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REFLEXÕES SOBRE LITERATURA E CINEMA

Fernanda Villas Boas

ELIS, a vida de uma grande mulher pequena

Cantora desde a infância, Elis Regina Carvalho Costa (Andreia Horta) entra na vida adulta deixando o Rio Grande do Sul para espalhar seu talento pelo Brasil a partir do Rio de Janeiro. Em rápida ascensão, ela logo conquista uma legião de fãs, entre eles o famoso compositor e produtor Ronaldo Bôscoli (Gustavo Machado), com quem acaba se casando. Estrela de TV, polêmica, intensa e briguenta, a "Pimentinha" não tarda a ser reconhecida como a maior voz do Brasil, em carreira marcada por altos e baixos.


elis__de_hugo_prata_.jpg Elis

O filme dirigido por Hugo Prata (2016) faz uma trajetória sobre a vida de Elis Regina dentro de uma cine biografia da cantora visando revelar sua alma expressa pela voz privilegiada de uma mulher corajosa e extrovertida que dentro de si carregou uma dor do universo, uma consciência maior dos sentimentos, que só os artistas possuem e expressam com sua arte. O amor como palavra maior, uma bússola que lhe conduzia o passo desde que começou sua vida artística em São Paulo. O apelido Pimentinha é bem oportuno para uma mulher que quebrou ritos antigos para cantar a dor, a solidão e os sonhos de uma mulher identificando-se com o seu animus a cada sílaba, a cada verso. Desde o início, Elis brilha pelo seu dom de cantar muito, como um passarinho num tom maior. Junto à música. A atriz Andreia Horta introjeta maravilhosamente, a personagem. Elis é também uma mulher apaixonada que se casa com Ronaldo Bôscoli, músico e empresário e tem um filho dentro da relação conturbada por brigas e traições, apesar da paixão fulminante que sente pelo marido, Elis se divorcia e vem a casar com o famoso pianista. Cesar Camargo Mariano, com quem tem duas filhas.

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Sua vida é uma montanha russa de altos e baixos, perdas e confrontos, inclusive, no momento da ditadura onde Elis é interrogada e intimidada a cantar para o Exército sob coação e chantagem. É um momento de estranhamento quando ela questiona seu papel dentro da música, a censura militar e sua liberdade ameaçada. Elis era um ser espacial, uma estrela maior cuja busca pela paz interior falhou no meio do caminho, despindo-a de sua alegria e força admiráveis. Ela passa a beber muito e tomar drogas, assim como quem precisa anestesiar-se todos os dias para sustentar um sonho que começava a se esvair. Elis sofre por sua sensibilidade máxima para com a existência, a realidade e seus amores. Morre ou se mata dentro de casa por overdose com menos de quarenta anos.

elis 4.jpg Elis simboliza uma avidez pela vida maior do que a própria vida seria capaz de lhe dar. Uma vida meteórica que a tornou um ícone da música popular brasileira por sua voz inimitável e sua presença dentro da história por sua postura política e suas ideias visionárias.

Lastimavelmente, o filme está aquém da potência de Elis, pelo fato de fazer uma história linear onde tantos momentos muito sofridos, são revelados por uma câmara fria, desprovida de emoção diante de momentos em que Elis estava começando a questionar sua carreira artística, os valores da indústria musical e a insatisfação de ser apenas uma cifra, um nome a ser usado pelo marketing das gravadoras.

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