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REFLEXÕES SOBRE LITERATURA E CINEMA

Fernanda Villas Boas

PERDAS E DANOS

Em Damage, Perdas e Danos dirigido por Loius Malle, Stephen Flemming (Jeremy Irons) é um político conservador do alto parlamento inglês que acaba se envolvendo com a noiva do filho. Ela não está disposta a abandonar o seu relacionamento com o futuro marido, e ele não quer um escândalo na sua carreira, mas apesar disso os dois continuam a se encontrar e Flemming até muda sua vida para poder ver Anna (Juliette Binoche).


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O competente líder do parlamento inglês Stephen Fleming (Jeremy Irons) é um homem de ótima reputação e comportamento familiar exemplar, até que seu filho Martyn (Rupert Graves), contrariando a vontade de sua mãe Ingrid (Miranda Richardson), inicia um namoro com Anna (Juliette Binoche), por quem Stephen também se apaixona de modo incontrolável e se deixa levar pela sedução da moça.

Ao sublinhar a força do mito do amor, força esta sustentada pela promessa de felicidade plena nas chamadas "histórias de amor", o filme aponta também a estratégia desse mito: manter essa promessa de felicidade, afastando o impossível, uma das denominações do real para Lacan, ou transformando-o em proibido. Freud já observara que o amor tende a funcionar como modelo de busca da felicidade e reconhecera sua natureza ilusória no sentido de consolar e tornar tolerável o mal-estar próprio do desejo humano.

Stephen se descontrola ao ponto de começar a perder seus compromissos. É óbvio que Anna não quer compromisso e tem interesse em ficar com o filho e man ter a relação trangressoras com o pai. Como delinear as diferenças e articulações entre o amor e o desejo sexual, termos de uso comum que, na psicanálise, ganham contornos originais? Recorrendo ao texto freudiano e ao ensino de Lacan, fazendo sobressair o tema do amor, percorre, habilmente, as elaborações destes autores, de seu nascimento às suas reformulações, destacando o vigor conceitual ali contido. Sua indicação central é de que o lugar do amor deve ser situado a partir do encontro sempre faltoso do sujeito com a sexualidade, conforme Lacan o formula, avançando na direção apontada por Freud. Eis o mote de três articulações iniciais que contextualizam o pensamento de Freud e Lacan sobre o amor, além de introduzir a perspectiva ética da psicanálise.

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Em “ Perdas e Danos” a situação amorosa se apresenta através de Stephen, um homem com poder e uma vida rígida e sem amor junto à mulher e filhos. A esperança de completude, facilmente reconhecível quando se trata deste sentimento, tem como fundamento uma perda original. Anna tem um trauma desde o suicídio do irmão por quem sentia um desejo incestuoso, uma satisfação primeira e origem de um profundo e permanente anseio por seu retorno. Freud situa a busca amorosa (ou escolha de objeto) em uma perspectiva distinta, mas não independente da sexualidade, uma vez que apoiada nos laços com os primeiros objetos. Tomando o conceito de objeto pulsional em sua radicalidade, Lacan define-o como faltoso. Ou seja, a falta de objeto seria uma condição primordial, marca da entrada do sujeito no mundo simbólico, da linguagem. O amor seria, então, uma tentativa de fazer desaparecer a falta original do desejo. A situação paradoxal do amor, no entanto, também é reconhecida por Freud e por Lacan: se o encontro amoroso entre Stephen e Anna proporciona, por um lado, um certo apaziguamento ao alimentar a ilusão da completude perdida, por outro lado, implica sempre um efeito de logro, pois basta amar para que o sujeito se reencontre com essa hiância estrutural, como diz Lacan, na medida em que o que falta ao sujeito (amante), o objeto. Ambos sabem os danos que estão fazendo aos outros que lhes cercam, mas o instinto erótico é mais forte.

No filme, o amor-paixão se dirige ao outro como objeto, buscando complementaridade e revelando sua raiz narcísica, ou seja, o sujeito ama para ser amado. Acrescenta que a paixão (além do amor, o ódio e a ignorância) é, justamente, a alienação do desejo no objeto.

Lacan destacará, também, do amor como recusa do dom, articulando-o com a pulsão de morte e com a sublimação, pois, em seu centro, habita o vazio e não o objeto. A elaboração teórica encaminhada por Lacan tem como um de seus pontos fundamentais as diferentes posições subjetivas diante do objeto amoroso e dupla possibilidade do amor de manter ou apagar a falta viva do desejo.

Louis Malle faz um filme supostamente erótico, onde os corpos se devoram como que desnudos de proibição ou limites. Eles são transgressores sem perspectiva de duração nem de qualquer verdadeiro laço de amor. É o sexo pelo sexo sem nenhuma ética. Sabe-se que é uma relação patológica e com um final previsível, uma vez que Anna vai se casar com Martyn.

A construção da narrativa segue os encontros ardentes dos amantes, tendo em Anna o elemento perverso de quem é fria, distante e possessiva. Todos da família estão envolvidos no casamento de Anna com Martyn, ainda que a mulher de Stephen seja contra por intuir um comportamento estranho em Anna e também por nutrir um amor bem edipiano pelo próprio filho.

O jogo está armado, as peças mudam de lugar e o acaso dá conta do fim trágico e doloroso, co0m a morte de Martyn e a separação traumática da família e dos amantes, dando um desfecho bastante moralista ao castigar a transgressão amorosa com vigor. Stephen seguirá uma vida de monge como uma punição de um erro irreparável e sem possibilidade de qualquer envolvimento amoroso. Punição pelo que fez e pelo que deixou de fazer.

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