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REFLEXÕES SOBRE LITERATURA E CINEMA

Fernanda Villas Boas

QUAL É A COR MAIS QUENTE?

Adèle (Adèle Exarchopoulos) é uma garota de 15 anos que descobre, na cor azul dos cabelos de Emma (Léa Seydoux), sua primeira paixão por outra mulher. Sem poder revelar a ninguém seus desejos, ela se entrega por completo a este amor secreto, enquanto trava uma guerra com sua família e com a moral vigente.


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O filme de Abdellatif Kechicihe ( 2013) Azul é a cor mais Quente nos leva ao brotar da sexualidade através do sentimento puro e inocente de Àdele, na fase da vida onde a inquietação hormonal é maior que qualquer lógica e a protagonista caminha a favor dos ventos com rajadas fortes e um céu azul como a cor do cabelo de Emma por quem se apaixona e se entrega de corpo e alma.

O narrativa é sobre esta transição da adolescência e seus ímpetos, sua irracionalidade proposta pelo vulcão que nos arrebata e deixa seu fogo presente. A passagem da adolescência para o dia a dia adulto é um momento difícil de viver e ainda mais difícil de explicar. Trata-se, sim, de uma produção ímpar sobre descoberta da juventude. O amor e o sexo estão ali, é claro, mas como pano de fundo para algo bem mais complexo. Adèle (Adèle Exarchopoulos) é uma garota de 15 anos que divide sua rotina entre completar o ensino médio e dar aulas de francês para crianças. Determinado dia, ela conhece Emma (Léa Seydoux),

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Ádele é esta adolescente reativa a qualquer intenção sexual, sem ainda ter feito sua opção sobre o objeto sexual. A princípio não gosta do amor hetero e num relance do olhar mais forte que a razão sente-se totalmente envolvida com Emma, uma moça mais rica, artista plástica e independente. Não se busca soluções para um impulso, e Àdele vai se entregar a Emma de olhos fechados. Essa é a dimensão de sua primeira paixão.azul a-cor-mais-quente1.jpg

Emma tem o cabelo azul. Azul é a cor quente muito bem escolhida pelo diretor, por ser efêmera e excêntrica. Tanto atrai como desaparece, porque é fugaz, sem chegar à essência. Atrai, porque traz consigo a liberdade de mudar a cor e o gênero. Elas se amam, riem, dentro de uma entrega total, um amor genuíno que não a plenitude por ser efêmero.

A diferença entre as duas moças, é o afeto verdadeiro de Àdele que admira a companheira mais velha, quem sabe, mais experiente, mas que não está inteira na relação. Aos poucos, nota-se um abismo entre as duas, quando na festa para amigos de Emma, Esta, expõe com clareza seus interesses artísticos e seu narcisismo, afastando a namorada, que lava a louça, e pela primeira vez sente que não pertence àquela turma. Àdele é professora de crianças, gosta de ensinar, é do subúrbio, pega ônibus e por isto, tem um olhar diferente sobre o mundo requintado de Emma. Um olhar crítico de quem tem consciência de que não vai se completar até porque ela mesma, questiona sua escolha porque gosta de homens também.

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Seu olhar vago e doce procura um amor maior. Assim, elas têm sua primeira crise de ciúme porque Àdele fica com um colega e transa com ele. A avidez e a insegurança se misturam tanto que as duas se separam de forma raivosa e dramática, como se a vida fosse terminar ali, naquele ponto nevrálgico quando não se tem a chave para si mesmo. Ádele sofre o inferno de sua paixão, fica sem chão, se desestabiliza até esquecer da outra e da cor azul restar apenas tardes fogosas, risonhas que irão embaçar-se com o tempo. Percebe-se na desilusão amorosa que um pouco de Àdele ficou com Emma, quando sozinha ela caminha na rua, vestida de azul, com trajes de mulher em busca de si mesma e de sua felicidade.

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