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REFLEXÕES SOBRE LITERATURA E CINEMA

Fernanda Villas Boas

O APARTAMENTO: AS CONTRADIÇÕES DE UM PAÍS

Dirigido por Asgarh Farhadi, prêmio de melhor roteiro no Festival de Cannes, O Apartamento conta a história de um jovem casal de atores obrigado a abandonar o lar devido ao risco de desabamento de seu prédio. Enquanto preparam-se para levar ao palco uma versão da famosa peça A Morte do Caixeiro Viajante, Rana (Taraneh Alidoosti) e Emad (Shahab Hosseini, prêmio de melhor ator em Cannes) mudam-se para um apartamento no centro de Teerã.


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O apartamento, filme dirigido por Asghar Farhadi ( 2016) é uma metáfora do Irã, no sentido do desabamento no terreno vizinho, que assim como o país, carece de proteção. Seus habitantes precisam se locomover, levando os pertences para outro lugar. O trincar das paredes e janelas são as feridas que este povo carrega em suas vidas. O casal Emad Etesami ( Shahab Hosseini) e sua mulher Rama ( Taraneh Alidoosti) fazem parte do elenco da peça A morte do caixeiro viajante, um clássico de Arthur Miller. O protagonista da peça e Emad são homens semelhantes em suas reações diante dos impasses da realidade que para eles é insuportável aceitar, ambos encarando os problemas de uma forma subjetiva, que os levam a lutar pela sobrevivência, através de um comportamento assertivo, leal e em busca de justiça. Ambos convivem com dramas que podem destruí-los, mas são eles, os heróis.

Emad, é também professor de meninos adolescentes, sendo paternal e protetor dos meninos que o admiram e respeitam. Há um olhar preciso sobre esta educação com diálogo, companheirismo e amizade. O professor é amigo dos alunos e seu método é atual, preciso e aberto para a crítica e a arte. O mestre mostra aos alunos que é possível aprender com o desejo de se tornar um cidadão ativo e honesto. Uma lição maravilhosa de reconstrução dentro de um mundo cheio de rachaduras, sejam estas, de verdade, ou simbólicas, que precisam ser desconstruídas para a construção de uma nova história, dentro de um novo contexto.

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Na segunda sequência, Rama é agredida no outro apartamento, quando está tomando banho, é levada para o hospital pelos vizinhos que se mostram solidários e preocupados com a insegurança de todos. O subentendido tem mais força moral e ninguém fala sobre o ato de violência, ou o machismo e o que representa uma sociedade com valores religiosos rígidos, pois está implícito na narrativa que Emad ficou ferido com a agressão à sua mulher. As rachaduras se abrem novamente. Assim temos várias camadas dentro do ponto de vista sócio-cultural.

po apartamento 2.jpg A relação do casal é abalada, e dentro do vazio e dos silêncios eles tentam conviver com esta ferida que desonra a mulher violentada e não permite que vivam como no passado. Emad não fala, mas ele tem atitude e segue obcecado atrás do criminoso. As atitudes do casal são opostas, pois, enquanto ele quer justiça, ela quer o silêncio e o esquecimento, recusando-se a ajudar o marido, ainda que toda ferida moral e fisicamente, como são as mulheres iranianas submissas e comportadas. Dentro destes silêncios, limpa-se o sangue das escadas, outra grande metáfora, e o prédio se conforma por temer a polícia. Numa instigante procura, Emad, encontra, através da placa do carro, o agressor, marca um encontro, e temos um desfecho surpreendente. Trata-se de um velho asqueroso, com família e já bem doente. Não se pode prever nada na vida. Somos todos feitos da mesma massa. Emad podai ter matado este homem, podia ter entregue à polícia, mas aí está mais rachaduras que ele não pretende mexer. O país já está desabando em seus ombros e sua mulher quer o perdão. Dentro deste quadro, nada é dito, em frente à família do velho violentador. Como sempre, a tradição ganha força e o diretor não mede esforços para nos dizer que ainda somos fracos diante de um sistema fechado em seus valores tradicionais, ainda que hipócritas e silenciadores. O apartamento demonstra com profundidade este conflito em mudar, desconstruir, criar outra maneira de viver quando tudo está sendo silenciado e esvaziado de sentido.

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