imagens e palavras

REFLEXÕES SOBRE LITERATURA E CINEMA

Fernanda Villas Boas

NINFOMANÍACA- A DOR DA SOLIDÃO

Bastante machucada e largada em um beco, Joe (Charlotte Gainsbourg) é encontrada por um homem mais velho, Seligman (Stellan Skarsgard), que lhe oferece ajuda. Ele a leva para sua casa, onde possa descansar e se recuperar. Ao despertar, Joe começa a contar detalhes de sua vida para Seligman. Assumindo ser uma ninfomaníaca e que não é, de forma alguma, uma pessoa boa, ela narra algumas das aventuras sexuais que vivenciou para justificar o porquê de sua auto avaliação.


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Ninfomaníaca dirigido por Vars Lan Trier (2013) é um filme longo dividido em dois, volume I e volume II que tem sua ação toda centrada no fluxo da consciência de Joe através de seu diálogo com Seligman. O filme começa do fim, ou seja, quando Seligman encontra Joe caída e machucada na rua e a leva para sua casa para ajudá-la de início. Contudo, Joe fica lá, o que torna a história mais perto da fantasia e da imaginação, porque o espectador fica envolvido pela narrativa e o diálogo constante entre os dois, semelhante a sessões de análise. Há uma pontuação exata, no que Joe fala, as imagens do inconsciente e há uma confiança e transferência em Seligman.

Este é meu ponto de vista. Fazer uma análise junguiana da história de Joe, ninfomaníaca desde jovem e cética, seca e sofrida pelo caminho escolhido, pela compulsão sexual e suas perigosas aventuras. O diretor quer dizer através da personagem sua visão científica e nada romântica da trajetória de uma ninfomaníaca e também pretende romper com o moralismo cristão da cultura ocidental de uma forma rude. A narrativa traz as imagens da infância e sua precoce sexualidade infantil quando já goza no banheiro com uma amiguinha. Joe pede para que um rapaz lhe tire a virgindade. Seu corpo está no comando de brincadeiras que faz no trem, com uma amiga. Joe seduz todos os homens e os leva ao banheiro onde transam em pé.

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A ninfomania é uma doença psicológica que pode ter cura quando tratada a tempo. Com Joe não houve apoio. Ela se apoia na sua compulsão. Quando precisa de trabalho, encontra no chefe Jerôme, um homem que a atrai e dramaticamente ela chega perto do amor, o que negaria para sempre, pois que para ela, o amor é egoísta e possessivo. Por insistência eles ficam juntos e têm um filho que ela rejeita. Joe não sabe nada sobre o amor e nega. Jerôme, o marido ainda insiste, mas ela volta ao vício que a alimenta e as coisas mudam de figura. O pensamento pós-moderno compactua com esses questionamentos. Haverá somente sexo como uma complementação à pulsão?

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O filme é cru. Não há recheios em relação à nada, nem a ninguém. A Ninfomaníaca é magra, sem graça, sem alegria, sem nenhum tipo de afeto. É uma mulher que se põe a favor da aventura, da fluidez seca do sexo livre e compulsivo. Não importa se está, por exemplo, com três homens negros que não falam sua língua. Para ela quanto mais perigoso, melhor é o ato sexual. Joe passa por uma fase em que não goza. É quando tenta viver com Jerôme e o filho, paras depois abandoná-los para sempre. A vingança final de Jerôme é agredir Joe e deixá-la deitada no chão da rua, que é onde o filme começa, numa leitura circular. Assim, Joe e Seligman fazem essa análise juntos de uma forma objetiva, direta, sem sentimento no meio, só sexo é dito. Se foi bom, se foi ruim, não importa. A vida de Joe gira em torno do sexo e quando ela, por um triz tenta amar, não goza. Seu sexo não dá lugar a nenhum romance e por isso ela se acha uma pessoa má.

