imagens e palavras

REFLEXÕES SOBRE LITERATURA E CINEMA

Fernanda Villas Boas

JULIETA: COMO VIVER A FALTA

Em Julieta ( 2016), Almodóvar entrega a história da personagem-título, apresentada em dois extremos da vida: na juventude e na meia idade. De comportamentos completamente distintos, há um mistério que explica tal transformação. É justamente em busca deste segredo que todo o longa-metragem é conduzido.


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Julieta dirigido por Pedro Almodovar ( 2016) centra-se na personagem-título uma professora de filologia clássica que no início do filme está na meia idade e ao encontrar uma antiga amiga da filha resolve escrever à mesma para contar como foi, do seu ponto de vista, sua história. Assim, de volta ao começo, lembra primeiramente como Antía foi concebida num trem com um desconhecido que se tornaria seu pai. O trem é movimento, estão indo a algum lugar no meio do mundo. Nesta passagem há a metáfora do veado, como o instinto selvagem que tanto traz a morte de um senhor, como o sexo entre Xoan e Julieta. Xoan e ela se afastam por um tempo exato dela perceber que está grávida e dele lhe enviar uma mensagem sobre o pé4ssimo estado de sua ex-mulher. É tudo rápido e mágico nas cores íntimas e singulares encontradas por Almadóvar. O vermelho sempre em contraste com cores neutras e lugares escuros. O filme não quer transgredir. Não esse filme. Visita-se as outras obras de modo pincelado, mas o objetivo do diretor é mostrar a dor da perda. Exclusivamente, ele trabalha duas perdas: a morte de Xoan em uma tempestade e a fuga de Antía já com doze anos de idade. Como você sobrevive a duas perdas? É possível seguir uma vida regular?

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Julieta tem a resposta em sua culpa. Primeiramente, a morte de Xoan lhe causa uma depressão que é cuidada com o auxílio da filha e de uma amiga. Contudo,há silêncios que se intercalam com imagens de dependência, desespero, incontida melancolia que jamais seria superada por Julieta. O texto é inteligente e encadeia com elegância essas fases de maneira alinear, em parte, guiando a vida de Julieta por uma trilha sombria de acontecimentos, adicionando aqui e ali pequenas doses de culpa, mistério ou “premonições”, mesmo antes de termos contato com a maioria das coisas que transformará a protagonista de uma jovem curiosa e bela em uma mulher sofrida. A história de Julieta é sobre luto do marido e a perda de Antía até o desalento total de alguém que se vê sozinha e vivendo a falta. julieta 3jpg.jpg

O trabalho ela busca para sobreviver, mas sua vida fica capenga até quando conhece Lorenzo no funeral de sua única amiga, Ava. É intensa a direção de Almodóvar e a trilha sonora composta por Alberto Iglesias, dão conta de um relato introspectivo, analítico e bastante pessoal. Julieta é um filme íntimo.Seu sofrimento toma conta da tela até que passados vinte anos do desaparecimento da filha, Ela recebe uma carta da mesma e trêmula vem a saber que a moça está lhe perdoando pois perdeu, seu filho mais velho. A culpa é o tema questionador de uma existência passada na dor de uma rejeição que nunca teve um motivo esclarecido, nem um modo de reconciliação. Almodóvar nos deixa no caminho para que possamos sentir que não é importante saber-se o fim ou qualquer eventual encontro entre mãe e filha. Cabe a nós imaginar o que não é dito por razões íntimas e desnecessárias explicações que não são cabíveis depois de vinte anos.

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