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REFLEXÕES SOBRE LITERATURA E CINEMA

Fernanda Villas Boas

MARGUERITE- A HIPOCRISIA DA ELITE

Nos anos 1920, a rica Marguerite Dumont (Catherine Frot) está convencida de que tem uma belíssima voz, e organiza vários concertos privados em sua mansão. Ela é muito apreciada pela generosidade e pelas belas festas, mas ninguém tem coragem de dizer que Marguerite canta incrivelmente mal. Um dia, a artista decide se apresentar em público. O marido teme a reação negativa, mas ela contrata um professor e se prepara para a apresentação de sua vida.


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Dirigido por Xavier Giannoli a partir de um roteiro dele e de Marcia Romano –-Marguerite é protagonizado por Catherine Frot (“Os Sabores do Palácio”), cuja interpretação brilhante lhe rendeu o César, principal prêmio francês, de melhor atriz. O filme é sobre Marguerite Dumont, baronesa da década de XX que reúne inúmeros amigos, a nata da sociedade francesa da região. Seus recitais são sempre pelos órfãos da guerra. Ela recebe muitos convidados e doações mas quando canta, sua voz desafinada não é contestada fazendo seu canto constrangedor e irritante. A ideia do silêncio da plateia está intimamente ligado ao poder de Marguerite, inspirada na figura de Florence Foster Jenkins.

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“Marguerite” é um filme sobre o poder da elite e o silêncio coletivo que levaram à ascensão de regimes fascistas e à Segunda Guerra. A metáfora embutida na voz desafinada significa que se pode desafinar os tons e fazer do canto um instrumento destrutível e caótico quando se está no poder. Assim também são os caminhos da sociedade fascista que lhe faz obedecer, aplaudir e calar diante do abominável. Em um dos recitais o jovem jornalista, Lucien Beaumont (Sylvain Dieuaide), com o amigo Kyrill Von Priest (Aubert Fenoy), se espantam com a falta de talento da mulher, mas também com a completa hipocrisia da alta sociedade que a aplaude. Ninguém tem coragem de contar à Marguerite sua falta de talento, com medo de magoá-la e também para fazer uso de seu dinheiro. . O contraponto é uma jovem cantora talentosa (Christa Théret), que também se apresenta nesse recital e cuja carreira está em ascensão. Marguerite,fechada em si mesma, protegida pelo marido (André Marcon), dependente de seu dinheiro e envergonhado, e seu fiel mordomo (Denis Mpunga), sonha em cantar em um teatro lotado. Sem dúvida é o início de seu delírio e de sua loucura. A personagem vai do cômico naive ao teatro trágico, por sua maneira de não perceber, não ouvir a realidade hipócrita e pesada que a cerca por interesses materiais e a aprisionam na sua ilusão de ser uma grande cantora. Marguerite é uma mulher ingênua, fora da realidade e por vezes, pouco inteligente. Lucien, com um perfil no jornal intitulado “A Voz dos Órfãos”, poderia escancarar a verdade, mas prefere hipocritamente elogiá-la. Marguerite é incapaz de perceber o deboche dos jornais.

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Aliás, ela não leva a sério o que dizem os jornais, e muitas críticas são escondidas pelo fiel mordomo. Ela vai para o grupo avant guarde de Lucien, que a rigor quer apenas explorar sua rica cantora. Marguerite chega a contratar um professor que também é falso e mentiroso, deixando que ela se apresente no teatro sem nenhum preparo para um fiasco. Sua voz simboliza o grito dos inocentes e um aviso que os fascistas vencerão. Ela é quase uma flor surda, uma doçura não vista, abandonada e rejeitada dentro de seu castelo, ela precisa ser escutada, ser amada pelo marido que também está a favor dos nazistas e rejeita brutalmente Marguerite, apesar de sentir compaixão, esta brota da culpa por ter uma amante. Marguerite simboliza o que não existe, aquela pessoa menosprezada e ridicularizada no silêncio do tempo. Quem tem coragem de contrariar uma milionária dentro de sua excentricidade? O poder fala mais alto e todos se dobram à sua loucura. É nisso que reside o mais trágico de “Marguerite”, não apenas a percepção do filme diante da Europa do entre guerras, mas das dinâmicas sociais de classe. Ou seja, uma vez rico ninguém jamais vai lhe apontar seus defeitos e fraquezas. É um comportamento social sádico e perverso que mata aos poucos uma voz desafinada que nunca se ouviu a si própria no seu delírio solitário.

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