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REFLEXÕES SOBRE LITERATURA E CINEMA

Fernanda Villas Boas

AQUARIUS- a resistência de uma mulher

Clara (Sonia Braga) tem 65 anos, é jornalista aposentada, viúva e mãe de três adultos. Ela mora em um apartamento localizado na Av. Boa Viagem, no Recife, onde criou seus filhos e viveu boa parte de sua vida. Interessada em construir um novo prédio no espaço, os responsáveis por uma construtora conseguiram adquirir quase todos os apartamentos do prédio, menos o dela. Por mais que tenha deixado bem claro que não pretende vendê-lo, Clara sofre todo tipo de assédio e ameaça para que mude de ideia.


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Aquarius, filme brasileiro dirigido por Kleber Mendonça Filho ( 2016) parte de uma metáfora para simbolizar o todo. Aquarius, nome do título é um lugar para todos conviverem juntos e, no enredo, ao contrário, é um edifício clássico na Praia de Boa Viagem em Recife em que todos os moradores vendem seus imóveis por um preço exorbitante para que uma construtora, gerenciada pelo engenheiro Diego ( Humberto Carrão) inescrupulosamente queira torná-lo um condomínio moderno. Contudo, Clara, ( Sonia Braga) a única moderadora restante, resiste a tudo e aos opressores até provar que tem direito de seguir morando naquele prédio. O ponto crucial é a forma como o diretor expõe a ferida do tecido social cujo território está sendo estrangulado por empreiteiras poderosas que fazem face à nova burguesia, sem ética nos negócios, sem respeito aos valores humanos, sem educação no trato diário com as pessoas simples, capazes de crueldades nem sempre desvendadas em nome da ideologia atual de consumo a qualquer preço com muita riqueza e status.

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Aquarius tem a habilidade de resgatar um passado que ainda está vivo através da boa educação, da cultura e da arte de viver. Clara, nos seus sessenta e cinco anos entra na luta diária contra invasões não ditas dentro do prédio vazio. São surubas, evangélicos, entradas e saídas de estranhos num assédio e a constante pressão para sua desistência. Clara discute o assunto com seus filhos, todos preocupados com alguma retaliação. Porém, só Clara sabe mesmo porque cada disco de vinil tem um valor próprio. Porque cada objeto seu tem sua história, é um símbolo de sua vida, seus ídolos, seu ideal democrático que estão em jogo. Ela, uma guerreira, preserva o que passou uma vida para construir e não quer ceder seu patrimônio, sua decoração, seu bem estar por dinheiro nenhum. Clara decide enfrentar o inevitável invasor a seu modo porque a felicidade está dentro dela com seus queridos filhos e neto de visita, além da leal arrumadeira. O filme começa com uma breve passagem a 1979 quando clara se recupera de um câncer. O ano do fim da ditadura. Na parte 2 já estamos neste ambiente tenso que vai criando um suspense impressionante tal a pressão que câmara causa a cada ruído e a todos os movimentos. Aí reside o valor de Aquarius, ir nos acordando para a necessidade de revanche, contra as invasões silenciadas em tantos setores da sociedade, da vizinhança, da cidade sendo invadida e alterada sem permissão. Na parte 3 Clara parte para a sub missão ativa uma vez que Aquarius é o signo da transformação e do amor coletivo e por esta razão está na hora de questionar, incomodar, berrar para mostrar sua identidade, o seu olhar frente às mudanças diárias, líquidas, sem conteúdo humanístico. Em contrapartida, a memória dos anos 80 está presente em Clara e não está estanque. É dessa memória afetiva dos vínculos humanos que a personagem se nutre para o enfrentamento. Uma memória viva que é construída pela saudade de tudo que move e comove. Clara tem consciência da vida, sai com amigos, bebe, faz sexo casual, fuma maconha, tem uma coleção de discos vinil e dança, deixando-nos em pleno êxtase pela leveza de uma mulher muito forte que encara o pesadelo de frente para nos lembrar que a velhice precisa ser vista sob um novo ângulo. O conceito de família está presente na reciprocidade, no diálogo com tempo livre para escutar, rir, estar junto, com o amor de Clara nos mostrando que os valores materiais da sociedade de consumo precisam ser revistos dentro desta sociedade mesquinha e fragmentada. Clara sabe viver em continuidade ao fugir sempre dos padrões impostos. “ Você sabe o que saber que você não está louca quando todos dizem que você enlouqueceu?” pergunta ela à filha. E numa ocasião repentina, Clara é informada através de operários sobre podres lá existentes e junto aos amigos íntimos, arromba as portas dos apartamentos de cima e descobre que está sendo contaminado por pragas de cupins que silenciosa e lentamente irão chegar ao seu apartamento. Logo, descobrem e responsabilizam os culpados, com as provas, com impacto e firmeza, Clara nos brinda com sua vitória sobre a corrupção, o jogo sujo, contra sua presença, emoção e sensibilidade para vencer sempre ao resistir, Clara resgata heroica e brilhante nossa condição humana.

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