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REFLEXÕES SOBRE LITERATURA E CINEMA

Fernanda Villas Boas

MADAME BOVARY E O SÉCULO XXI

Na França do século XIX, Emma Bovary (Mia Wasikowska) é a jovem e bela esposa de um tradicional médico de uma pacata cidade. Ela dá início a uma relação extraconjugal para tentar se promover na sociedade e melhorar seu status social. Porém, suas atitudes levam-na ao oposto deu seus objetivos. Filme dirigido por Sophie Barthes (2009)de obra homônima de Gustave Flaubert, escritor realista francês.


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Madame Bovary e o século XXI

Madame Bovary, romance escrito em 1857 foi considerado um escândalo na época. Há o adultério de Emma, um ultraje para a época e uma critica à igreja e à burguesia. Flaubert foi a julgamento diversas vezes pelo romance e em uma de suas defesas, Flaubert declarou Emma Bovary c’est moi (eu sou Emma Bovary), falando assim da sua própria indignação com o clero, a sociedade e as coisas mundanas. Proust considerava Flaubert como um escritor de ruptura, por ter dado sentido e substância ao romance de análise psicológica. O filme dirigido por Sophie Barthes, de 2009 é uma adaptação delicada e dramática que tem como objetivo mostrar a personalidade de Emma Bovary, sem seguir exatamente o romance, mas se aprofundando nos devaneios e delírios que tornam Emma uma personagem infeliz por não aceitar ser quem ela é, nem querer aquela vida sem nenhuma emoção que tem ao lado do marido. Antes de casar-se Emma teria passado a sonhar em viver em algum velho palacete, como as castelãs de longos corpetes, que sob o trevo das arcadas passam os dias com o cotovelo na pedra da janela e o queixo apoiado na mão, olhando ao fundo da paisagem, para ver se do campo chega algum cavaleiro com uma pluma branca no chapéu, galopando um corcel negro”. Essa fantasia da realidade sentimental em uma idade precoce marcou seu desenvolvimento com o passar do tempo. Emma passa a ter um amante burguês e decadente, Rodolphe que logo a abandona porque não quer compromisso. Esta é a sua primeira decepção amorosa e sofre uma grave crise de nervos, começando a ter desmaios, delírios e descompensações somáticas. Emma é sensível, apesar de sua estupidez. Aliás, tanto ela como outros personagens apresentam a estupidez humana, algo rudimentar, ignorante e imediatista. A crítica de Flaubert é perfeita, no sentido da época decadente da sociedade e da igreja. Quanto à sua patologia, ficou conhecida na psiquiatria como bovarismo, ou seja, um pessoa incapaz de se adaptar à realidade, desconfiada e com muita auto estima, ambiciosa e vulgar podendo estar o complexo presente em muitas mulheres consumistas e invejosas e frustradas que se apresentam no século XXI.

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Emma é uma mulher diferente do seu tempo. Sua figura esbelta e sua educação não deixam dúvida de que é mais intelecto do que corpo. Ela busca o poder através de seus amantes. Ela quer uma vida rica, com objetos de luxo,e quer a qualquer preço.

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Por meio de sua personagem, o autor faz críticas a dois aspectos que considera os mais destacados de sua época – o tédio e a estupidez. Emma tem sonhos inacessíveis e a remetem a um mundo que simplesmente não existe. A monotonia lhe é insuportável: “Seu coração ficou vazio mais uma vez, e então recomeçava a mesma sequência de dias. E eles se seguiriam assim, um depois do outro, sempre iguais, incontáveis, e não trazendo nada! O futuro era um corredor escuro, no fim do qual havia uma porta bem fechada”. E de alguma forma todos os personagens do romance são vítimas dessa monotonia. No momento em que Flaubert escreve, pode-se dizer que o romantismo está morto e enterrado, e só sobrevive como objeto de zombaria. O que realmente desespera Emma é a imensa defasagem entre o que vive e aquilo a que aspira, assim como o fato de estar convencida de que, mais do que ninguém, tem o direito de realizar seus sonhos.

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O segundo assunto, que também permeia toda a obra do autor, é a estupidez. As traições de Emma parecem ser percebidas por todos da pequena comunidade. Diferente das mulheres prendadas e dedicadas ao marido, ela é uma verdadeira consumista que afunda Charles em dívidas homéricas e irreversíveis. Dinheiro, luxo, sexo, chantagem. Emma buscava amantes que pudessem levá-la aonde ela quisesse, já que sozinha ela não poderia ir. Ela queria ser quem não era – fenômeno hoje designado pela psiquiatria como Bovarismo.

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