imagens e palavras

REFLEXÕES SOBRE LITERATURA E CINEMA

Fernanda Villas Boas

SHAME- O VÍCIO DE SEXO

Brandon (Michael Fassbender) é um publicitário na faixa dos trinta anos, bem sucedido e bonito que vive e trabalha em Nova York. Distante de sua irmã e aparentemente sem amigos próximos, Brandon secretamente luta contra o vício em sexo, assim ele passa os dias buscando todo tipo de aventuras sexuais desde assistir a filmes pornográficos no computador, contratar prostitutas, buscar mulheres em bares, até terminar por entrar em bar gaye enfrentar sua irmã pela qual sente desejo.


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Shame ( 2011)dirigido por Steve McQueen é um filme que retrata a angústia de um homem solitário, bem sucedido no trabalho, reservado e que, dentro deste comportamento, esconde um viciado em sexo cuja compulsão o leva à decadência moral e ao isolamento completo dos grupos sociais. A narrativa traz uma visão psicológica da solidão atual nas grandes metrópoles e das doenças provenientes da mesma. Essa existência escravizante muito embora disfarçada, leva o protagonista a pensar em sexo o tempo todo sem interessar-se por mulheres, a não ser prostitutas e sites pornográficos, revistas, masturbação compulsiva em qualquer banheiro. A mudança chega na forma de Sissy (Carey Mulligan ), sua irmã, que irrompe sem aviso para passar uma temporada no apartamento de Brandon. A presença da jovem desregrada causa um distúrbio no cotidiano viciado do protagonista - que precisa controlar seus impulsos frequentes.

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A introdução da personagem causa um rompimento não apenas no que estava estabelecido narrativamente, mas também na estética do filme. Com uma câmera elegante, minimalista, e um apartamento asséptico, McQueen reflete a fachada pública de Brandon. Sissy, por sua vez, traz confusão, deixa lixo pela casa e é completamente invasiva. Cada um, à sua maneira, lida com traumas do passado que ambos têm consciência, mas não ousam abordar. Com suas excepcionais atuações de Fassbender e Muligan, Sissy e Brandon são pessoas viciadas em sexo, sem procurarem a raiz da doença. Até a hora que ela afirma: “Não somos pessoas más”. Pela natureza volátil e possessiva de Sissy, e pelo caráter sexualizado de Brandon, nenhum dos dois consegue ter uma relação amorosa estável, saudável – vide a triste cena em que Brandon não é capaz de transar com a gentil colega de trabalho, saciando-se apenas com prostitutas. O cerne da questão está no desejo de incesto que Brandon sente pela irmã e que por constituir tabu, não é consumido e o impede de se relacionar afetuosamente com qualquer mulher, de modo a resgatar o amor por ele jogado na lixeira. Sissy sabe dos problemas do irmão, mas ela mesma é descontrolada emocionalmente e vive uma vida irregular como cantora de bares e uma vida sexual promíscua. O filme SHAME, traduzido chama-se Vergonha.

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A intenção do diretor é mostrar que dentro de uma sociedade puritana e individualista, as pessoas passam como anônimas, dentro de suas neuroses. São vazias e entediadas. Em determinado momento há um número de jazz longo e quando ela canta New York com arranjos de blues. Em outro, um encontro em um restaurante mantém a câmera imóvel e sem cortes, assim como os personagens. As falas quase não existem e quando há fala, é entre os irmãos que se agridem, gritam, para não escutar seus corações. Há cenas subliminares do amor entre os irmãos, como quando ela se joga na cama dele depois de trepar com o chefe. Ela provoca, pega, beija, faz carinho e ele imediatamente a rejeita. Sofrem e se calam. Calam seus segredos. Como uma produção com tantas cenas de sexo é pouco erótica ou excitante? É proposital, naturalmente, porque aí o sexo é doente e incomoda, ao expectador a compulsão do personagem por qualquer tipo de sexo transgressor. O ato sexual, em Shame, é mostrado de maneira incômoda, como um martírio. Ele se molesta, é a imagem do não gozo, a não inserção do eu no ato sexual. Brandon entrega-se às mulheres que cruzam seu caminho como um animal que caminha ao abatedouro.

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O sexo não é consequência do afeto ou da sedução, apenas uma necessidade fisiológica a ser saciada regularmente, como a sede ou a fome, compulsivamente. Sexo em Shame é proveniente de uma ferida que nunca cessa de doer, a ferida narcísica que ele não superou. É um homem muito seco, que não conseguiu ultrapassar o trauma de infância onde o desejo pela irmã é fortemente reprimido. A irmã é o contraponto que traz a dinâmica da vergonha à tona até quando ela tenta suicidar-se e escapa, deixando-o como ele sempre foi, um sociopata solitário, sem amigos, sem ter consciência sequer de si mesmo. Shame é um drama cruel que mostra a ferida e nos deixa um questionamento grave sobre a vida pós-moderna de adultos infelizes com sua patologia, perambulando pelos metrôs, ruas e locais onde podem praticar obsessivamente seu martírio.


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