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REFLEXÕES SOBRE LITERATURA E CINEMA

Fernanda Villas Boas

A EDUCAÇÃO NO BRASIL


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O papel atribuído aos processos educativos, principalmente aos que tratam da educação técnico-profissional, qualificação e requalificação, é produzir cidadãos participativos, colaboradores e adeptos do consenso passivo, não mais trabalhadores dotados de sentido de pertencer a um grupo e reivindicadores de seus direitos trabalhistas. Essa estreiteza de compreensão do formativo, do educativo e da qualificação coloca tais processos fora da dimensão ontológica do trabalho e da produção, para, então, reduzi-las ao economicismo do emprego, ao fetiche do mercado de trabalho e, mais exatamente, à possibilidade de se fazerem empregáveis, sob o mote da adequação ao mercado, ressalte-se, de um mercado onde não há lugar para todos.

sociedade.jpg Nesse cenário, as tentativas de implementação de propostas pedagógicas democráticas não transcorrem de maneira suave ou natural. Além disso, como argumenta Frigotto (1994), andar na contracorrente, resistir e propor alternativas não é exatamente uma tarefa fácil e confortável. Assim, as proposições nesse sentido se dão nos embates, nas tentativas frustradas, pois, geralmente, essa não é a proposta de um grande grupo, mas de minorias, para não dizer de sujeitos isolados, que vingam paulatinamente. Principalmente porque, na maioria das vezes, o discurso neoliberal é endossado até pela legislação, a exemplo das Leis 5.692/71 e 9.424/96 e do Decreto 2.208/97, que trazem implícita a tese do livre mercado e da mencionada possibilidade das pessoas alcançarem sucesso na negociação de sua força de trabalho no mercado capitalista, pela adoção da perspectiva individual da especialização, em contraposição à formação politécnica e ao direito à cidadania. Essa relação que se estabelece entre trabalhadores e capitalistas é pungente, porque, não é considerada uma relação de classes, não permitindo, portanto, a negociação entre eles, em pé de igualdade. Essa fetichização acaba por tornar atraente a dita relação, de modo que chega a convencer até profissionais da educação, conformando assim suas opções político-pedagógicas, que, muitas vezes, se materializam na prática e nos posicionamentos assumidos nos espaços escolares. Constitui, pois, engodo e torna a preparação profissional do tipo trabalho de Sísifo, já que, além do embate de forças entre compradores e vendedores da força de trabalho, o que deixa o trabalhador sempre em desvantagem na negociação, este não estará jamais à altura do que deseja o mercado de trabalho, que, voraz e traiçoeiro, se modifica, constantemente, causando sempre a impressão de que o trabalhador é incompetente e que é impossível se manter atualizado diante do gigante globalizado e exigente, deslocando, do plano ideológico para o plano individual, a responsabilidade social do Estado. Contudo, em contraposição ao formato de educação mencionado, existe a proposta de educação que se situa na contra hegemonia do projeto neoliberal, que adota um sentido histórico efetivo e se vincula a uma concepção de formação unilateral, cujas dimensões humana e técnica envolvem o plano do conhecimento em relação ao seu caráter histórico, científico, técnico, cultural, político e estético. Nesse sentido, pressupõe-se o desenvolvimento unilateral das capacidades humanas proposto pela educação tecnológica e/ou educação politécnica'", em contraposição à formação técnica e à qualificação polivalente, que prepararam o trabalhador para o domínio de técnicas de execução (sem o contato com a ciência), apenas com o domínio dos recursos empíricos, mesmo em relação a equipamentos sofisticados, e preparam para a intensificação do trabalho.


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