ninfo-joe.jpg Nas entrelinhas, o diretor nos diz que há moralismo nas relações. Não se sofre por amor. Ele reflete sobre o casal que se separa por causa de Joe e depois se une. Joe é uma espécie rara, que como a árvore contada pelo pais, acaba não sendo a mais bonita. Assim seria a vida, assim seria o sexo. Todo sexo para a ninfomaníaca é tudo no momento. E assim presume-se que seria a vida. O distúrbio sexual não é a causa das dificuldades neuróticas, mas, como estas, é um dos efeitos patológicos criados pela adaptação deficiente da consciência, isto é, a consciência confronta-se com situações e tarefas que não estão ao seu alcance. Ela (a consciência)

ninfomaniaca-negros.jpg O distúrbio sexual não é a causa das dificuldades neuróticas, mas, como estas, é um dos efeitos patológicos criados pela adaptação deficiente da consciência, isto é, a consciência confronta-se com situações e tarefas que não estão ao seu alcance. É uma característica pós-moderna, que aliás, muitos poucos admitem existir. A morte ao amor, ao romantismo. A vez de buscar no sexo, o prazer e ainda ter total liberdade para fazer sexo da maneira que entende ser. De acordo com Carl Gustav Jung: “Onde impera o amor, não existe vontade de poder; e onde o poder tem precedência, aí falta o amor. Um é a sombra do outro.” “Ninguém que haja passado pelo processo de assimilação do inconsciente poderá negar o fato de ter -se emocionado profundamente e de ter-se transformado.” A protagonista Joe começa a não sentir mais prazer e na medida que a trama avança, só vemos violência e destruição.

Para aumentar a sensação de desconforto, Von Trier e seu diretor de fotografia Manuel Alberto Claro investem em tomadas granuladas. O diretor também faz referências claras a filmes anteriores, em especial Anticristo, repedindo uma sequência apenas para apresentar um resultado diferente, não sem antes deixar seu espectador bastante tenso.

Depois de perder tudo pela sua agressividade masculina, Joe pensa em como seria viver sem sexualidade. Talvez, assim, não tivesse mais culpa nem se considerasse má. Um discurso antes do final chama a atenção e realmente merece a reflexão: Se um homem agisse como Joe, ele seria objeto de julgamento? Diante de tantas palavras, von Trier realmente acerta em cheio aqui, ao apontar para a sociedade machista em que ainda vivemos. E o ponto final nos mostra Seligman querendo transar com Joe que num relance atira nele, que representava todo o poder sobre ela e do qual ela se livra. “Que eu faça um mendigo sentar-se à minha mesa, que eu perdoe aquele que me ofende e me esforce por amar, inclusive o meu inimigo, em nome de Cristo, tudo isto, naturalmente, não deixa de ser uma grande virtude. O que faço ao menor dos meus irmãos é ao próprio Cristo que faço. Mas o que acontecerá, se descubro, porventura, que o menor, o mais miserável de todos, o mais pobre dos mendigos, o mais insolente dos meus caluniadores, o meu inimigo, reside dentro de mim, sou eu mesmo, e precisa da esmola da minha bondade, e que eu mesmo sou o inimigo que é necessário amar?” ( Jung, Carl Gustav)

