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REFLEXÕES SOBRE LITERATURA E CINEMA

Fernanda Villas Boas

A ESCOLHA DE SOFIA

Em 1947 Stingo (Peter MacNicol), um jovem aspirante a escritor vindo do sul, vai morar no Brooklyn na casa de Yetta Zimmerman (Rita Karin), que alugava quartos. Lá conhece Sofia Zawistowska (Meryl Streep), sua vizinha do andar de cima, que é polonesa e fora prisioneira em um campo de concentração e Nathan Landau (Kevin Kline), seu namorado, um carismático judeu dono de um temperamento totalmente instável. Em pouco tempo tornam-se amigos, sendo que Stingo não tem a menor idéia dos segredos que Sofia esconde nem da insanidade de Nathan.


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Em “ A Escolha de Sofia” ( 1982) Meryl Steep dá vida à Sofia sobrevivente do holocausto que vem morar nos Estados Unidos, Nova York Ela é uma mulher polonesa com um inglês cheio de erros, de alguém que está aprendendo a língua. Sofia encontra a razão de viver em Nathan (Kevin Kline), um judeu americano que desde o início se apaixona e cuida dela, que está anêmica, frágil e carente. A relação dos dois vai se tornando bem erótica e sadomasoquista, uma vez que Sofia se submete aos achaques de Nathan e seus repente violentos física e verbalmente dentro de sua personalidade esquizofrênica. A história é intermediada pela figura do Stingo, um aspirante a escritor que aluga o quarto de baixo da casa onde Sofia e Nathan vivem e forma com eles um triângulo amoroso.

. A escolha de fato existe, mas a vida da personagem é tão rica de detalhes e informações que ela, a escolha, não passa de mais uma dentre tantas. Intensa é uma forma sucinta para definir esta obra obrigatória.Sofia", uma mãe polonesa, filha de pai anti-semita, presa num campo de concentração durante a Segunda Guerra e que é forçada por um soldado nazista a escolher um de seus dois filhos para ser morto. Se ela se recusasse a escolher um, ambos seriam mortos. Essa história dramática é contada em 1947 ao jovem "Stingo", um aspirante a escritor e que vai morar no Brooklyn, na casa de "Yetta Zimmerman". Mais do que um filme sobre caminhos da vida, destino e experiências desgastantes, A Escolha de Sofia fortemente aborda a guerra e seus males irreversíveis. Tudo traduzido muito claramente na dor e no pânico de Sofia, a sofrida protagonista que não tem paz, atormentada inquietamente pela culpa e pela aflição. O impacto deste filme é intensamente indescritível. a escolha 3.jpg

Sofia e Nathan eram possuídos por algum tipo de demônios que os faziam devorar um ao outro, e isso envolvia uma boa dose de demência erótica. O desejo de morte e o desejo procriador têm sido sempre um tanto inseparáveis. Isso era essencial para Stingo e para o relacionamento entre Sofia e Nathan.

À medida que os três têm momentos fulgazes, com muita conversa,vinhos, alegria e júbilo, a história paralela vai insinuando o frama de cada um e de como saberão ou não lidar com suas escolhas. Afinal, Sofia é uma mulher profunda que traz em si as cicatrizes do holocausto, se tronando ela mesma um símbolo de todo o genocídio a partir do momento em que relata suas memórias para Stingo e cria uma cumplicidade entre os dois. Neste desenrolar, Nathan se torna cada dia mais agressivo e descontrolado e pelo seu comportamento instável, Stingo se posiciona e encara seu rival. Contudo, mesmo, estando presente, Stingo não consegue romper a relação de Sofia e Nathan que já se torna um tanto patológica. Ela preci8sa da loucura dele para esquecer seus traumas e ele é fascinado pela beleza de Sofia, devorando-a enquanto pode. As brigass levam à primeira separação.

a escolha 4).jpg Stingo, já apaixonado, busca dados da amada e descobre que o pai de Sofia foi anti-semita. Ao voltar à casa, vemos uma Sofia bebendo, sem rumo e é a hora de Stingo se mostrar mais protetor e apaixonado. Aí em um dos flashbackes, ela relata a passagem em que foi forçada a fazer uma escolha. Dentro de um trem para o campo de concentração, é abordada por um nazista que a obriga a escolher um dos filhos para ser queimado. Qual a mãe que entregaria uma filha de colo à morte? Sofia não teve saída e entre gritos e horror é arrancada de sua filha, restando o menino que termina em algum lugar no campo de concentração, longe dela. Este retrato mostra todo o horror do nazismo, sua crueldade, seu prazer mórbido em exterminar não importa quem fosse ali, sob o regime fascista de Hitler.

Sofia se entrega a Stingo, porque ele é seu esteio. Nathan em sua vulnerabilidade volta mais uma vez para ela, porém vem-se a saber que ele é esquizofrênico e inventa toda sua história de vida. Seu irmão diz a verdade a Stingo que passa a ter outro olhar sobre a euforia as mudanças de humor do amigo. Na briga final do casal, Stingo teme pela vida de Sofia e a convence a fugir de Brooklin e ir morar com ele no sul, na fazenda de onde veio. Eles têm uma gloriosa noite de amor e ela foge, deixando apenas um bilhete romântico para o jovem escritor, sentindo-se culpada por abandonar Nathan, sentindo talvez a necessidade de fazer ali, agora, sua segunda escolha. E escolhe a loucura de Nathan que lhe desperta paixão e vida de uma forma exacerbada. É a Escolha de Sofia que a tornou uma mulher profunda e sensual, melancólica e conflituada entre Eros, o instinto de vida e Tânatos, o instinto da morte. Os amantes mortos numa cama, buzinas e a noite quente ardem nos olhos de Stingo atravessando uma simbólica ponte para outra fase de sua vida.

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