMA

Fernanda Villas Boas

CENTRAL DO BRASIL : um olhar sobre a cegueira de quem não lê

Central do Brasil filme dirigido por Walter Salles é um filme-de-estrada que conta a história da relação entre uma senhora que escreve cartas para pessoas analfabetas a parentes distantes e um garoto que quer encontrar seu pai. Por esse filme, Fernanda Montenegro foi indicada ao Oscar de melhor atriz.


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Central do Brasil dirigido por Walter Salles ( 1998) é uma metáfora do Brasil onde todos andam para diferentes direções, numa pressa nervosa para sobreviver. Fui ver este filme há 18 anos e de lá para cá, quero deixar meu registro. A educação tem piorado alucinadamente por razões político-econômicas. Migrantes nordestinos que chegam ao Rio de Janeiro em busca de trabalho para receber um salário de fome. A beleza do filme está na sua atemporalidade, sua consciência de nossa identidade. São milhões e milhões de analfabetos contra uns 5% que parecem saber ler, formarem-se e viverem com dignidade. Toda obra de arte tem sua leitura sobre a realidade. Uma leitura sobre a falta de leitores alfabetizados. Uma leitura sobre a cegueira, pois que quem não lê é cego.

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Através do trabalho como escritora de cartas para passantes na Central, Dora, professora primária ganha alguns trocados de pessoas que lhe ditam uma carta para parentes que moram distante, no interior do Brasil. Ela, simboliza a educação, deslocada do lugar suposto ser. Ela, como ex professora, recebe moedas para sobreviver. Seu senso de realidade é tão grande como sua perplexidade diante de um público variado, em um cenário cotidiano que representa nosso país. Dora não tem mais esperança. Está velha, dentro em breve, caduca. De repente, o destino lhe prega uma peça e ela vê uma possibilidade de mudança através da relação afetuosa com o menino Josué ( Vinicius de Oliveira) que acaba de perder a mãe em um atropelamento. Josué em hebraico significa " salvação". Ele aparece para nos acordar para a realidade do interior nordestino de onde veio e quer voltar para ver seu pai. Ora, é a criança, que alerta para o movimento social e psicológico da educação. Aprendemos a aprender se houver desejo. Josué é teimoso e determinado, como deveria ser a consciência dos que estão crescendo para a vida. Uma transformação a ser feita na educação pública que dezoito anos após este filme, está morrendo, agonizando sem recursos e o que é pior sem professores com formação sólida.

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Para aprender é preciso desejo e desejo vem da pulsão de amara, de estar junto, de escutar e falar. Dora e Josué fazem uma ponte entre o que precisa sair da estagnação e da miséria para buscar esperança, convicção nas gerações que estão por vir. O impacto dos dois universos nos deixa mareados de emoção, pela gentileza da ex professora e seu despertar para a vida que há muito não lhe dava mais nenhuma alegria. Ao saírem para o sertão do Ceará, passam pelas estradas desertas, num road movie, onde há certezas, sustos, frio, fome e miséria. Tudo é seco, constrangedor, deserto como as almas que surgem do nada. Há a esperteza no caminhoneiro e a troca de valores por um prato de comida. Há, em contrapartida, uma troca de afeto tão maior que toda a paisagem por onde se movimentam suas almas ávidas e inseguras no meio do mundo. O final é uma interrogação. Para onde vai Josué ao decidir morar com sua família? O que será daquele menino? ?quem vai lhe ensinar a ler e escrever? Fica a pergunta, enquanto Dora, retorna ao seu lugar de escrevinhadora, uma vez que a missão está cumprida. Mas seus olhos voltam com brilho ao retornar solitária para a Central do /Brasil. Já pode morrer com uma alegria: Josué encontrou seu ninho e terá chances se lhe for dadas. Ela lhe deu a primeira palavra, o lápis, a vontade de aprender a enxergar o mundo ao saber ler. Esta é a leitura mais impactante e urgente para a nossa cultura. Até quando preferiremos permanecer cegos, num país de quase cegos? Daí a densidade da luz a cruzar os horizontes de tantos brasis dentro de um grande Brasil-Central do Brasil.

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