imagens e palavras

REFLEXÕES SOBRE LITERATURA E CINEMA

Fernanda Villas Boas

THELMA E LOUISE - A LIBERTAÇÃO

O filme conta a história de duas mulheres, Thelma, interpretada por Gina Davis e Louise, interpretada por Susan Sarandon, que, cansadas da vida que levam, decidem partir numa viagem inesperada e cheia de surpresas. Este filme, lançado nos EUA em 1991, tem a direção de Ridley Scott, e foi vencedor do Oscar de Melhor Roteiro Original e do Globo de Ouro de Melhor Roteiro.


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Louise Sawyer (Susan Sarandon), uma garçonete quarentona e Thelma (Geena Davis) uma jovem dona-de-casa, cansadas da vida monótona que levam, resolvem deixar tudo para trás e pegar a estrada. É o começo de uma longa viagem que irá marcar no cinema o início do moivimento feminista contra a cultura do estupro. A metáfora do deserto, em um road movie é a vida que elas vivem e que somente rompendo com o passado patriarcal, renascem e fazem emergir a mulher dinâmica, ousada, sensual que há em cada uma.

ThelmaLouise3-1600x900-c-default.jpeg Nada passa nas lentes do diretor, sem um símbolo do masculino e da precisão destas mulheres, que uma vez amigas, confiam uma na outra em uma história de libertação do machismo norte-americano, a baixaria das atitudes violentas sexual e psicologicamente e principalmente a baixa estima antes presente em seu contexto. É arte, decididamente, questionadora como a estrada, sem fim na qual se jogam de corpo e alma, para se resgatarem como seres humanos.

Será na estrada que elas vão experimentar um grau maior de amizade. Juntas elas buscam lutar contra o opressivo sistema patriarcal, trazendo à tona questões como domesticidade, lei, violência física e simbólica, sexualidade e gênero, numa trama agressiva gerada por uma série de acontecimentos indesejáveis, mas necessários para que elas possam questionar as suas existências. São amigas de muito tempo, mas será na estrada que a amizade vai se desenvolver com maior grau, através de vivências que as colocam em situações irreversíveis, como assassinato e roubos. Até o final emblemático. ThelmaLouise_156Pyxurz.jpg

O desenvolvimento dos personagens é um dos pontos fortes deste filme elas se transformam e expressam os conteúdos inconscientes antes reprimidos, maravilhosamente interpretados pela dupla Geena Davis e Susan Sarandon. Louise é autossuficiente, ganha o seu dinheiro trabalhando como garçonete e representa a mulher que não depende dos homens. Segura de si e responsável por sua amiga Thelma, ela é quem segura a dupla nos momentos de cristalização do conflito principal. A famosa selfie com a Polaroid metaforiza a posição da personagem: com o controle da situação em boa parte da viagem. Louise é experiente, tem um passado interdito sobre um estupro no Texas e sabe liderar. Thelma é doce e suave, sem conhecer o mundo fora das funções de dona de casa. É inocente e ingênua. São estas diferenças, por sinal, que se complementam. Thelma é um retrato fiel da vida doméstica: casada com um marido narcisista e controlador, a moça integra um grupo de mulheres imbuídas do sentimento de pertença em relação ao lar em que vivem. Ela não toma as decisões sensatas, sendo impulsiva na maioria das vezes, mas desenvolve-se e assume as rédeas da situação instintivamente e passa a se conhecer. Elas partem do deserto, onde ou se conheceriam profundamente ou não poderiam bastar-se, conquistando seu espaço na nudez das falas e no espanto das novas atitudes a serem tomadas na grande perseguição masculina.

A contraparte sexual inconsciente, ou seja: o homem tem uma parte feminina inconsciente – que Jung chamou de anima (alma) e a mulher tem uma parte masculina inconsciente – o animus (espírito). Enquanto na primeira metade da vida a consciência lida com o mundo externo através da persona, na segunda metade, a consciência se volta para a relação com o mundo interno e esta relação é intermediada pelo arquétipo Anima/Animus. Estes têm suas bases alicerçadas nas figuras parentais e posteriormente nos contatos com as figuras contrassexuais do circuito de relacionamento do indivíduo. O contato com a anima traz ao homem a possibilidade de se reconectar ao feminino (e não à mulher), ou seja: entrar em contato com as emoções, desenvolver sua afetividade. Para a mulher, o animus traz o masculino que deve ser desenvolvido agora dentro de si, retirando a projeção deste conteúdo das figuras masculinas – pai, marido, filho, etc. Louise tem o animus desenvolvido e com seu trabalho de garçonete, ela não depende de provedor nenhum. Louise se sente responsável por sua amiga inexperiente, Thelma, que nunca saiu da ordem patriarcal e obedece ao marido em todos os aspectos. A famosa selfie com a Polaroid metaforiza a posição da personagem: com o controle da situação em boa parte do tempo, Louise é experiente e sabe liderar, diferente do sorriso de Thelma que sugere inocência e ingenuidade. São estas diferenças, por sinal, que fazem o sucesso da dupla. Elas se complementam. Ao longo da estrada, Thelma faz bobagens como uma adolescente que viveu dentro dos padrões. Entrega-se à aventura, como um sinônimo de transgressão, desde o início, ela não tem consciência do mundo nem dos perigos que sempre existem, até que depois da morte do estuprador e de ser roubada pelo rapaz sedutor, no que diz respeito ao roteiro, desenvolve-se e assume as rédeas da situação de moído inusitado. Isto porque o conteúdo antes preso, se liberta ao longo da estrada, e ela aprende a roubar para sobreviverem, sua fala se transforma e ela sente que outra pessoa brota dentro de si. Louise se torna menos rígida e com esta parceria, elas nos falam de liberdade e das dificuldade de soltar as amarras e de autorizar-se a serem mulheres inteiras, até o fim metafórico onde saltam juntas para o outro lado.

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