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Ninfomaníaca Ninfomaníaca dirigido por Vars Lan Thiers (2013) é um filme longo dividido em dois, volume I e volume II que tem sua ação toda centrada no fluxo da consciência de Joe através de seu diálogo com Seligman. O filme começa do fim, ou seja, quando Seligman encontra Joe caída e machucada na rua e a leva para sua casa para ajudá-la de início. Contudo, Joe fica lá, o que torna a história mais perto da fantasia e da imaginação, porque o espectador fica envolvido pela narrativa e o diálogo constante entre os dois, semelhante a sessões de análise. Há uma pontuação exata, no que Joe fala, as imagens do inconsciente e há uma confiança e transferência em Seligman. Este é meu ponto de vista. Fazer uma análise junguiana da história de Joe, ninfomaníaca desde jovem e cética, seca e sofrida pelo caminho escolhido, pela compulsão sexual e suas perigosas aventuras. O diretor quer dizer através da personagem sua visão científica e nada romântica da trajetória de uma ninfomaníaca e também pretende romper com o moralismo cristão da cultura ocidental de uma forma rude. A narrativa traz as imagens da infância e sua precoce sexualidade infantil quando já goza no banheiro com uma amiguinha. Joe pede para que um rapaz lhe tire a virgindade. Seu corpo está no comando de brincadeiras que faz no trem, com uma amiga. Joe seduz todos os homens e os leva ao banheiro onde transam em pé. A ninfomania é uma doença psicológica que pode ter cura quando tratada a tempo. Com Joe não houve apoio. Ela se apoia na sua compulsão. Quando precisa de trabalho, encontra no chefe Jerôme, um homem que a atrai e dramaticamente ela chega perto do amor, o que negaria para sempre, pois que para ela, o amor é egoísta e possessivo. Por insistência eles ficam juntos e têm um filho que ela rejeita. Joe não sabe nada sobre o amor e nega. Jerôme, o marido ainda insiste, mas ela volta ao vício que a alimenta e as coisas mudam de figura. O pensamento pós-moderno compactua com esses questionamentos. Haverá somente sexo como uma complementação à pulsão? O filme é cru. Não há recheios em relação à nada, nem a ninguém. A Ninfomaníaca é magra, sem graça, sem alegria, sem nenhum tipo de afeto. É uma mulher que se põe a favor da aventura, da fluidez seca do sexo livre e compulsivo. Não importa se está, por exemplo, com três homens negros que não falam sua língua. Para ela quanto mais perigoso, melhor é o ato sexual. Joe passa por uma fase em que não goza. É quando tenta viver com Jerôme e o filho, paras depois abandoná-los para sempre. A vingança final de Jerôme é agredir Joe e deixá-la deitada no chão da rua, que é onde o filme começa, numa leitura circular. Assim, Joe e Seligman fazem essa análise juntos de uma forma objetiva, direta, sem sentimento no meio, só sexo é dito. Se foi bom, se foi ruim, não importa. A vida de Joe gira em torno do sexo e quando ela, por um triz tenta amar, não goza. Seu sexo não dá lugar a nenhum romance e por isso ela se acha uma pessoa má. Nas entrelinhas, o diretor nos diz que há moralismo nas relações. Não se sofre por amor. Ele reflete sobre o casal que se separa por causa de Joe e depois se une. Joe é uma espécie rara, que como a árvore contada pelo pais, acaba não sendo a mais bonita. Assim seria a vida, assim seria o sexo. Todo sexo para a ninfomaníaca é tudo no momento. E assim presume-se que seria a vida. O distúrbio sexual não é a causa das dificuldades neuróticas, mas, como estas, é um dos efeitos patológicos criados pela adaptação deficiente da consciência, isto é, a consciência confronta-se com situações e tarefas que não estão ao seu alcance. Ela (a consciência) O distúrbio sexual não é a causa das dificuldades neuróticas, mas, como estas, é um dos efeitos patológicos criados pela adaptação deficiente da consciência, isto é, a consciência confronta-se com situações e tarefas que não estão ao seu alcance. É uma característica pós-moderna, que aliás, muitos poucos admitem existir. A morte ao amor, ao romantismo. A vez de buscar no sexo, o prazer e ainda ter total liberdade para fazer sexo da maneira que entende ser. De acordo com Carl Gustav Jung: “Onde impera o amor, não existe vontade de poder; e onde o poder tem precedência, aí falta o amor. Um é a sombra do outro.” “Ninguém que haja passado pelo processo de assimilação do inconsciente poderá negar o fato de ter -se emocionado profundamente e de ter-se transformado.” A protagonista Joe começa a não sentir mais prazer e na medida que a trama avança, só vemos violência e destruição.

Para aumentar a sensação de desconforto, Von Trier e seu diretor de fotografia Manuel Alberto Claro investem em tomadas granuladas. O diretor também faz referências claras a filmes anteriores, em especial Anticristo, repedindo uma sequência apenas para apresentar um resultado diferente, não sem antes deixar seu espectador bastante tenso.

Depois de perder tudo pela sua agressividade masculina, Joe pensa em como seria viver sem sexualidade. Talvez, assim, não tivesse mais culpa nem se considerasse má. Um discurso antes do final chama a atenção e realmente merece a reflexão: Se um homem agisse como Joe, ele seria objeto de julgamento? Diante de tantas palavras, von Trier realmente acerta em cheio aqui, ao apontar para a sociedade machista em que ainda vivemos. E o ponto final nos mostra Seligman querendo transar com Joe que num relance atira nele, que representava todo o poder sobre ela e do qual ela se livra. “Que eu faça um mendigo sentar-se à minha mesa, que eu perdoe aquele que me ofende e me esforce por amar, inclusive o meu inimigo, em nome de Cristo, tudo isto, naturalmente, não deixa de ser uma grande virtude. O que faço ao menor dos meus irmãos é ao próprio Cristo que faço. Mas o que acontecerá, se descubro, porventura, que o menor, o mais miserável de todos, o mais pobre dos mendigos, o mais insolente dos meus caluniadores, o meu inimigo, reside dentro de mim, sou eu mesmo, e precisa da esmola da minha bondade, e que eu mesmo sou o inimigo que é necessário amar?” ( Jung, Carl Gustav)


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