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REFLEXÕES SOBRE LITERATURA E CINEMA

Fernanda Villas Boas

O FEITIÇO DE ÁQUILA - A UNIÃO DOS OPOSTOS

Ladyhawke (no Brasil, O Feitiço de Áquila / pt: A Mulher Falcão) é um filme lançado em 1985, dos gêneros fantasia, romance e aventura, dirigido por Richard Donner que mostra a união do feminino com o masculino.


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Farei uma análise arquetípica do filme O Feitiço de Áquila dirigido por Richard Donner ( 1985) com base na psicologia arquetípica do desenvolvimento. Ladyhawke é um filme de fantasia romântica e simbólica, estrelado por Matthew Broderick, Rutger Hauer e Michelle Pfeiffer. Há ciclos vitais ao longo do filme, através dos diferentes dinamismos arquetípicos: o matriarcal, o patriarcal e a Alteridade. O dinamismo matriarcal é representado pela lua, a noite e outras forças da natureza e no conto, a princesa é transformada em falcão durante a luz do dia para não encontrar-se com o namorado, Navarre, que, por sua vez, transforma-se em lobo durante a noite. O dinamismo patriarcal é representado pelo sol, o dia, o falcão enfeitiçado. O Deus pai com seu aspecto solar irá substituir a força da mãe lunar. As leis do patriarcado separam os opostos e instaura a lei do dever, da obediência, da moral entre outros. Neste dinamismo, o rei manda um bruxo fazer um feitiço que separe para sempre Navarre de Elene: estes serão Lobo e Falcão respectivamente , enquanto houver dia e noite.

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Portanto, jamais poderão casar-se. Esta sentença é o ponto central do filme: reina nas camadas mais profundas do inconsciente. Entretanto, Navarre simboliza o herói e fará o impossível para quebrar este feitiço. Diz o personagem que há quatro gerações foi-lhe dada a missão de matar o bispo de Áquila e,como todo herói, segue seu percurso para executar o bispo que representa as forças do Mal.

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A imagem arquetípica é representada não somente através das figuras do Rei e do Herói, como também através dos poderes do mundo animal e vegetal. Aí está o encanto do filme, pois o espectador pode deslumbrar a força do Falcão, símbolo da Anima que está sempre montado no ombro de Navarre e a sua suave fidelidade de Lobo, símbolo do Animus durante todas as cenas da noite azulada, cinza e negra.

Além destes dois arquétipos, deve-se mencionar o trickster, que é o Rato, menino esperto que foge do castelo e tem a mania de mentir e de roubar para sobreviver. O Rato simboliza a desobediência às leis rígidas do castelo e ao mesmo tempo, a liberdade que tenta conquistar ao desarrumar a ordem interior. No encontro do herói Navarre com o Rato haverá um desenvolvimento da personalidade dos dois através da troca, das vivências e principalmente na confiança que gradativamente um passa a ter no outro.

Também há uma transformação no símbolo do feiticeiro que uma vez consciente do Mal que havia feito, se arrepende e, com os mesmos poderes, traz os personagens de volta à sua forma humana, usando a força para o Bem e a união. Assim que o filme começa, tudo que se sabe é de um rei muito poderoso a que todos temem, menos o Rato que com sua íntima vontade e esforço foge em busca de sua liberdade, passando a simbolizar esta liberdade que tantos querem mas não logram obter por não desobedecerem ao dinamismo patriarcal. Neste desenvolvimento, o casamento só poderá ser feito quando a busca interior para a ascese for facilitada, levando cada um à sua própria essência. Esta união é simbolizada pela eclipse que possibilita a união do patriarcal com o símbolo solar, e o matriarcal, com o símbolo lunar.

A estória se desenrola na idade Média e o mistério maior a ser desvendado é um grande feitiço que através de seus sábios poderes transforma Elene em falcão e Navarre em um lobo para que eles nunca possam encontrar-se como homem e mulher. Enquanto houver dia e noite- as forças do Mal não permitirão este encontro. A razão do feitiço está no amor obsessivo do rei pela jovem princesa, filha do Conde D’Anjou. Nesta fábula, percebe-se que a consciência matriarcal não é ultrapassada no desenvolvimento da personalidade. Isto porque o lado lunar está além do conhecimento científico além de relacionar-se sempre com aquelas experiências ligadas ao universo dos mistérios, crenças e da sabedoria. A consciência matriarcal experimenta o obscuro e misterioso processo de compreensão como algo em que o si-mesmo age como totalidade. O si-mesmo domina como lua e mais além, como a Grande Mãe, simbolizando a totalidade do mundo noturno.

Já a consciência patriarcal leva a uma independência relativa do inconsciente, que coloca o ego no comando de um sistema diferenciado da consciência. A consciência patriarcal é representada pelo Rei e pelo herói Navarre, sempre em busca da realização de sua meta. Há nele, uma prontidão constante em reagir até alcançar os processos de abstração que auxiliem na concretização de ideias e planos, sem conteúdo emocional. O símbolo central do filme é o da evolução, tanto da consciência matriarcal simbolizada pela luz da noite e da lua, como da patriarcal, simbolizada pela luz do dia e o sol. A partir do inconsciente coletivo se desenvolvem, gradativamente, sob a regência da força estruturante dos arquétipos, estabelecendo o eixo ego-self, realizando sua adaptação da vida interna com a vida externa.

Através deste desenvolvimento, as forças estruturantes da sombra se expressam de modo indiscriminado e a sombra passa a funcionar como a parte que se tenta afastar de si mesmo, como os sentimentos de cobiça, desamparo, sofrimento e derrota. Quando, por exemplo, o falcão é ferido, a sombra funciona na expressão de tristeza e dor. Elene é curada pelo feiticeiro e diz ao Rato, que ela é tristeza. A cura é feita em nossas almas depois de sermos feridos. Só através da dor, pode-se ter consciência de nossa totalidade. Elene se torna mais forte e brinca, dança e re-nasce curada. A confrontação de Navarre com a sombra se dá quando uma noite, enquanto Lobo, ele derrapa no gelo e é salvo pelo Rato. Daí em diante fica menos arrogante com o adolescente e lhe agradece ter salvo sua vida. Depois de ver-se ferido e curado, Navarre pode ver-se com seus defeitos e chegar à sua essência sem tantos conflitos internos. Em o Feitiço de Áquila, a sombra aparece através dos símbolos do lobo e do falcão.

No momento da eclipse, Navarre e Elene retomam suas formas humanas na frente do Bispo de Áquila que olha nos seus olhos e desmancha o feitiço. Finalmente, o sol volta ao seu estado fundamental e a lua aparece das profundezas celebrando-se a união destas duas consciências em um novo plano da psique humana.

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